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Alianças e cacique do PL geram temor de 'abandono' em aliados de Bolsonaro

26.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro em cerimônia no Palácio do Planalto Imagem: Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo

Luciana Amaral e Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

23/01/2022 04h00Atualizada em 24/01/2022 11h28

Alianças em formação e preferências políticas do cacique do PL (Partido Liberal), Valdemar Costa Neto, têm gerado temor de "abandono" em aliados do presidente Jair Bolsonaro que não pertencem à legenda.

O presidente da República se filiou ao PL em novembro do ano passado e, naturalmente, deve priorizar apoiar candidatos do partido na campanha eleitoral. Dessa forma, parte dos políticos aliados do presidente que estão fora do PL está apreensiva com a possível falta de apoio de Bolsonaro no momento decisivo de angariar votos.

Por trás dessa situação, estão as preferências e as escolhas de Costa Neto —condenado e preso no mensalão. Um dos principais expoentes do centrão, o presidente da legenda toma decisões pragmáticas para manter o partido no poder e não é ligado à ideologia bolsonarista. Ou seja, não tem comprometimento com os políticos de fora do PL escorados no presidente.

Waldemar Costa Neto, presidente do PL, com Bolsonaro Imagem: Divulgação

Sem independência

Embora nos bastidores se fale que Costa Neto permitiu que Bolsonaro tenha liberdade de escolha em relação aos candidatos que apoiará ao Senado, por exemplo, políticos aliados também duvidam que o presidente terá tanta independência assim.

Um deputado federal bolsonarista que pretende concorrer ao Senado nas eleições de outubro relatou, sob reserva, já se considerar "carta fora do baralho" no tabuleiro de candidatos a serem apoiados pelo presidente por não pertencer ao PL nem ao círculo mais próximo de Costa Neto.

Ele afirmou ter declarado a Bolsonaro a intenção de se lançar ao Senado há meses e ter contado com promessa de apoio. Mas, agora que as articulações começam a se desenhar melhor, se vê excluído.

O presidente, claro, deve apoiar um candidato ao Senado alinhado a seus ideais —a nova bancada governista na Casa é uma das maiores preocupações do Planalto hoje, caso o presidente consiga se reeleger.

Isso porque o governo quer sofrer menos resistência na aprovação de projetos do que nos últimos anos e fazer andar pedidos de impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Porém, aliados que se consideravam como certos no palanque de Bolsonaro podem ficar de fora do círculo escolhido em conjunto com o PL. Não deve haver espaço para todos.

Aliados do bolsonarismo radical têm receio de que os futuros candidatos ao Senado apoiados pelo presidente com a chancela do PL não sejam tão "raiz" assim, mas mais de perfil do centrão, e, dessa forma, possam causar dor de cabeça ao eventual segundo governo Bolsonaro.

Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro (ambos no centro) durante filiação do presidente ao PL Imagem: PL/Divulgação

Eles lembram que Costa Neto era aliado do PT e mantém bom diálogo com qualquer um de acordo com a conveniência política. No Piauí, por exemplo, eles citam a possibilidade de o PL apoiar o candidato do PT ao governo do estado, Rafael Fonteles.

Estratégias nos estados

Outro fator de desconfiança é que o PL conta com comissões provisórias nos estados, o que aumenta o poder de decisão de Costa Neto, segundo as fontes.

Uma alternativa estudada por aliados de Bolsonaro que não devem ser apoiados explicitamente por ele é firmar alianças sem o PL em nível estadual, mas, ainda assim, apoiar o presidente da República à reeleição.

Um pré-candidato a um governo estadual aliado a Bolsonaro, sob a condição de anonimato, admitiu ao UOL que deve concorrer contra um candidato oficial do PL. A condição não é a ideal —como explicar ao eleitor ser aliado do presidente se este prioriza o adversário, por exemplo?

Questionado sobre como contornar a situação, o pré-candidato disse: "A cada dia, sua agonia". Ou seja, não há ainda uma resposta óbvia.

Mais preocupações de aliados

Uma preocupação dos cerca de 30 parlamentares bolsonaristas do PSL, antigo partido do presidente, é escolher a sigla para a qual migrar na janela partidária —período entre 3 de março e 1º de abril em que deputados federais, estaduais e distritais poderão trocar de legenda para concorrer às eleições sem perder o mandato.

Por mais que o presidente tenha se filiado ao PL, o partido pode não ser a melhor opção a depender da situação de cada um. Os parlamentares pesselistas aliados precisam levar em consideração alianças nas bases eleitorais e o potencial de votos.

Alternativas são o PP, Republicanos, PSC, PTB e União Brasil. O importante para os bolsonaristas do PSL é ficar na mesma coligação que Bolsonaro, por mais que "ter o mesmo número que o presidente, o 22, faça diferença", contou um parlamentar nesta situação.

Preocupação interna

E não são apenas os aliados de Bolsonaro de fora do PL que estão preocupados com as eleições deste ano. Há parlamentares dentro do partido de olho no que essa transferência de políticos ao PL pode acarretar.

Deputados do PL não querem ter a vaga à reeleição ameaçada por políticos que estão chegando ao partido.

Um parlamentar da legenda disse à reportagem que o partido precisa acomodar os deputados bolsonaristas sem prejudicar os deputados já eleitos pelo PL. Ele ponderou que há uma limitação de deputados que a legenda consegue eleger.

O político exemplifica que, quando o PL passa a abrigar um deputado federal bolsonarista vindo de outro partido com o potencial de conseguir de 80 mil a 100 mil votos nas eleições —considerado um bom quantitativo—, este novo correligionário pode competir diretamente com algum deputado já eleito pelo PL e de longa data do partido.

Na avaliação de parlamentares do PL, cerca de 20 deputados federais devem migrar para a sigla na janela partidária. A expectativa é conseguir em torno de 60 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados em outubro e se tornar a maior bancada partidária da Casa.

Segundo o portal da Câmara, o PL atualmente tem 43 deputados federais —perdendo apenas para o PT, com 53, e para o PSL, com 55.

Um Bolsonaro menos radical?

Bolsonaro discursa em ato com pautas antidemocráticas na Paulista, em 7 de setembro de 2021 Imagem: DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO

Auxiliares de Bolsonaro avaliam que o presidente construiu uma relação de fidelidade com a sua base mais engajada, formada por pessoas que se identificam ideologicamente com ele e que dificilmente votariam em algum dos outros candidatos à Presidência. No entanto, somente essa base hoje não é o suficiente para garantir a permanência à frente do Executivo federal.

Por esse motivo, e na tentativa de ampliar o alcance da candidatura, o presidente tem sido aconselhado a buscar diálogo com os eleitores inclinados a apoiar outros blocos de direita e de centro-direita, fugindo do radicalismo conservador.

Porém, um dos exemplos de resistência em mudar o comportamento por parte de Bolsonaro é a crítica reiterada às vacinas contra a covid-19, em especial para a imunização de crianças de 5 a 11 anos.

Membros do PL dizem haver amostras indubitáveis de que a maioria da população é favorável às vacinas. Ou seja, Bolsonaro, enquanto candidato, estaria na contramão das tendências apontadas por pesquisas e análises políticas feitas internamente —o que pode criar dificuldades no primeiro turno e favorecer chapas que se colocam na condição de "terceira via", como a do ex-ministro da Justiça e ex-juiz federal Sergio Moro.

A cúpula do PL, deputados aliados e até integrantes da cúpula do Planalto já se empenharam em um esforço coletivo para tentar convencer o presidente da República a moderar suas falas e, à medida que o período de campanha eleitoral se aproxima, ser menos "combativo e polêmico". O chefe do Executivo federal, no entanto, resiste ao intento.

Na visão dele, o chamado "bolsonarismo raiz" o ajudou a chegar ao comando do Executivo federal e será uma estratégia relevante na tentativa de renovar o mandato por mais quatro anos.

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