"Ainda estamos aqui"

Na rota de destruição da barragem, moradores de Barão de Cocais (MG) vivem medo que não passa

Luciana Quierati Do UOL, em São Paulo
Luciana Quierati/UOL

No fundo da casa do ajudante-geral Geraldo Magela Tomás, 56, no bairro Capim Cheiroso, passa um córrego que vai transbordar se a barragem Sul Superior da Vale se romper. O aviso das autoridades foi feito em 8 de fevereiro, quando Geraldo ouviu a sirene tocar pela primeira vez e fez a mala com uma muda de roupa e documentos.

Depois disso, a sirene soou de novo, em 22 de março, veio também a saga do talude alardeado para cair na semana de 18 a 25 de maio, e a mala de Geraldo seguiu firme no mesmo lugar, em um canto do quarto onde não atrapalha ninguém.

_ O senhor vai desfazer a mala quando o risco do talude for afastado?, pergunto ao encontrar Geraldo na principal praça de Barão de Cocais no dia 28.
_ Não, senhora, diz ele.
_ Vai esperar a barragem sair do nível máximo de alerta?
_ Também não, senhora.
_ Quando, então, seu Geraldo?
_ Só desfaço a mala quando fecharem a barragem.

Por lei, a Vale tem que fechar --o termo correto é descaracterizar-- a barragem da mina de Gongo Soco até fevereiro de 2022. Até isso acontecer, a mala fica onde está. Porque, apesar de dizer que não acredita que a barragem vá mesmo se romper e o rejeito chegar ao seu quintal, a ponto de invadir sua casa, ele prefere não arriscar.

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Ninguém na cidade de 32 mil habitantes, especialmente os 6.054 que estão na rota da lama, quer contar com a sorte que, infelizmente, as vítimas de Mariana e Brumadinho não tiveram. Como confiar que agora seria diferente, eles se perguntam, se as duas barragens que se romperam em novembro de 2015 e janeiro deste ano tinham certificado de estabilidade, laudo que a Sul Superior no momento sequer tem.

Por isso, a apreensão às vezes diminui, às vezes aumenta, como ocorreu na semana prevista para o talude cair, mas não deixa a cidade. A prova está na mala que Geraldo insiste em manter preparada. Está na insônia do autônomo José Mendes, 61, que fica vendo televisão até as 2h ou 3h e só então adormece.

O medo está no choro da recepcionista aposentada Sylvia Duarte, 82, que decidiu deixar a casa onde morou por 77 anos, desde que era uma pequerrucha de cinco, com medo de tomar susto com a vinda da lama e sofrer um novo infarto, enquanto ainda se recupera do primeiro.

O receio também ocupa cada cômodo da casa da professora aposentada Vanda Guimarães, 69, embora ela se esforce em disfarçá-lo com frases confiantes de que a providência divina não permitirá que nada de mal aconteça.

_ Vai romper nada, não. A mão de Deus é poderosa, diz ela.
_ Mas, então, por que é que o arroz, o feijão e toda a compra do mês estão amontoados em cima do balcão da cozinha?
_ Mas vai que a lama chegue até a altura do armário?, afirma ela, em contradição.

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Após tantos alertas, simulados, meios-fios pintados de laranja indicando o caminho do rejeito, postes ganhando placas indicando rotas de fuga e, por fim, a história do paredão prestes a cair, a desconfiança foi tomando o inconsciente dos cocaienses.

Tem morador evitando comprar alimento congelado. Gente que deixou de frequentar a pizzaria que fica rente ao rio São João, por onde a lama pode passar.

Tem gente optando por guardar o que sobra no fim do mês para uma emergência, em vez de gastar com uma roupa ou um calçado, como faria antes. E o comércio sentiu. Até os bancos e a agência dos Correios chegaram a ficar fechados por mais de uma semana. A justificativa era sempre a mesma: "Vai que...".

Mesmo quem é de fora e visita a cidade fica cismado. Um dia depois de chegar à cidade, lá estava eu à imagem e semelhança de Geraldo, que eu ainda nem conhecia, com a mala sempre organizada no quarto de hotel, localizado no caminho da lama. Vai que a barragem arrebenta no meio da noite...

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Os moradores da chamada ZSS (zona de segurança secundária), como é o caso de Geraldo, Vanda, Sylvia e José, sabem o que fazer se a barragem se romper: pegar a mala e os documentos já separados, seguir a pé até um dos sete pontos de encontro preestabelecidos e aguardar o transporte para um hotel.

Sabem que terão uma hora e 12 minutos para deixar a parte baixa da cidade, de acordo com o estudo de impacto apresentado pela Vale às autoridades. Tempo, a princípio, suficiente. Mas e o medo de passar por esse sufoco? E se o plano de evacuação falhar?

Mesmo sobrevivendo à queda do talude --que até agora só sofreu uma esfarelada de menos de 1% de seus 96 mil m²--, a barragem Sul Superior, com 6,8 milhões de m³ de rejeito de minério, seguirá no estágio máximo de alerta por tempo indeterminado.

A Vale diz estar realizando obras para baixar de 3 para 2, 1 ou zero o grau de risco na barragem, mas que não consegue estimar um prazo para que isso ocorra.

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Além dos 6.054 moradores em compasso de espera e angústia dentro de casas que ficam a pelo menos 17,8 km da barragem, existem outros quase 500 fora das terras onde costumavam plantar para consumo próprio ou como fonte de renda.

A sirene os tirou da cama na madrugada de 8 de fevereiro, depois que a barragem teve o certificado de estabilidade negado por uma consultoria contratada pela Vale. São moradores dos povoados de Socorro, Tabuleiro, Piteiras e Vila do Gongo, localizados na principal área de risco, nos primeiros 10 km de mancha de inundação. Em caso de rompimento da barragem, ali poucos teriam tempo de correr e se salvar.

Muitos ainda estão em hotéis e outros têm vivido em casas alugadas pela Vale. Se a mineradora conseguir reduzir o nível de alerta de 3 para 1, diz Eduardo Leão, diretor da ANM (Agência Nacional de Mineração), teoricamente esses moradores já poderiam voltar para suas propriedades. Mas, como dito anteriormente, a mineradora afirma não ter ideia de quando isso poderá ocorrer.

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As propriedades estão se deteriorando. Em sobrevoo sobre as comunidades, no dia 27, o presidente da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de Brumadinho na Câmara, deputado Júlio Delgado (PSB), disse que viu uma cidade fantasma, com carros abandonados, plantas perdendo o viço e nenhuma vivalma circulando.

"Se eu tentar entrar, vou ser considerado bandido e vão chamar a polícia para mim. Nunca pensei passar por isso", reclamou o comerciante Geraldo Leal, 57, durante a reunião com integrantes da comissão na Câmara de Vereadores de Barão, ocasião em que o prefeito Décio Geraldo dos Santos (PV), em uma atitude inusitada, se ajoelhou diante dos deputados e pediu ajuda para tirar a cidade da letargia.

Mas, enquanto Leal e os demais moradores ou proprietários não podem voltar, bandidos burlam bloqueios e fazem a festa. José Mendes, aquele morador que não consegue dormir direito porque está na área secundária de risco, tem uma chácara em Socorro. Os cerca de 20 canteiros onde havia plantado cebolinha para vender a duas fábricas de tempero da cidade já se perderam. Quando tentou buscar a máquina de linguiça que havia ficado para trás, descobriu que havia sido furtada.

"Ainda não sou aposentado, pensei que pudesse ao menos fazer umas linguiças para vender, porque a Vale me deu R$ 5.000, mas isso em quatro meses não é nada", diz José. "Estava tratando com o dentista e tive que parar no meio [do tratamento], porque não tenho dinheiro", continua ele, explicando meio sem jeito que, na verdade, falta dinheiro até para os gastos mais elementares.

Além de uma parcela única de R$ 5.000 para cada família, a Vale tem dado aos moradores evacuados uma ajuda de R$ 400 por mês para alimentação.

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Até que a mineradora viabilize a volta dessas pessoas para suas áreas, deverá continuar o burburinho que todo jornalista ouve desde que chega a Barão de Cocais: o de que a Vale tem interesse, mesmo, é em deixar as coisas como estão para poder comprar as terras por ora desvalorizadas e dar sequência a seu plano de extração de minério --que, segundo eles, estaria entre os mais puros e valiosos.

Em nota divulgada no dia 30, a mineradora refutou as especulações de que estaria promovendo a retirada de moradores ou transferência de imóveis com base em interesses econômicos e disse que "jamais realizará atividades de exploração minerária" na ZAS (zona de autossalvamento, a principal área de risco) de Barão de Cocais, bem como nas áreas atingidas pelo rompimento da barragem 1 da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho --como chegou a ser noticiado pela imprensa.

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Os moradores de Barão contam que se entristeceram com o rompimento da barragem em Mariana, a apenas 49 km dali, e ficaram chocados com a tragédia de Brumadinho, a 144 km, que deixou a cidade arrasada, vivendo o luto pela morte de 246 pessoas e ainda à espera de outros 24 desaparecidos. Mas garantem que não passava pela cabeça de ninguém por ali que um dia haveria risco semelhante com a barragem de Gongo Soco, aparentemente inofensiva.

"Quando soou a sirene pela primeira vez, todo mundo parecia não acreditar", diz Deise Lima de Morais, 43, dona de um carrinho de lanches na cidade.

Alto astral, sorridente, a moça certo dia me surpreendeu. Enquanto falávamos sobre o que havia de bom para se fazer em Barão, de repente seu olhar se tornou vago, ela se debruçou na janela como quem quer contar um segredo e desabafou. "Ontem eu chorei. É a minha cidade. Imagina esta praça toda coberta de lama?"

Vanda, a professora aposentada que deixa o arroz em cima do balcão da cozinha para a lama não alcançar, diz que os moradores de Barão, no fundo, são pessoas privilegiadas, porque já estão preparadas para o caso de o pior acontecer. Chance que as vítimas de Brumadinho não tiveram.

Mas, diante de tanta indefinição, todo mundo tem feito mesmo é como Geraldo, o da mala pronta, porque sabem que só voltarão a ter sossego de fato quando a barragem sumir do mapa.

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