'Ainda Estou Aqui' retomou debate sobre mortos na ditadura, diz pesquisador

Trinta e cinco anos após a descoberta da Vala de Perus, com ossadas de vítimas da ditadura militar (1964-85) em São Paulo, o governo brasileiro vai pedir desculpas a familiares de desaparecidos políticos. O gesto será feito hoje pela ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, no Cemitério Dom Bosco, na zona norte da capital. Apesar disso, o processo de identificação de vítimas de violência do Estado ainda enfrenta desafios.

O que aconteceu

O pedido de desculpas do governo é pela negligência do Estado na identificação desses restos mortais. "Esse pedido chega com o atraso de 35 anos", afirma Edson Teles, vice-coordenador do Caaf (Centro de Antropologia e Arqueologia Forense), da Unifesp, responsável pelo trabalho de identificação.

A Vala de Perus foi descoberta em 1990. Criada em 1975, recebeu mais de 2 mil corpos, todos enterrados em áreas destinadas a indigentes. Segundo Teles, além de opositores da ditadura, possivelmente também havia ali pacientes de hospitais psiquiátricos, crianças afetadas pela epidemia de meningite e vítimas de violência policial — pessoas que, como ele define, "pouco importavam para o Estado brasileiro".

Para Edson Teles, o pedido é "um momento importante para o país". No entanto, não pode ser algo isolado. "Precisa ser acompanhado de medidas concretas para a identificação da história de todos os desaparecidos políticos da ditadura, como é o caso de Rubens Paiva", defende. "Bem como de ações que mudem a realidade brasileira de seguir até os dias atuais produzindo desaparecidos, muitos deles por violência policial ou pela negligência do próprio Estado."

Edson Teles, vice-coordenador do Caaf
Edson Teles, vice-coordenador do Caaf Imagem: Alesp

Paralisado em 2020, trabalho foi retomado no final do ano passado. A identificação das ossadas da Vala de Perus foi interrompida após cortes de verba do governo Jair Bolsonaro (PL). "Após a mudança de governo, foi preciso aguardar um ano e meio para a retomada do financiamento, que só ocorreu em setembro de 2024", conta Edson Teles.

A paralisação do financiamento prejudicou o trabalho e ampliou a angústia dos familiares. "A sensação de perda da esperança aumentou muito nesse período", afirmou Teles. Muitos parentes envelheceram e morreram sem respostas sobre seus familiares.

Mesmo sem recursos, a equipe conseguiu finalizar a primeira fase de análise. Nela foram identificadas as ossadas de 951 indivíduos e enviadas as amostras deles ao laboratório holandês ICMP (International Commission on Missing Persons), responsável pela comparação genética.

Com a retomada dos recursos, iniciou-se a etapa de "reassociação". O trabalho é para identificar os ossos misturados entre os restos mortais analisados. Segundo Edson Teles, 26% das 1.049 caixas catalogadas contêm ossos de diferentes indivíduos. "Essa fase, que deve se encerrar em agosto, inclui a seleção de amostras viáveis para extração de DNA e envio ao ICMP", explica.

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Trabalho de identificação de assadas, no Caaf
Trabalho de identificação de assadas, no Caaf Imagem: DCI/Unifesp

Brasil vive momento decisivo na busca pelos desaparecidos políticos. "Após o relatório da Comissão Nacional da Verdade e os anos de um governo [de Jair Bolsonaro] que negava a história da ditadura, a memória desse período ficou sob risco de apagamento", afirma Edson Teles. Para ele, a conjuntura atual reacendeu o debate, impulsionado pelo filme "Ainda Estou Aqui" e pelas investigações sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Reconhecimento oficial da negligência estatal é importante, mas não garante a continuidade do trabalho. "Não há uma política de Estado permanente para esse tipo de investigação. Aprendemos com o governo anterior que as pesquisas podem ser interrompidas a qualquer momento", alerta o pesquisador.

Além da Vala de Perus, outras demandas têm surgido para o Caaf. É o caso da busca por desaparecidos da Guerrilha do Araguaia e do cemitério de Ricardo Albuquerque, no Rio de Janeiro, conta Teles. Além disso, desaparecimentos recentes, especialmente de jovens negros das periferias, continuam sem resposta.