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Nos 40 anos do PT, Lula rejeita autocrítica e ataca 'uberização' do emprego

8.fev.2020 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento de comemoração pelos 40 anos do PT, no Rio de Janeiro - Divulgação
8.fev.2020 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento de comemoração pelos 40 anos do PT, no Rio de Janeiro Imagem: Divulgação

Pauline Almeida

Colaboração para o UOL, no Rio

08/02/2020 23h13

No festival que celebrou os 40 anos do Partido dos Trabalhadores (PT), no Rio de Janeiro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou hoje os pedidos de autocrítica feitos à legenda e os empregos em aplicativos, geralmente chamados de "uberização" da trabalho.

A moda é pedir para o PT fazer autocrítica. A pessoa pergunta para mim: Lula, você não tem autocrítica? É o seguinte, a pessoa que quer que eu faça autocrítica é porque não tem crítica a fazer a mim. Ele que faça crítica a mim! Eu nunca vi ninguém perguntar à direita desse país, que governa há 500 anos, se eles vão fazer autocrítica alguma vez na vida.
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, adotou o mesmo discurso. "Por que não pedem autocrítica para quem deu o golpe, tirou a Dilma, prendeu o Lula e elegeu o [Jair] Bolsonaro? Nós não temos medo de reconhecer os nossos erros, mas não podemos admitir esse tipo de imputação. Nós fizemos muito pelo Brasil nesses últimos 13 anos e temos que nos orgulhar disso", defendeu.

As declarações de Lula e Gleisi vão contra manifestações recentes de nomes importantes do PT, como Aloizio Mercadante e Tarso Genro, que esta semana defenderam a necessidade de a legenda reconhecer seus erros para poder corrigi-los.

A fala de Lula ocorreu durante o Festival PT 40 anos, que lotou a Fundição Progresso, no centro do Rio, com 5.500 pessoas. Lula e José Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, fizeram o evento mais esperado da programação, na noite de hoje.

Lula alternou momentos em que se mostrou antenado com as mudanças sociais pelas quais o país passa com outros em que retomou discursos anteriores, descrevendo o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como golpe.

"Certamente o PT cometeu muitos erros, mas o maior dos 'crimes' foi permitir que o pobre pudesse subir um degrau na escala social", afirmou.

Microempreendedor sem emprego

Quando falou sobre as mudanças sociais, especialmente no mercado de trabalho, apontou para questões sobre as quais, segundo ele, o PT precisa dar respostas, como a dos trabalhadores de aplicativos de transporte e entrega (Uber, Rappi etc).

Lula questionou as novas relações de trabalho, especialmente as mediadas pela tecnologia, e disse que um universitário hoje tem menos tranquilidade sobre a expectativa de conseguir um emprego do que Lula tinha quando tirou o diploma de torneiro mecânico.

A verdade é que estas pessoas estão regredindo nas conquistas que imaginavam ter. Trabalho por aplicativo (…) é o ser humano sendo tratado da forma mais canalha possível, em nome de uma palavra chamada empreendedorismo individual ou flexibilização. O nome é sofisticado, importante, porque as pessoas têm orgulho de dizer. Você não vai ter mais emprego e vai ser chamado de microempreendedor.
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Aproximação dos jovens

Sabendo da necessidade de o PT encontrar novos quadros, especialmente entre os jovens, o ex-presidente fez um discurso voltado para esse público e brincou que tem o tesão de uma pessoa de 20 anos. "Eu resisto ao envelhecimento da minha alma, da minha consciência", disse Lula, que tem 74 anos.

No evento com a base do PT, Lula mostrou ter permanecido como protagonista do partido e pré-candidato às eleições de 2020, mesmo após as denúncias e condenações por corrupção e ao fato de a sua eventual candidatura esbarrar na Lei da Ficha Limpa.

Lula não perdeu a oportunidade de alfinetar o ex-juiz Sérgio Moro, a quem chamou de ladrão, e a emissora Globo, alvo constante também de Jair Bolsonaro. "O que a Globo está preparando? Um 'caldeirão do Huck'", ironizou, sobre uma possível candidatura do apresentador Luciano Huck à presidência.

"Se tem ladrão nesse país foram as pessoas que me condenaram. Eu quero provar que vale a pena fazer política", disse, sendo ovacionado pelos militantes do PT.

8.fev.2020 - O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em evento de comemoração pelos 40 anos do PT, no Rio de Janeiro  - Divulgação - Divulgação
8.fev.2020 - O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Imagem: Divulgação

Confunde-se felicidade com comprar, diz Mujica

Aos 84 anos, Pepe Mujica se tornou um modelo de bom político para a esquerda e foi a outra grande atração do Festival PT 40 anos. O jeito humilde e as falas inspiradoras ganharam muitas palmas do público.

"A pergunta é se você vai gastar sua vida pagando contas e vai perder tempo de afeto e ser um escravo do mercado. A vida não é só trabalhar, mas viver. Tem coisas que você não compra com dinheiro, mas com o tempo que você gastou para ganhar o dinheiro. Confunde-se felicidade com comprar. Assim, você não vai ser feliz, vai ser escravo das contas. Guarde tempo para os seus afetos, carinhos, amigos, para ser solidário com outros seres humanos. Não teremos um mundo melhor se não começarmos a ser melhores nós mesmo", disse.

Lula tem Mujica como um parceiro do período em que os países da América do Sul viveram um ciclo de governantes identificados com a esquerda. Ao falar desse momento, o ex-presidente do Brasil deixou de fora o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, morto em 2013 e alvo de denúncias de autoritarismo.

Além do colega da América do Sul, Lula ainda recebeu o apoio de dois nomes que não são do PT, Manuela d'Ávila (PCdoB), que foi candidata a vice-presidente na chapa de Fernanda Haddad (PT), e Marcelo Freixo (PSOL), que foi recebido com gritos de "prefeito". O deputado federal deve ser candidato a prefeito do Rio neste ano com apoio do PT.

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