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Política

Prefeito, Nunes se fortalece no MDB, mas ainda depende do apoio da Câmara

Ricardo Nunes (MDB), durante campanha na chapa de Bruno Covas (PSDB) - TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO
Ricardo Nunes (MDB), durante campanha na chapa de Bruno Covas (PSDB) Imagem: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

24/05/2021 04h00

A chegada à prefeitura da maior cidade do Hemisfério Sul dá a Ricardo Nunes (MDB) um outro cenário político. Primeiro prefeito de São Paulo do partido desde Mario Covas (1983-1986), ele passa a se projetar nacionalmente. Mas, sem tanta expressão na cidade, ainda é dependente da Câmara Municipal.

É assim que os ex-colegas da Câmara, que Nunes frequentou por oito anos, veem a nova administração. Bem relacionado com a grande maioria dos vereadores, a avaliação é que ele aproxima a prefeitura e a Câmara, mas precisará balancear as expectativas.

Os parlamentares dizem que o MDB, do qual Nunes é presidente municipal, não tinha, até então, tanta relevância na cidade. Na Casa, o partido tem apenas três parlamentares, atrás de PSDB, PT, PSOL, DEM e Republicanos, e o principal posto é o de primeiro suplente da Mesa Diretora —o sexto na hierarquia da casa— com George Hato (MDB-SP).

Agora, com a prefeitura, o jogo inverte e o partido ganha musculatura. Com o controle do orçamento da cidade mais rica do país, Nunes tem mais poder e, consequentemente, mais cobranças. Para parlamentares e especialistas, as relações com a Câmara melhoram, mas, diferente do ex-prefeito Bruno Covas (PSDB), ele terá menos apoio orgânico.

"Existia um Ricardo antes e um Ricardo depois [de assumir a prefeitura]. Ele agora vê as coisas de um outro patamar. Ganha força dentro do MDB e dá força ao MDB. Eles têm mais a oferecer, mas também têm mais o que mostrar. O apoio existe à medida que certos interesses são atendidos", avalia um vereador que se diz independente, mas com "boas relações" com Nunes.

Desde que assumiu oficialmente, na tarde do último domingo (16), Nunes tem falado em ser uma sequência da gestão Covas. "A gestão [atual] é a gestão Bruno Covas. Não existe nenhuma mudança, nenhuma alteração", declarou Nunes, em sua primeira agenda à frente da prefeitura.

Este também tem sido o discurso do PSDB. O vereador Xexéu Tripoli (PSDB-SP), líder da bancada na Câmara, disse que o grupo deverá fazer um ato na semana que vem para reforçar o apoio à atual gestão, do qual tem grande parte do secretariado.

"Da nossa parte não muda nada. Elegemos a chapa PSDB-DEM-MDB e vamos seguir com ela. Vamos apoiar o Ricardo como apoiávamos o Bruno. Neste momento, o que nos interessa é debater a cidade, como Bruno vinha fazendo, e o Ricardo deverá continuar. Não tem divergência", afirma Tripoli.

Nos corredores da Câmara, parlamentares dizem que isso deverá prevalecer em um primeiro momento, mas, com o tempo, é natural que Nunes imprima a sua marca —o que pode, ou não, bater com os interesses do PSDB.

"Ele [Nunes] tem uma equação que não é simples de resolver: hoje o governo é PSDB mais DEM, com o Milton [Leite, presidente da Câmara], e partidos menores. Ricardo é um cara orgânico do MDB, ele é Baleia [Rossi, deputado federal], é [o ex-presidente Michel] Temer. Eles vão querer um espaço e, com quase quatro anos de governo ainda, é natural que ele coloque um secretário de governo dele, por exemplo", avalia um parlamentar da oposição.

Atualmente, o secretário da Casa Civil é Ricardo Tripoli, vereador eleito pelo PSDB e nome forte do partido na capital. "Se ele tira dos tucanos, é aí que pode começar a mudar o jogo grande", continua o parlamentar.

"O PSDB está recuado neste momento, vendo o que deverá acontecer, mas ainda tem muita força. Não é interessante ao prefeito que a bancada se torne independente. Eles são oito, podem segurar a pauta, têm força", avalia outro parlamentar.

"O Ricardo [Nunes] é um homem inteligente e articulado. Foi um dos nossos e, com ele assumindo, a relação com a Casa fica ainda mais próxima. Era um homem que dialogava muito quando estava na Câmara e deverá continuar assim na prefeitura, um contato direto", pondera o vereador Gilberto Nascimento Jr. (PSC-SP).

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o vereador Milton Leite (DEM), em evento de vacinação - Lucas Borges Texeira/UOL - Lucas Borges Texeira/UOL
O vereador Milton Leite (DEM) acompanha Ricardo Nunes (MDB), ainda prefeito em exercício, em evento de vacinação
Imagem: Lucas Borges Texeira/UOL

A questão Milton Leite

Além da simpatia de parte dos ex-colegas, Nunes tem como fiel da balança o presidente da Casa, Milton Leite. Parlamentar no sétimo mandato consecutivo, Leite é presidente do DEM na capital e foi um dos responsáveis pela indicação de Nunes à vice na chapa tucana.

Leite, que já apareceu em diversas agendas com Nunes, fala como base do governo, como fez com Covas e o governador João Doria (PSDB), na sua curta passagem pelo Banespinha —sede da administração municipal. Agora, no entanto, os colegas avaliam que ele está mais influente.

"Nós tínhamos uma proposta [...] e resultou de um programa eleitoral do qual nos ofertamos à população de São Paulo. Nós temos que cumprir. Se estava funcionando com o Bruno, que tanto prestigiamos, por que mudar neste momento? Não vejo motivo para mudança neste momento", declarou Leite ao UOL Entrevista. "Nós", na frase, é o governo.

"Ele sempre foi influente, mas agora, com um partido menos expressivo e uma figura que não foi eleita diretamente pelo voto, ele está ainda mais. E nós sabemos que, sem o apoio do presidente da Casa, nenhum governo consegue andar direito", afirmou um parlamentar.

Tem possibilidade de crescer, mas precisa mostrar habilidade, diz analista

Para o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, agora é a hora de Nunes mostrar sua habilidade política. Citando Maquiavel, ele diz que "o poder não fica órfão": se ele não souber aproveitar a oportunidade, outros irão.

"Ele virou o centro das atenções, sentou em outro lugar da mesa. Nesse sentido, a possibilidade de crescer é enorme, mas vai depender da habilidade que ele terá de fazer política como prefeito e também a habilidade dele dentro do partido, como ele vai dialogar", afirma Prando.

Segundo ele, o que se deve observar não é o que se debate publicamente, a troca de um ou outro secretário, os abraços para as fotos em inaugurações, mas o dia a dia da Câmara: quem participa de que evento, como cada parlamentar vota.

Conquistar o poder é uma coisa, manter o poder é outra tão importante quanto. Agora ele é vidraça. Uma mexida no tabuleiro muda tudo. Veja a ida do [vice-governador Rodrigo] Garcia para o PSDB, impactou muita gente. Aqui, ele seguirá discreto ou aparecerá mais? A política é uma rede relacional que não é tão evidente superficialmente, é no tabuleiro profundo onde muitas peças são combinadas.
Rodrigo Prando, cientista político

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