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Leia a íntegra do discurso de Lula na cerimônia de diplomação

Do UOL, em São Paulo

12/12/2022 15h18Atualizada em 12/12/2022 15h27

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso mais agressivo sobre o atual governo federal durante sua cerimônia de diplomação. Ao longo de sua fala, o petista chorou ao lembrar que não tinha diploma universitário e foi criticado em 2002 por isso ao ser eleito pela primeira vez presidente da República.

O que você precisa saber sobre o discurso:

  • No discurso, Lula foi mais agressivo em relação à atual gestão do que era nos discursos de campanha. Disse que houve um projeto de destruição do país, citou a disseminação de fake news e defendeu as urnas eletrônicas.
  • Ao falar das eleições, destacou o que chamou de "coragem" do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
  • Afirmou que há ataques à democracia em outros países e destacou o papel do Brasil na política internacional --lembrando que o mundo todo acompanhou o processo eleitoral por aqui.
  • Chorou ao lembrar que não tinha diploma universitário e, por isso, foi criticado em 2002.
  • Antes de começar a falar, pediu água. O presidente diplomado fez uma cirurgia na garganta no final de novembro para a retirada de uma lesão nas cordas vocais.

Leia a íntegra do discurso de Lula:

[Luiz Inácio Lula da Silva]: Eu gostaria de cumprimentar o presidente, o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Alexandre de Moraes, e o ministro Ricardo Lewandowski, em nome de quem cumprimento os ministros do TSE, que participam dessa sessão solene de diplomação.

Quero cumprimentar a minha querida esposa Janja, quero cumprimentar o companheiro Geraldo Alckmin e e a sua esposa Lu Alckmin, quero cumprimentar o presidente do Senado Federal, senador Rodrigo Pacheco, por intermédio de quem cumprimento os senadores presentes, quero cumprimentar o presidente da câmara dos deputados, deputado Arthur Lira, por meio de quem cumprimento todos os deputados federais, presidenta do Supremo Tribunal Federal, ministra Rosa Weber, por intermédio de quem cumprimento os ministros da corte. Minha querida presidenta Dilma Rousseff, meu querido presidente José Sarney...

[Aplausos]

[Luiz Inácio Lula da Silva]: Senhoras e senhores chefes de missões diplomáticas, ministros de estado já indicados, companheiro Rui Costa, companheiro Flávio Dino companheiro José Múcio Monteiro, companheiro Mauro Vieira e companheiro Fernando Haddad. Quero cumprimentar o procurador-geral da República Augusto Aras, quero cumprimentar as senhoras e senhores governadores, quero cumprimentar as senhoras e senhores presidentes dos tribunais superiores, presidentes do conselho federal da OAB, Beto Simonetti, senhoras e senhores.

Antes de falar o que está escrito no meu discurso, eu queria, companheira Dilma, companheiro José Sarney, companheiros deputados, senadores, governadores, ministros, juízes, companheiros que participaram da vigília em Curitiba, companheiros dirigentes partidários, companheira Gleisi Hoffmann, em nome do meu partido eu quero que vocês saibam que esse diploma que eu recebi não é um diploma do Lula presidente, é um diploma de uma parcela significativa do povo que reconquistou o direito de viver em democracia nesse país. Vocês ganharam esse diploma.

[Aplausos]

[Luiz Inácio Lula da Silva]: Em primeiro lugar, quero agradecer ao povo brasileiro pela honra de presidir pela terceira vez o Brasil. Na minha primeira diplomação, em 2002, lembrei da ousadia do povo brasileiro em conceder para alguém tantas vezes questionado por não ter diploma universitário, o diploma...[Chora]

[Aplausos]

[Plateia]: Lula, Lula, Lula! Olé, Olé, Olá, Lula!

[Luiz Inácio Lula da Silva]: Eu quero, eu quero pedir desculpas a vocês pela emoção, porque quem passou o que eu passei nos últimos anos estar aqui agora é a certeza de que Deus existe e de que o povo brasileiro é maior do que qualquer pessoa que tentava... nesse país. Eu sei o quanto custou não apenas a mim, o quanto custou ao povo brasileiro essa espera para que a gente pudesse reconquistar a democracia nesse país.

Reafirmo hoje que farei todos os esforços para, juntamente com meu querido companheiro Geraldo Alckmin, cumprir o compromisso que assumi não apenas durante a campanha, mas ao longo de toda uma vida: fazer do Brasil um país mais desenvolvido e mais justo, com a garantia de dignidade, qualidade de vida para todos os brasileiros, sobretudo para as pessoas mais necessitadas.

Quero dizer que muito mais que a cerimônia de diplomação de um presidente eleito, essa é a celebração da verdadeira democracia. Poucas vezes na história recente deste país a democracia esteve tão ameaçada.

Poucas vezes na nossa história, a vontade popular foi tão colocada a prova e teve que exercer todos os obstáculos para enfim ser ouvida. A democracia não nasce por geração espontânea, ela precisa ser semeada, cultivada, cuidada com muito carinho por cada um e a cada dia para que a colheita seja generosa para todos. Mas além de semeada, cultivada e cuidada com muito carinho, a democracia precisa ser defendida daqueles que tentam a qualquer custo sujeitá-la a seus interesses financeiros e ambições de poder. Felizmente não faltou quem defendesse nesse momento tão grave a nossa democracia.

Além da sabedoria do povo brasileiro, que escolheu o amor em vez do ódio, a verdade em vez da mentira, e a democracia em vez do arbítrio, quero destacar a coragem do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal Superior Eleitoral...

[Aplausos]

[Luiz Inácio Lula da Silva]: Que enfrentaram toda sorte de ofensas, ameaças e agressões para fazer valer a soberania do voto popular. Cumprimento a cada ministro e a cada ministra do STF e do TSE pela firmeza na defesa da democracia e da lisura do processo eleitoral nesses tempos tão difíceis. A história há de reconhecer sua coerência e a fidelidade a constituição. Essa não foi uma eleição entre candidatos de partidos políticos com programas distintos, foi a disputa entre duas visões de mundo e de governo.

De um lado, o projeto de reconstrução do país, com ampla participação popular, de outro lado um projeto de destruição do país, ancorado no poder econômico e numa indústria de mentiras e calúnias jamais vista ao longo da nossa história. Não foram poucas as tentativas de sufocar a voz do povo e a democracia.

Os inimigos da democracia lançaram dúvidas sobre as urnas eletrônicas, cuja confiabilidade é reconhecida há muito tempo em todo o mundo. Ameaçaram as instituições, criaram obstáculos de última hora para que eleitores fossem impedidos de chegar a seus locais da votação, tentaram comprar o voto dos eleitores com falsas promessas e dinheiro farto desviados do orçamento público, intimidaram os mais vulneráveis com ameaças de suspensão de benefícios, e os trabalhadores com o risco de demissão sumária caso contrariasse os interesses de seus empregadores.

Quando se esperava um debate político democrático, a nação foi envenenada com mentiras produzidas no submundo das redes sociais, eles semearam a mentira e o ódio, e o país colheu uma violência política que só se viu nas páginas mais tristes da nossa história, e, no entanto, a democracia venceu. O resultado dessas eleições não foi apenas a vitória de um candidato ou de um partido.

Tive o privilégio de ser apoiado por uma frente de doze partidos no primeiro turno, e aos quais se somaram mais dois partidos no segundo turno. Uma verdadeira frente ampla contra o autoritarismo, que hoje, na transição de governo se amplia para outras legenda e fortalece o protagonismo de trabalhadores, empresários, artistas, intelectuais, cientistas e lideranças dos mais diversos e combativos movimentos populares desse país. Tenho consciência de que essa frente se formou em torno de um firme compromisso: a defesa da democracia, que é a origem da minha luta e o destino desse país.

Nestas semanas em que o gabinete de transição vem escrutinando a realidade atual do país tomamos conhecimento do deliberado processo de desmonte das políticas públicas, e dos instrumentos de desenvolvimento, levado a cabo por um governo de destruição nacional. Some-se a esse legado perverso, que recai principalmente sobre a população mais necessitada, o ataque sistemático as instituições democráticas. Mas as ameaças a democracia que enfrentamos e ainda haveremos de enfrentar não são características exclusivas do nosso país. A democracia enfrenta um imenso desafio ao redor do planeta, talvez maior do que no período da segunda guerra mundial.

Na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos, os inimigos da democracia se organizam, se movimentam, usam e abusam dos mecanismos de manipulações e mentiras disponibilizados por plataformas digitais que atuam de maneira gananciosa e irresponsável.

A máquina da ataque a democracia não tem Pátria nem fronteiras. O combate, portanto, precisa ser dar mais trincheiras de governança global por meio de tecnologias avançadas e de uma legislação internacional mais dura e mais eficiente. Que fique bem claro, jamais renunciaremos a defesa intransigente da liberdade de expressão, mas defenderemos até o fim o livre acesso a informação de qualidade, sem mentiras, e sem manipulações, que levam ao ódio e a violência política.

Nossa missão é fortalecer a democracia entre nós no Brasil e em nossas relações multilaterais. A importância do Brasil nesse cenário global é inegável e foi essa a razão que os olhos do mundo se voltaram para ver o nosso processo eleitoral. Precisamos de instituições fortes e representativas, precisamos de harmonia entre os poderes, com eficiente sistema de pesos e contrapesos que iniba qualquer aventura eleitoral ou autoritária. Precisamos de coragem.

É necessário tirar uma lição desse período recente em nosso país, e dos abusos cometidos no processo eleitoral para nunca mais esquecermos, para nunca mais, para que nunca mais isso aconteça. Democracia por definição é o governo do povo, por meio da eleição de seus representantes. Mas precisamos ir além dos dicionários. O povo quer mais do que simplesmente eleger seus representantes. O povo quer participação ativa nas decisões dos governos. É preciso entender que a democracia é muito mais do que um direito de se manifestar livremente contra a fome, o desemprego, a falta de saúde, a educação, segurança, moradia. Democracia é ter alimentação de qualidade, é ter emprego, saúde, educação, segurança, e moradia.

Quanto maior a participação popular, maior o entendimento das necessidades de defender a democracia daqueles que se valem dela como atalho para chegar ao poder e instaurar o autoritarismo. A democracia só tem sentido e será defendida pelo povo na medida em que promover de fato a qualidade de direito e a oportunidade para todos e o todas, independentemente da classe social ou crença religiosa ou orientação sexual.

É com o compromisso de construir um verdadeiro Estado Democrático, garantir a normalidade institucional, e lutar contra todas as formas de injustiça, que recebo pela terceira vez o diploma de presidente eleito do Brasil em nome da liberdade, da dignidade, e da felicidade do povo brasileiro. Muito obrigado.