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Conteúdo publicado há
6 meses

Bula da cloroquina, alerta ignorado, má notícia: o que Mandetta disse à CPI

"Todas as recomendações as fiz com base na ciência", disse Mandetta, 1º ministro da Saúde de Bolsonaro - Jefferson Rudy/Agência Senado
"Todas as recomendações as fiz com base na ciência", disse Mandetta, 1º ministro da Saúde de Bolsonaro Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Do UOL, em São Paulo

04/05/2021 15h39Atualizada em 04/05/2021 20h39

Ministro da Saúde entre janeiro de 2019 e abril de 2020, Luiz Henrique Mandetta foi a primeira pessoa a depor na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid, que vai investigar a atuação do governo federal no combate à pandemia. Agora crítico ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ele defendeu sua gestão à frente da pasta e disse sempre ter baseado a tomada de decisões na ciência.

Entre outros pontos, o ex-ministro citou a articulação para a compra de kits de testagem para covid-19 — estratégia que, segundo Mandetta, não foi utilizada como previsto pelos seus sucessores —, e disse que não havia um plano ou uma diretriz para aquisição de vacinas, que à época ainda estavam sendo desenvolvidas.

Ele também afirmou que o presidente Bolsonaro tomava decisões sobre o combate à pandemia "aconselhado" pelos filhos e classificou o ministro da Economia, Paulo Guedes, como pessoa "desonesta intelectualmente", que não "ajudou em nada" durante a pandemia da covid-19.

No depoimento à CPI, Mandetta afirmou ainda ter enviado uma carta para o presidente com algumas recomendações que poderiam ajudar a conter o avanço da pandemia no Brasil. Mandetta disse que alertou Bolsonaro "sistematicamente", aconselhando que a presidência revisse seu posicionamento para acompanhar as orientações do Ministério da Saúde.

Mandetta foi ouvido na condição de testemunha, e tem o compromisso de dizer a verdade. Caso contrário, poderá incorrer no crime de falso testemunho.

Confira as principais declarações feitas pelo ex-ministro à CPI:

Três pilares

Só me resta dizer que a tomada de decisão [da minha gestão] foi em cima de três pilares: a defesa intransigente da vida, que foi o princípio número um — não haveria nenhuma vida que não fosse valorizada; o SUS [Sistema Único de Saúde] como meio para atingir; e a ciência como elemento de decisão. Esses foram os três pilares sobre os quais construímos o eixo de prevenção, atenção, testagem, hospitalização e de monitoramento da doença.

Ciência como base

Todas as recomendações as fiz com base na ciência, as fiz em público, em todas as manifestações de orientação dos boletins, as fiz nos conselhos de ministros, as fiz diretamente ao presidente, as fiz diretamente a todos os secretários estaduais, todos os secretários municipais e a todos aqueles que, de alguma maneira, tinham no seu escopo que se manifestar sobre o assunto.

Defesa do isolamento

Seria adequado [o isolamento social] por causa do índice de transmissão do vírus. O vírus era muito competente. Estávamos com um sistema que não tinha condição de responder. Doença infecciosa viral é prevenção. Não tem outra maneira. Não é possível se fazer gestão de doença infecciosa sem separação.

Carlos Bolsonaro

Várias vezes, na reunião do Ministério [da Saúde], o filho do presidente, que é vereador no Rio de Janeiro [Carlos Bolsonaro (Republicanos)], estava sentado atrás, tomando as notas na reunião. Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da presidência.

Hidroxicloroquina

Fui informado, após uma reunião, que era para subir para o terceiro andar porque tinha uma reunião de vários ministros e médicos. Vinham propor esse negócio de cloroquina que nunca eu havia conhecido, porque ele [Bolsonaro] tinha um assessoramento paralelo nesse dia.

Mudança na bula

Nesse dia [reunião no Ministério da Saúde], havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido, daquela reunião, que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], colocando na bula a indicação de cloroquina para coronavírus. E foi, inclusive, o próprio presidente da Anvisa, [Antônio] Barra Torres, que estava lá, que falou: 'Isso não'.

"Kit covid"

Não, senador [Eduardo Girão (Podemos-CE)]. aqui é ciência, aqui é estudo. Eu jamais, na minha vida, tomei decisões sem estudar. E a gente quando estuda, principalmente em uma situação como essa, que não tem doença determinada, a gente tem que acreditar na base do seu estudo. Mandetta, ao ser questionado se foi um "erro" não adotar o "kit covid"

Afastamento de Bolsonaro

A sensação que eu tinha é que eu era o mensageiro da má notícia. Sabe quando você dá as notícias que você tem que dar, eu acho que lealdade é isso, você não deixar a pessoa dizer 'olha, não fui assessorada, não foi explicado'. Acabou gerando mais distanciamento [entre mim e Bolsonaro].

Demissão do cargo

Eu jamais pediria demissão do cargo. Fui nomeado para ser ministro da Saúde do Brasil pelo presidente. O cargo de ministro de Saúde é, em situação de pandemia... Eu tinha um paciente doente, eu tinha que ficar com meu paciente à revelia de tudo e de todos, baseado no que eu tivesse de melhor.

Paulo Guedes

Esse ministro [Paulo] Guedes, era desonesto intelectualmente, uma coisa pequena, um homem pequeno para estar onde está. Ele não soube nem olhar para o calendário [de vacinação] para falar 'puxa, não tem vacina sendo comercializada no mundo...'. Eu só posso lamentar. O ministro da Economia não ajudou em nada, pelo contrário. Só falava 'já mandei o dinheiro, se virem, agora vamos tocar a economia.

Problema de Bolsonaro

O que se passa na cabeça do presidente [Bolsonaro], que é a pergunta da senadora Eliziane Gama [Cidadania-MA]?! Eu acho que a primeira coisa é que tem que ter sentimento para tomar decisão pela vida. E eu acho que o problema não é bem na cabeça, é mais o coração.

Alerta ignorado

Mas ele [Bolsonaro] tinha provavelmente outras pessoas que apontaram que eu estaria errado.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.