Projetos em risco

Bolsistas relatam medo com continuidade de pesquisa após cortes na Capes feitos pelo governo Bolsonaro

Camila Rodrigues da Silva e Ana Carla Bermúdez Do UOL, em São Paulo

O bloqueio em bolsas oferecidas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão ligado ao MEC (Ministério da Educação), trouxe incertezas a mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos de todo o país. Sem o auxílio, responsáveis por projetos científicos em diversas áreas veem a continuidade das pesquisas em risco.

Mas, para além do prejuízo para o avanço da ciência no país, bolsistas e ex-bolsistas ouvidos pelo UOL relatam ter deixado um emprego para trás para poder contar com os recursos da Capes --que exige dedicação exclusiva para conceder as bolsas.

O desfecho dessas histórias pode não ser o pior, já que a Capes afirmou que vai reabrir cerca de 1.324 bolsas de pós-graduação cortadas --1.224 são de cursos com nota 6 e 7, as mais altas na escala de avaliação. As cem restantes são concedidas no exterior. Cerca de outras 3.500 bolsas, no entanto, permanecem congeladas.

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Sem garantias, foi morar com a mãe

Dino Beghetto, 36, defendeu a tese dele em física pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Guaratinguetá, em São Paulo, no fim de março deste ano. "Fiz dentro do prazo estipulado pela bolsa, também da Capes, que eu obtive durante todos os 48 meses do doutorado", contou.

No mesmo mês da defesa, foi lançado o edital para uma bolsa de pós-doutorado para o Centro de Matemática da UFABC, em Santo André (SP). O prazo para inscrições se encerrava em abril.

Para concorrer a uma bolsa, ele teve que escrever um projeto de pesquisa e ter anuência de um supervisor docente do Centro de Matemática da UFABC. Com todas as condições exigidas atendidas, conseguiu a aprovação para obter a bolsa com início já em maio.

Ele disse que enviou a documentação por email. Teria até 8 de maio para levar os originais na secretaria e assinar o termo de compromisso para dar início à pesquisa dentro da UFABC.

"Porém, quando fui lá no dia 6, o pessoal responsável pelo setor de bolsas informou que não estava tendo acesso ao sistema Capes para implementar a bolsa. Todos fomos pegos de surpresa: eu, meu supervisor e o pessoal responsável da UFABC. Agora estou esperando para ver o que acontece", afirmou Beghetto.

Ele enfatiza que o corte afetou não somente sua vida acadêmica. "Logo depois de assinar o contrato na UFABC, eu iria fechar um contrato de um ano de aluguel de uma quitinete em Santo André. Por sorte não assinei antes."

Ele diz que foi para São José dos Campos (SP) viver na casa da mãe, "pois não tinha garantia de nada".

"Eu tinha declinado de um convite de emprego para dar aula em São José dos Campos, pois já tinha garantida a minha bolsa de pós-doutorado", contou. A bolsa exige que não se tenha vínculo empregatício.

"A Capes disse que recolheu bolsas ociosas, porém para essa bolsa tratada como "ociosa" estava ocorrendo um edital de seleção de pesquisadores --no qual eu passei. Aliás, espero que consiga reaver esta bolsa, porque eu batalhei bastante para consegui-la."

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Largaram trabalho por bolsa

O estudante Evandro Smarieri, 29, começou neste ano o doutorado em sociologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ele conseguiu participar do programa da Univesp, como facilitador de aprendizagem, e estava recebendo uma bolsa equivalente à de doutorado por cinco meses, prorrogável por mais um ano.

Em meados de abril, recebeu um email do Programa de Pós-Graduação informando que estava disponível uma bolsa da Capes. "Seria uma bolsa de quatro anos, que facilitaria meu planejamento para fazer a pesquisa", avaliou. Para ter acesso ao recurso, bastava levar a documentação até 3 de maio. Ele levou antes e assinou o contrato por volta de 20 de abril.

"Eu tive que abrir mão da bolsa que já estava garantida e esperar pelo período de 30 dias de implementação para receber essa bolsa em junho", afirmou. Mas a bolsa não chegou.

"Agora, eu vou ter que arcar com um contrato de aluguel, sair de Campinas ou procurar um trabalho para conciliar com o doutorado. Mas é difícil manter a qualidade do trabalho sem bolsa", disse o estudante, que atua na área de sociologia da ciência e tecnologia. "O sentimento total é de total insegurança e incerteza."

A "ociosidade" da bolsa, muitas vezes, era apenas decorrente do tempo de implementação, ou seja, de passar de um pós-graduando que acabou de defender a tese para outros que começaram o curso.

"A plataforma da Capes abre no início do mês e fecha na segunda quinzena, então os programas precisam se cadastrar até o dia 15 para que as pessoas recebam no início do mês seguinte", diz a professora Luciana Alves, coordenadora do programa de pós-graduação em demografia da Unicamp.

Em seu programa, houve o caso de uma aluna, Yeda Carvalho, que se exonerou de seu cargo público para pegar a bolsa.

Yeda estava na rede estadual de ensino no ano passado e dava o mínimo de aulas para poder conciliar o tempo de trabalho com o mestrado. Como havia conseguido bolsa, optou por se exonerar.

"Eu me exonerei no dia 29 de abril e levei os documentos no dia 2 de maio. Mas o sistema da Capes não abriu mais. No dia 8 fiquei sabendo que a bolsa havia sumido", relatou a estudante. Como seu programa de pós-graduação possui nota 6, ela soube, após alguns dias de transtorno, que conseguiria recuperar a bolsa.

"Isso é um erro de gestão e foi uma irresponsabilidade com as universidades e com os programas. O desenvolvimento da sociedade depende de resultado de pesquisa, que vem em sua maioria da universidade pública", avaliou Luciana.

Flávia Calé, presidente da ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduação) e mestranda do programa de história econômica da USP, questiona o conceito da Capes para definir "bolsa ociosa" em um cenário em que menos de 50% dos pós-graduandos são contemplados, segundo ela. "Nós temos um déficit de bolsas no Brasil. Eu gostaria de entender o argumento da Capes", afirma.

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Jéssica Almeida*, 32, é doutoranda em geografia* na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ela trabalhava como recepcionista e passou no doutorado, mas estava à espera da liberação de uma bolsa.

"Fui avisada de que teria bolsa no mês de abril, mas eles só iam me inserir no sistema em maio, porque eu estava trabalhando e precisava resolver minha situação", afirmou.

"Eu trabalho oito horas por dia, não teria como me dedicar ao doutorado --principalmente pela minha função, já que a empresa precisa sempre ter alguém na recepção", explicou.

Jéssica então entregou sua carteira de trabalho, mas, dois dias depois, teve que voltar atrás. A bolsa teria sido cancelada. "Minha sorte foi que, lá no meu trabalho, eles não tinham dado entrada na papelada da demissão", contou.

"Foi muito difícil para mim porque minha mãe é funcionária pública aqui do estado [Rio Grande do Norte], que está com atrasos no pagamento. Ela nem recebeu o 13º salário do ano passado, e meu pai ficou desempregado neste mês. Eu fiquei numa situação muito difícil, porque não posso deixar de ter renda", relatou.

Um dia depois de falarem que a bolsa tinha sido cortada, o coordenador da pós ligou para avisá-la que tinha conseguido recuperar o montante. Já que o doutorado havia sido criado neste ano, a bolsa não foi considerada ociosa. "Então, eu voltei para empresa, confirmei que conseguiram recuperar minha bolsa e decidi pedir minha demissão. Mas só vou ficar tranquila quando de fato a bolsa entrar, o que só deve acontecer no próximo mês".

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Projeto pronto --e por enquanto engavetado

Laura Gonzalez, 28 (na imagem, é pessoa ao centro), é aluna da faculdade de medicina da USP (Universidade de São Paulo) e estava prestes a se matricular no doutorado.

"Estou com o projeto pronto", diz a jovem, que pesquisa carcinossarcomas e sarcomas uterinos --tipos raros de câncer no útero.

A expectativa por uma bolsa da Capes era grande. O planejamento para fazer o doutorado, ela conta, vem desde o ano passado.

"Não arrumei um emprego, já que teria que me dedicar exclusivamente à pesquisa", afirma. "No momento, tenho um dinheiro guardado e estou tentando me manter com isso", diz.

Laura ainda mira em uma alternativa: buscar auxílio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), fundação de fomento ligada ao governo paulista. Mas diz ter receio de que, com os cortes na Capes, a fundação paulista não dê conta da demanda.

"Nosso departamento sempre tinha bolsa de mestrado e doutorado [da Capes]", diz. "Agora, provavelmente, a Fapesp vai ficar sobrecarregada. A gente não sabe se vai dar tudo certo."

A bolsa, ela afirma, é "essencial" para que as pesquisas continuem. "Estou na pesquisa desde 2012, quando fiz iniciação científica. Tive bolsa Pibic [destinada à iniciação científica] e depois fiz mestrado pela Capes. Assim como eu, muita gente contava com essa bolsa para se manter no período da pesquisa", diz.

"Esse corte acaba prejudicando a todo o departamento, porque a gente não sabe até quando as pessoas conseguem se manter e fazer pesquisa", afirma.

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