Militares, políticos e jornalista: quem são os 33 denunciados com Bolsonaro

A PGR (Procuradoria-Geral da República) denunciou nesta terça-feira (18) o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais 33 pessoas por tentativa de golpe. Além do ex-presidente, a lista é composta principalmente por militares, mas também conta com políticos, policiais federais, assessores e um jornalista.

O que aconteceu

23 dos 33 denunciados, além de Bolsonaro, fazem parte das Forças Armadas. O ex-presidente, que é capitão reformado do Exército, também é militar.

Ex-integrantes do governo Bolsonaro também responderão. Os ex-ministros Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Anderson Torres foram denunciados.

Neto de ditador e engenheiro que atacou urnas eletrônicas estão na lista. Paulo Figueiredo, jornalista e neto do ex-presidente João Figueiredo, que governou durante a ditadura, foi denunciado, assim com o engenheiro Carlos Cesar Moretzsohn Rocha, que se diz "inventor" da urna eletrônica e fez ataques contra o sistema eleitoral.

Leia a lista de denunciados

  • Ailton Gonçalves Moraes Barros - Capitão do Exército
  • Alexandre Rodrigues Ramagem - Deputado federal e ex-diretor da Abin
  • Almir Garnier Santos - Almirante da Marinha e ex-comandante
  • Anderson Gustavo Torres - Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública
  • Angelo Martins Denicoli - Major do Exército
  • Augusto Heleno Ribeiro Pereira - Ex-ministro da GSI e general do Exército
  • Bernardo Romão Correa Netto - Coronel do Exército
  • Carlos Cesar Moretzsohn Rocha - Engenheiro
  • Cleverson Ney Magalhães - Coronel do Exército
  • Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira - General do Exército
  • Fabrício Moreira de Bastos - Coronel do Exército
  • Filipe Garcia Martins Pereira - Ex-assessor da Presidência da República
  • Fernando de Sousa Oliveira - Ex-secretário de Segurança Pública do DF
  • Giancarlo Gomes Rodrigues - Subtenente do Exército
  • Guilherme Marques de Almeida - Tenente-coronel do Exército
  • Hélio Ferreira Lima - Tenente-coronel do Exército
  • Jair Messias Bolsonaro - Ex-presidente da República
  • Marcelo Araújo Bormevet - Policial federal
  • Marcelo Costa Câmara - Ex-assessor da Presidência da República e coronel do Exército
  • Márcio Nunes de Resende Júnior - Coronel do Exército
  • Mario Fernandes - Ex-assessor da Presidência da República e general do Exército
  • Marília Ferreira de Alencar - Ex-diretora de Inteligência do Ministério da Justiça
  • Mauro Cesar Barbosa Cid - Ex-ajudante de ordens da PR e tenente-coronel do Exército
  • Nilton Diniz Rodrigues - General do Exército
  • Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho - Jornalista
  • Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira - Ex-comandante do Exército
  • Rafael Martins de Oliveira - Major do Exército
  • Reginaldo Vieira de Abreu - Coronel do Exército
  • Rodrigo Bezerra de Azevedo - Tenente-coronel do Exército
  • Ronald Ferreira de Araujo Junior - Tenente-coronel do Exército
  • Sergio Ricardo Cavaliere de Medeiros - Major do Exército
  • Silvinei Vasques - Ex-diretor-geral da PRF
  • Walter Souza Braga Netto - Ex-ministro e general
  • Wladimir Matos Soares - Policial federal

Entenda a denúncia

É a primeira denúncia contra um ex-presidente da República por tentativa de atacar o Estado democrático de Direito. A acusação inédita teve como base o inquérito que investigou o ex-presidente e seus principais auxiliares, como os ex-ministros Braga Netto e Augusto Heleno, ambos generais da reserva do Exército. Bolsonaro é acusado de liderar a organização criminosa para tentar se manter no poder, mesmo após a derrota para Lula nas eleições de 2022.

As denúncias contra os 34 investigados foram divididas em cinco peças. O objetivo, segundo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, é otimizar o andamento dos processos. Bolsonaro foi denunciado junto com os ex-ministros Braga Neto (Casa Civil), Paulo Sérgio Nogueira (Defesa), Anderson Torres (Justiça) e Augusto Heleno (GSI). Também foram denunciados na mesma peça o ex-diretor-geral da Abin Alexandre Ramagem e o ex-comandante da Marinha Almir Garnier.

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Evidenciou-se que os denunciados integraram organização criminosa, cientes de seu propósito ilícito de permanência autoritária no Poder. Em unidade de desígnios, dividiram-se em tarefas e atuaram, de forma relevante, para obter a ruptura violenta da ordem democrática e a deposição do governo legitimamente eleito, dando causa, ainda, aos eventos criminosos de 8.1.2023 na Praça dos Três Poderes
Trecho da denúncia da PGR contra Jair Bolsonaro e seus aliados

Para a PGR, o ex-presidente liderava o núcleo "crucial" da trama golpista. A denúncia diz que a tentativa de golpe começou com discursos de Bolsonaro atacando o sistema eleitoral e culminou com os atos golpistas de 8 de Janeiro. Gonet ainda afirma que a trama só não foi bem-sucedida devido à falta de apoio dos então comandantes do Exército e da Aeronáutica.

A responsabilidade pelos atos lesivos à ordem democrática recai sobre organização criminosa liderada por Jair Messias Bolsonaro, baseada em projeto autoritário de poder. Enraizada na própria estrutura do Estado e com forte influência de setores militares, a organização se desenvolveu em ordem hierárquica e com divisão das tarefas preponderantes entre seus integrantes.
Trecho da denúncia da PGR contra Jair Bolsonaro e seus ex-ministros.

Depoimentos dos comandantes. Os ex-comandantes do Exército, general Freire Gomes, e da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos Baptista Júnior, também depuseram à PF afirmando que Bolsonaro tratou sobre a minuta golpista com eles. Os dois, porém, teriam recusado a proposta. Além disso, a investigação recuperou uma reunião entre Bolsonaro e o general Estevam Theóphilo, em 28 de novembro de 2022, na qual o general teria aceitado a proposta golpista do então presidente. Na época, Theóphilo comandava o Coter, o Comando de Operações Terrestres.

General com plano para assassinar Lula 'assessorou' Bolsonaro após derrota. Denúncia também leva em contra trocas de mensagens do general Mário Fernandes com Mauro Cid, na véspera do primeiro pronunciamento público do ex-presidente após ser derrotado em 2022. Apontado como o mais radical entre os militares, o general da reserva tinha em um HD planos detalhados para assassinar Lula, Alckmin e até o ministro do STF Alexandre de Moraes. Fernandes está preso desde novembro do ano passado.

No dia 9 de dezembro de 2022 o ex-presidente falou a apoiadores no Alvorada. Em mensagem de Whatsapp para Mauro Cid um dia antes, Fernandes afirmou ter se encontrado com Bolsonaro e ouvido do então presidente que a diplomação de Lula, no dia 12, não seria uma "restrição" e que "qualquer ação nossa pode acontecer até dia 31". Ele também indicou ser o elo com os manifestantes, incluindo representantes do agronegócio e dos caminhoneiros, grupos que estavam na linha de frente das manifestações em frente aos quartéis-generais em 2022.

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O caso deve ser analisado pela Primeira Turma do STF. Uma mudança no regimento interno do tribunal, em 2023, estabeleceu que as ações penais sejam julgadas nas Turmas. Como têm cinco ministros, as Turmas são menores e mais ágeis para julgar estes tipos de ações que podem levar à prisão.

Bolsonaro e outras 36 pessoas foram indiciadas pela PF em novembro do ano passado. O ex-presidente também foi indiciado em outros dois processos, que tratam de fraude em cartão de vacinação e desvio de dinheiro na venda de joias que ele recebeu de presente como chefe do Executivo. A PGR ainda não apresentou denúncia nesses dois casos.

Total de investigados subiu para 40. Em dezembro, a Polícia Federal indiciou mais três pessoas na investigação de tentativa de golpe de Estado em 2022.

Cronologia do plano golpista, segundo as investigações:

  • 5 de julho de 2022 - Reunião ministerial cuja gravação foi encontrada com Mauro Cid. Nela, Bolsonaro discursa para 22 ministros e os conclama a agir, além de fazer vários ataques ao sistema eleitoral: "Nós não podemos esperar chegar 23, olhar para trás e falar: o que que nós não fizemos para o Brasil chegar à situação de hoje em dia?"
  • 8 de novembro de 2022 - Mauro Cid envia áudio ao general Freire Gomes dizendo que Bolsonaro estava recebendo pessoas que o pressionavam a agir
  • 9 de novembro de 2022 - Mário Fernandes imprime o plano Punhal Verde Amarelo, que previa o assassinato de Lula, Alckmin e Moraes, e o leva ao Alvorada. Ministério da Defesa divulga nota informando que encaminhou relatório sobre urnas ao TSE
  • 12 de novembro de 2022 - Braga Netto se reúne com Mauro Cid e kids pretos em Brasília. As provas reunidas pela PF indicam que os militares começaram a colocar em prática o plano golpista após essa reunião
  • 19 de novembro - Minuta golpista é apresentada a Bolsonaro no Alvorada por Felipe Martins e padre José Eduardo de Oliveira e Silva
  • 29 de novembro - Militares e apoiadores de Bolsonaro disseminam carta aos generais os pressionando a aderir a teses golpistas
  • 7 de dezembro - Nova versão da minuta, com ajustes, é apresentada por Bolsonaro aos comandantes do Exército e da Marinha e ao ministro da Defesa, no Alvorada
  • 8 de dezembro - Kids pretos ativam celulares que foram utilizados no plano Copa 2022. Mário Fernandes se encontra com Bolsonaro
  • 9 de dezembro - Bolsonaro rompe silêncio, fala com apoiadores, faz ajustes em minuta e se encontra com Estevam Theóphilo, que teria apoiado o golpe
  • 14 de dezembro - Braga Netto xinga Freire Gomes de "cagão" em mensagem de Whatsapp para Ailton Barros, militar expulso do Exército que participava das articulações para pressionar os comandantes a aderir ao golpe
  • 15 de dezembro - Kids pretos se mobilizam em Brasília e chegam a se aproximar da casa de Moraes para executar o plano Copa 2022. O plano, porém, é desarticulado por falta de apoio do comandante do Exército

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