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Prefeito na Bahia agride manifestantes com cinto durante protesto

Colaboração para o UOL

05/12/2020 18h54Atualizada em 05/12/2020 21h11

O prefeito de Barra do Mendes (BA), Armênio Sodré (MDB), agrediu manifestantes com um cinto durante uma manifestação em que era cobrado pelo uso do dinheiro recebido do governo federal para auxiliar no combate ao novo coronavírus.

Imagens obtidas pela reportagem mostram que o prefeito chega de carro e quase atinge as pessoas que estavam em frente à sua residência com o veículo. Em seguida, ele desce do carro e começa a correr atrás das pessoas e agredi-las com um objeto na mão, que não é possível identificar.

Ao UOL, o prefeito diz que seu filho de 16 anos foi sequestrado recentemente e pediu socorro ao ouvir os gritos dos manifestantes que, segundo ele, tentaram invadir a sua casa. "E vendo nosso filho naquela situação ficou difícil sustentar aquela situação", diz Galego, que afirma ter usado um cinto na ação e não um chicote.

mulher agredida - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mulher exibe dedo ferido após ser agredida com cinto por prefeito
Imagem: Arquivo pessoal

Uma testemunha ouvida pelo UOL alega que o prefeito usou um chicote para agredir os manifestantes. "Vi todo mundo saindo correndo e eu corri junto. Foi neste momento que ele acertou Simone (foto ao lado) com um chicote, pelo menos tinha som de chicote. Eu estava do lado de Simone, ou seja, poderia facilmente ter pego este objeto em mim ou no meu filho", afirma a arquiteta Maria Clara Barreto Sodré, 28 anos.

Ela afirma que não esperava que tratava-se do prefeito. "Eu estava com o meu filho de seis meses no colo e veio um carro na minha direção. E eu saí correndo assustada, porque eu estava com o meu filho. Eu achei que era algum bêbado, ou algum louco, ou uma pessoa desorientada", explica.

Procurado pela reportagem, o prefeito diz que foi acusado pelos manifestantes de forjar o sequestro do filho, que estava em casa recuperando-se do crime. "Ele ficou em casa se recuperando do susto. (Veio) esse grupo de manifestantes tentando invadir nossa residência aos gritos, me chamando de ladrão, de assassino e dizendo que o sequestro foi forjado por mim e, com o dinheiro da covid-19, pagamos o resgate", afirma Galego.

"O meu filho assustado com tudo aquilo no portão, gritos e colagem de cartazes, ficou apavorado e me ligou pedindo socorro. E, nesse mesmo momento, retornamos e encontramos os manifestantes aos gritos. E, vendo nosso filho naquela situação, ficou difícil sustentar aquela situação. Infelizmente, os nossos filhos [Galego tem também uma filha de 9 anos] ficaram desesperados com as agressões com palavras. Não somos contra manifestações, mas com respeito e responsabilidade", argumenta.

Segundo os manifestantes, três pessoas foram atingidas pelo prefeito, fizeram exame de corpo delito e prestaram depoimento hoje na delegacia de Irecê, que fica a 60 km de Barra do Mendes. Eles afirmam ainda que a PM (Polícia Militar) esteve no local após o fato, mas não coletou depoimento dos moradores, apenas conversaram com o prefeito.

A Polícia Civil confirmou que o caso foi registrado pela vítima das agressões e informou que vai iniciar a apuração.

Já a PM, disse em nota enviada à reportagem que, ontem à noite, por volta das 18h30, uma guarnição do 7º BPM foi informada por um morador que estaria ocorrendo um tumulto na frente da casa do prefeito, situada na rua Antônio Pacheco.

"De imediato foi solicitado apoio da guarnição de Barro Alto e, no local, o prefeito se encontrava na porta da residência, bem como algumas pessoas, mas não havia nenhuma anormalidade no momento e nem durante a permanência das guarnições no local. Não foi presenciada nenhuma agressão física nem a Polícia Militar foi informada de nenhum tipo de agressão pelas pessoas presentes", ressaltou a PM.

Ainda segundo a nota da PM, após a dispersão das pessoas de forma espontânea, "a guarnição voltou a fazer o patrulhamento no município e tomou conhecimento que vídeos estariam circulando com imagens de agressões relacionadas ao fato. A guarnição deslocou novamente até a residência do prefeito, porém o gestor não foi mais encontrado. Foram realizadas diligências, porém sem êxito", finaliza o texto.

O que os manifestantes cobravam?

protesto bahia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Manifestantes fazem protesto contra prefeito de Barra do Mendes (BA)
Imagem: Arquivo pessoal

De acordo com a professora Bruna Sodré de Matos Teixeira, 38, foi criado um grupo no WhatsApp para cobrar o uso de uma verba de R$ 1,6 milhão recebida pela prefeitura do governo federal. Segundo ela, estavam no grupo o prefeito, secretários, vice-prefeito e a primeira-dama.

"Um amigo nosso estava com covid, precisava do respirador e não tinha. Precisou ser transferido para outra cidade. A gente ficou revoltado e resolveu fazer este grupo. Como eles saíram do grupo e não deram a resposta, a gente resolveu ir para rua. Ficamos pela praça e depois fomos para a frente da casa dele, fizemos umas filmagens para ele ver e sentamos do outro lado da rua da casa dele, quando ele chegou", lembra Bruna.

O prefeito alega que "Os respiradores não foram comprados por conta dos preços abusivos e também pela dificuldade de encontrar mão de obra qualificada".

Em relação à verba usada, ele explica a aplicação do dinheiro. "Parte do dinheiro foi investido na criação do espaço COVID e na compra de ar-condicionado, TV, kit de higiene, EPIs [equipamento de proteção individual], barreiras sanitárias, equipagem de ambulância para transporte de pacientes graves e a outra parte da verba está em conta".

Prefeito é investigado pelo MP-BA

De acordo com o Ministério Público da Bahia, o prefeito de Barra do Mendes e o empresário Arlênio Sodré Nunes, irmão de Galego, tiveram R$ 253.071 bloqueados de suas contas por decisão da Justiça, atendendo pedido liminar do MP, em ação ajuizada pelo promotor Marco Aurélio Nascimento Amado, por improbidade administrativa.

Na decisão publicada em 28 de agosto, a juíza Marina Lemos Ferrari levou em conta irregularidades apontadas pelo MP em compras realizadas pelo município entre 2013 e 2019, com a aquisição direta e sem licitação de produtos de papelaria.

Na ação, o promotor de Justiça apontou que houve indevida dispensa de licitação. O MP apurou que a papelaria com a qual a prefeitura fez negócio pertence a Arlênio, o que evidenciaria que "as compras foram realizadas de forma fraudulenta para beneficiar o irmão do prefeito, comprovando dolo na conduta do chefe do executivo municipal".

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