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Estudo indica que democracias são piores que ditaduras no combate à covid

Agente de saúde transfere paciente infectado por novo coronavírus no Irã - WANA NEWS AGENCY
Agente de saúde transfere paciente infectado por novo coronavírus no Irã Imagem: WANA NEWS AGENCY

Daniel Buarque

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/05/2020 04h00Atualizada em 22/05/2020 11h56

Resumo da notícia

  • Estudo comparou impacto dos primeiros cem dias da covid-19 em vários países, considerando os diferentes modelos políticos
  • Segundo professor da Unesp, ditaduras estão lidando melhor com a pandemia, em comparação com democracias
  • "Não estamos defendendo que a ditadura é um modelo melhor do que a democracia, mas que nesse caso específico o regime está sendo mais eficiente", diz

A propagação do novo coronavírus pelo mundo revelou um cenário controverso para cientistas políticos acostumados a defender as vantagens de regimes democráticos sobre qualquer outra alternativa de governo.

Segundo um estudo que avaliou as diferentes respostas aos cem primeiros dias da pandemia em mais de uma centena de países, regimes autoritários se mostraram mais bem-sucedidos do que regimes democráticos no combate inicial à doença.

Apesar de ser uma avaliação surpreendente, a pesquisa revela que, quando o remédio para uma pandemia é o cerceamento de liberdades, um regime político já acostumado a controlar seus cidadãos vai ser mais bem-sucedido do que um regime que oferece liberdade à população, explicou o pesquisador Gabriel Cepaluni, professor da Unesp de Franca, em entrevista ao UOL.

O resultado principal do estudo é que ditaduras estão sendo mais capazes de reduzir as mortes mais rapidamente do que as democracias

O autor, porém, deixa claro que a pesquisa não desvaloriza a democracia.

"Uma característica essencial da ditadura em relação a democracias é que as liberdades civis são coibidas. Nas democracias isso não acontece. Temos liberdade civil, direito à manifestação, direito a formar grupos políticos e várias outras coisas. E uma das principais medidas de combate à pandemia é o isolamento social, que é coibir liberdades civis. Então para um regime democrático que nunca coibiu liberdades civis, isso é uma novidade", avaliou.

A avaliação foi publicada no mês passado no estudo acadêmico "Political Regimes and Deaths in the Early Stages of the covid-19 Pandemic" [Regimes políticos e mortes nos primeiros estágios da pandemia de covid-19].

Ele realizado por Cepaluni em parceria com pesquisadores Michael T. Dorsch e Réka Branyiczki, ambos da Central European University, de Budapeste.

A ideia central é que países com instituições políticas mais democráticas registraram mortes em uma escala per capita maior, e mais rapidamente, do que países menos democráticos.

Dados mostram que Irã, Cingapura e China tiveram índices melhores do que Espanha, Itália, Reino Unido, França e EUA no combate à propagação do novo coronavírus ao longo dos primeiros cem dias da pandemia.

Mesmo quando foram desconsideradas as ditaduras, foi possível ver mais mortes em países que têm melhores instituições democráticas.

"Países que têm instituições autoritárias mesmo na democracia têm performances melhores no combate à pandemia", explicou.

Países menos democráticos tiveram um gráfico de curva de mortes muito mais suave.

"As curvas dos países democráticos são mais próximas da verticalidade. Isso é uma evidência de que os países democráticos estão indo pior no combate à covid do que os países ditatoriais", explicou Cepaluni.

Numa democracia liberal, temos o direito de ir e vir, e há até protestos contra medidas de confinamento. Enquanto nas ditaduras as liberdades civis são mais coibidas, e o início da pandemia mostra essa diferença

"Num caso extremo, nas Filipinas e mesmo na Nigéria já se falou em ordem da polícia para até matar pessoas com coronavírus que estão na rua, o que mostra o efeito de coerção de uma ditadura."

Publicado de forma rápida por conta do resultado inesperado, o trabalho sobre regimes democráticos e mortes no início da pandemia é o primeiro de uma série de análises que os pesquisadores pretendem fazer.

Outros trabalhos devem levar em consideração efeitos de políticas públicas em diferentes países.

A avaliação também deve considerar a evolução do combate à pandemia, visto que o estudo enfoca apenas os cem primeiros dias. "Tudo pode mudar se analisarmos outro período, pois as respostas à pandemia estão mudando o tempo todo", disse o pesquisador.

Defesa da democracia

Ao contrário do que pode sugerir o resultado da avaliação sobre os regimes políticos e a mortalidade gerada pela pandemia do novo coronavírus, Cepaluni ressalta que o estudo não desvaloriza a democracia.

Não estamos defendendo que a ditadura é um modelo melhor do que a democracia, mas que nesse caso específico o regime está sendo mais eficiente

Segundo Cepaluni, por mais que o mundo viva um triunfalismo da democracia, indicando que o modelo é sempre melhor para tudo, as ditaduras estão lidando melhor com a pandemia.

"Eu e os meus colegas achamos que a democracia vence a ditadura em vários setores, e isso é mostrado pela literatura de ciência política.

Tanto que vivemos neste momento da história um triunfalismo democrático, que não esteve sempre presente na história da humanidade. Sou um sujeito histórico e acho que a democracia é a melhor forma de governo que existe em comparação com todas as outras", complementou.

Segundo ele, qualquer interpretação diferente estará cedendo à tentação de pensar tudo em preto e branco, enquanto o estudo científico busca reflexões aprofundadas em torno de um debate antigo e central na ciência política.

Apesar de a pesquisa propor o contraste entre ditadura e democracia, trata-se de uma simplificação para um espectro que considera a relação entre a qualidade da democracia e o combate ao covid-19 em diferentes países.

"Nem todas as democracias e todas as ditaduras são criadas iguais. A nossa democracia não é igual à democracia sueca, que não é igual à democracia do Equador. E a ditadura chinesa não é igual à ditadura do Zimbábue. A ditadura de Cingapura não é igual à ditadura da Venezuela —se é que a Venezuela é uma ditadura. Há diferenças entre esses regimes, queremos analisar isso de uma forma que vá além dos debates superficiais", explicou.

Além disso, o estudo considera dados gerais e não se apega a casos específicos de países. Assim, não avalia detalhes que expliquem democracias que tiveram bons resultados nos primeiros cem dias, como a Alemanha, a Suécia, o Japão e a Coreia do Sul.

"Tem países democráticos que estão lidando muito bem com a doença. A questão é a análise de custo benefício, de como combater a pandemia sem coibir totalmente liberdades civis, sem destruir totalmente a economia, é um debate longo", disse.

Segundo ele, o estudo inclui muitas variáveis, e esses países citados são mais ricos, têm capacidade de testagem alta, uma população educada, mais suscetível a mensagens científicas, que não rejeita conhecimento.

"Sim, achamos que a democracia é em linhas gerais o melhor sistema. Achamos que é possível países democráticos reverterem essa defasagem dos primeiros dias. E uma das características da democracia é a liberdade de informação, a crença na argumentação racional e na ciência. Então podem aparecer soluções que não estavam presentes nos primeiros cem dias de pandemia, mas que levam a respostas mais eficientes de democracias."

Quando o estudo foi feito, o Brasil aparecia como um dos países mais democráticos, mas ainda tinha poucos casos de covid-19, já que os dados analisados são de mais de um mês atrás.

Subnotificação e confiabilidade de dados

A fim de garantir a confiabilidade da análise, o estudo levou em consideração o fato de que ditaduras podem ter maior subnotificação de mortes de covid-19 do que as democracias, ou podem mais facilmente esconder dados de infectados e mortos.

Ainda assim, os dados existentes indicam que o efeito de políticas de controle da doença foi mais evidente em países menos democráticos.

Uma das formas de evitar este tipo de problema foi o controle dos dados com índices internacionais de transparência nos países considerados. Isso reduziu a amostra em algumas análises e excluiu países cujos dados podem ser questionados, como a China, mas o resultado da comparação entre tipo de regime e qualidade do combate à doença se manteve.

"Pesquisa empírica nunca é perfeita. Sempre pode-se apontar problemas com os dados. Tentamos mitigar esse problema de várias formas. Usamos controles de índices de transparência. Analisamos excluindo países ditatoriais, então não consideramos a China, o Irã e outros países, e o resultado se mantêm. O resultado não está sendo direcionado pela subnotificação da China. Se os controles das variáveis de transparência não resolvem todos os problemas de notificação, diria que resolve bastante", avaliou Cepaluni.

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