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Conteúdo publicado há
11 meses

Investigação contra Witzel é 'túnel do tempo' de Cabral, diz MPF

Igor Mello

Do UOL, no Rio

28/08/2020 12h03Atualizada em 28/08/2020 14h06

O procurador da República Eduardo El Hage, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato no Rio, afirmou em pronunciamento na manhã de hoje que a semelhança do suposto esquema de corrupção comandado pelo governador Wilson Witzel (PSC) com a atuação da quadrilha do ex-governador Sérgio Cabral (MDB) fez com que os investigadores se sentissem em um "túnel do tempo".

O STJ (Superior Tribunal de Justiça) determinou hoje o afastamento imediato de Witzel do cargo de governador do Rio de Janeiro devido a suspeitas de fraude em compras na área da saúde durante a pandemia do coronavírus. A decisão do ministro Benedito Gonçalves tem validade inicial de 180 dias. Witzel também foi denunciado pela PGR (Procuradoria-geral da República).

De acordo com o procurador, Witzel teria usado ao menos três mecanismos semelhantes aos de Cabral para desviar e lavar recursos públicos. O governador e os demais citados negam as acusações.

Nos vimos como num túnel do tempo, revendo diversos fatos que já tínhamos investigado, só que com outros personagens

Eduardo El Hage, procurador da República

Assim como Cabral e Adriana Ancelmo, Witzel teria usado o escritório de advocacia da primeira-dama, Helena Witzel, para simular a prestação de serviços advocatícios, de forma a lavar recursos oriundos dos cofres públicos do estado.

O procurador também mencionou a utilização de uma transportadora de valores para ocultar o dinheiro obtido com as fraudes. Há ainda a utilização de doleiros no Uruguai, a exemplo do esquema comandado pelos doleiros Juca Bala e Tony — que acabaram delatando Cabral e seus parceiros.

"Dia triste", diz procurador

El Hage ainda classificou como "inaceitável" o fato de Witzel supostamente ter praticado atos de corrupção após ver seus dois antecessores —Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão (MDB)— serem presos por corrupção.

Cabral está na cadeia há quatro anos, enquanto Pezão está em prisão domiciliar após ser detido em seu último mês de mandato —ele chegou a ficar na cadeia por um ano.

"É um dia triste para a história do Rio, mas face aos fatos gravíssimos que encontramos, não havia outra medida senão a que foi adotada hoje", disse o procurador.

O MPF entende que pela gravidade dos fatos praticados e pelo momento histórico, com um governador preso por desviar mais de R$ 100 milhões, outro governador preso no exercício do mandato, esse governador praticar atos de corrupção e lavagem do dinheiro é inadmissível

Eduardo El Hage, procurador da República

A operação de hoje, de acordo com a MPF, foi batizada de Tris in Idem justamente em referência ao fato de Witzel ser o terceiro governador seguido suspeito de corrupção, após Cabral e Pezão.

O que diz Wilson Witzel

O governador afastado nega as suspeitas, diz que a investigação é "circo", que ela poderia ter um viés político e que se trata de um "ultraje à democracia". Witzel disse também que não há provas sobre os fatos apontados.
"É uma busca e decepção. Não encontrou R$ 1, uma joia. Simplesmente mais um circo sendo realizado. Lamentavelmente a decisão do sr. Benedito [Gonçalves, ministro do STJ responsável pela decisão], induzido pela procuradora na pessoa da dra. Lindora [Araújo, subprocuradora-geral da República], está se especializando em perseguir governadores e desestabilizar os estados com investigações rasas, buscas e apreensão preocupantes. Eu e outros governadores estamos sendo vítimas do possível uso político da instituição", afirmou.

STJ autorizou operação

A Operação "Tris in Idem" é desdobramento da Operação Placebo, que investiga um suposto esquema de corrupção em contratos públicos do Executivo fluminense.

A ação, deflagrada por ordem do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, afastou do cargo Wilson Witzel, acusado pela PGR de participar diretamente do suposto esquema de desvios nas verbas da saúde usadas para combater a pandemia do novo coronavírus.

Ao todo, a Polícia Federal cumpre hoje 16 mandados de prisão, sendo seis preventivas e 10 temporárias, e 82 de busca e apreensão no âmbito da operação. Entre os presos está Pastor Everaldo, presidente nacional do PSC.

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