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Ideologia acirra repressão da polícia a manifestantes antibolsonaro

29.mai.2021 - Homem ficou ferido no olho após policiais militares atirarem balas de borracha contra manifestantes no Recife, em maio - Junior Boo/O Fotográfico/Estadão Conteúdo
29.mai.2021 - Homem ficou ferido no olho após policiais militares atirarem balas de borracha contra manifestantes no Recife, em maio Imagem: Junior Boo/O Fotográfico/Estadão Conteúdo

Carolina Marins e Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

07/07/2021 04h00Atualizada em 07/07/2021 10h31

Após as recentes manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro, nas quais a reação policial resultou em violência em alguns locais como no Recife em maio, internautas voltaram a questionar um possível tratamento diferenciado da polícia frente a manifestantes de ideologias distintas. Enquanto em atos bolsonaristas quase não há repressão, com a oposição haveria maior truculência.

Especialistas ouvidos pelo UOL, no entanto, alertam que a questão é mais complexa e remonta aos atritos históricos entre forças policiais e manifestações políticas. Porém, como há uma forte identificação das bases policiais com o presidente Jair Bolsonaro, isso gera uma condescendência maior aos atos bolsonaristas.

"Os manifestantes de direita têm uma atitude em geral positiva relação à polícia. Então, o conflito também é menos provável nesses casos", explica Ignácio Cano, professor do ICS-UFRJ (Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

A principal diferença é que a polícia encara manifestantes de esquerda como potenciais vândalos e pessoas que estão atrapalhando a ordem e encara manifestantes de direita como pessoas que exercem a sua liberdade de expressão.
Ignácio Cano, professor do ICS-UFRJ

Já para o cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Prando, a reação policial depende muito mais do tom da manifestação do que necessariamente do espectro político. "Eu diria que a polícia tende a aumentar a sua truculência e uso progressivo da força de acordo com o comportamento dos manifestantes", diz.

Ele ressalta que, no caso de pessoas que realizam depredação de espaço público ou privado ou fazem algum ataque contra os policiais, a polícia tem o dever de reagir, como ocorreu no fim do protesto de sábado em São Paulo.

Nas redes sociais da Polícia Militar, no entanto, as imagens das cenas de depredação e até de um policial ferido foram destacadas, causando a impressão de que o protesto havia sido inteiramente violento. O ato foi pacífico na maior parte do tempo e em todas as cidades em que ocorreu.

De acordo com o professor da FGV (Faculdade Getúlio Vargas) Rafael Alcadipani, essa utilização das redes demonstra a ausência de isenção com relação ao ato.

"A gente vê a Polícia Militar utilizando as suas redes sociais de uma forma que não deveria ser e é importante que o comando da PM e também o governo do estado de São Paulo garanta que na mídia social seja reportada a manifestação de forma isenta."

Identificação bolsonarista

No entanto, os três especialistas são unânimes em apontar que há por parte das bases da polícia militar uma forte identificação com o governo de Jair Bolsonaro e isso pode levar a um enviesamento por parte dos policiais.

"Há uma identificação maior com o governo e essa identificação pode gerar um sentimento na tropa", explica Rodrigo Prando. "A gente não pode tirar a característica de que o policial é humano, é dado à subjetividade e tem predileções, e isso pode sim se manifestar na forma como ele pode ser mais ou menos truculento em relação à manifestação."

"Existe um histórico de uma identificação ideológica bastante forte entre os manifestantes pró-Bolsonaro e a Polícia Militar", acrescenta Rafael Alcadipani. "Quando existe essa identificação ideológica, a situação fica muito mais fácil, porque não existe provocação por parte dos manifestantes de direita."

A polícia tende a ser mais ou menos condescendente com os desvios que acontecem de um lado e de outro. Quando há essa identidade ideológica entre policiais que estão na rua e os manifestantes, claro que isso fica mais fácil.
Rafael Alcadipani, professor da FGV

Dificuldade de identificar radicais

Os especialistas destacam a dificuldade das polícias em coibir atos violentos durante manifestantes e também identificar responsáveis depois. "Quantos black blocs foram presos e foram julgados até hoje?", questiona Alcadipani.

A gente fica nesse samba de uma nota só desde quando começaram as grandes manifestações e a gente não consegue ver uma inteligência policial para evitar que isso aconteça.
Rafael Alcadipani, professor da FGV

Duas pessoas foram presas em flagrante e outras duas estão sendo investigadas pela depredação nos atos de sábado na avenida Paulista, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Questionada pelo UOL, a secretaria não soube precisar dados de presos em manifestações de ideologias distintas.

"Um deles [dos presos] responde pelos crimes de dano e incêndio; o outro, por dano, lesão corporal e furto. Ambos permanecem detidos aguardando audiência de custódia", disse a secretaria em nota.

A reportagem também questionou se houve demora por parte da PM em controlar os atos de vandalismo no fim da manifestação e se há parcialidade por parte da corporação, mas não obteve essas respostas.

"A Polícia Militar esclarece que foi preciso o uso de técnicas para controlar o tumulto e uso de equipamentos não letais. Não foi utilizado elastômero. Um policial militar ficou ferido na ação", a secretaria se limitou a dizer.

"Essas pessoas que jogaram pedras em segurança do metrô e atacaram policiais precisam ser rapidamente encontradas e punidas", finaliza Alcadipani. "A força da Justiça tem que chegar a essas pessoas para se aprender. Só que raramente isso acaba acontecendo."

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