A linha tênue do Brexit

Por que a fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte é um dos pontos mais sensíveis da saída britânica

Pedro Graminha Do UOL, em São Paulo
Getty Images

No próximo dia 15, o parlamento britânico aprovará ou rejeitará o acordo costurado entre o Reino Unido e a União Europeia para a retirada britânica do bloco. Após longas deliberações e intensos debates, o Brexit -- que se arrasta desde 2016 -- pode, literalmente, sair.

Será a primeira vez que um dos membros deixa o bloco desde sua criação em 1992. A situação gera dúvidas de grande escala: perdendo 13% dos habitantes, a União Europeia continuará viável economicamente? O que acontecerá com milhares de europeus trabalhando no arquipélago britânico? Cidadãos poderão transitar entre Europa e Reino Unido livremente?

Mas há incertezas também nos detalhes. Um trecho de terra de pouco mais de 500 quilômetros que separam Irlanda do Norte, território britânico, e a Irlanda, território europeu, concentra parte dessas agonias: a fronteira, hoje praticamente inexistente, passará a ser controlada? Famílias e amigos precisarão de visto para visitar quem mora do outro lado da linha? A demarcação reacenderá o ódio que levou nacionalistas irlandeses e unionistas à guerra no fim do século passado?

EMMANUEL DUNAND/AFP EMMANUEL DUNAND/AFP

O acordo

A premiê britânica Theresa May negociou um acordo com a União Europeia tentando organizar o Brexit e amenizando confrontos na fronteira entre as duas Irlandas. A votação dessa proposta deveria ter ocorrido em dezembro, mas foi adiada -- uma manobra de May para evitar uma derrota dada como certa.

Um dos principais pontos desse acordo é o chamado "backstop" (barreira, em tradução livre), um mecanismo legal para que as fronteiras entre as duas Irlandas não sejam afetadas pela saída do Reino Unido. 

"O 'backstop' manteria a Irlanda do Norte [território do Reino Unido] no território aduaneiro e alinhada à União Europeia. Isso evitaria a implementação de postos de controle na fronteira, mas necessitaria de algumas checagens sobre produtos vindos do resto do Reino Unido para a Irlanda do Norte", explica ao UOL o professor e cientista político David Phinnemore, da Universidade de Queen's, na Irlanda do Norte.

Arte/UOL

A decisão é vista com desconfiança por gente que acredita que, dessa forma, o Reino Unido se manteria submisso à União Europeia (e em uma posição fragilizada como não-membro), além de ter a integridade territorial do Reino Unido ameaçada com um regime alfandegário diferente na Irlanda do Norte.

"A maior das pessoas na Irlanda do Norte se opõe ao Brexit, mas apoiam o backstop", diz o professor.

Por outro lado, ele explica, quem apoia o Brexit costuma ser contra o backstop -- que implicaria num Brexit "descafeinado", uma vez que deixaria a Irlanda do Norte, de alguma maneira, ainda vinculada à União Europeia.

"Este argumento é exagerado, pois a Irlanda do Norte já tem regulamentações diferentes, suas próprias organizações de governo e sistemas legais; o povo da Irlanda do Norte ainda tem o direito legal de decidir se o país continua parte do Reino Unido ou se junta à Irlanda, e nada disso prejudica a integridade do Reino Unido", aponta o professor.

Simon Plestenjak/Folhapress Simon Plestenjak/Folhapress

Para Barry Tumelty (ao lado), cônsul da Irlanda em São Paulo, a prioridade do governo Irlandês nas negociações é garantir que os pontos principais do tratado assinado em 1998 -- conhecido como "Tratado da Sexta Feira Santa" -- sejam mantidos, entre eles, a não-existência de uma 'fronteira dura' entre os dois países, ou seja, com postos de controle e alfândega.

"Durante o conflito, nós tivemos uma fronteira quase militarizada na Irlanda do Norte. Voltar a essa estrutura será um sinal muito negativo para as comunidades, que ainda se lembram dessa época. Hoje, vivemos em paz, mas há muitas fragilidades. As pessoas que viveram a violência não querem que ela volte, mas sempre tiveram pessoas que não aceitaram a paz na ilha."

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História viva

A Irlanda, antes um protetorado britânico, conquistou a independência em 1921. Mas parte da ilha continuou sobre a alçada do Reino Unido. A divisão do território levou em consideração a configuração das populações em cada parte: o sul, de maioria católica, ficou de fora do Reino Unido, e o norte, de maioria protestante, permaneceu submisso à rainha.

Mas a divisão acabou marginalizando os católicos que moravam, como minoria, na Irlanda do Norte. Eles reclamavam de ter piores salários, empregos e condições de vida e iniciaram, em 1967, protestos pacíficos. A dura repressão desses movimentos deflagrou conflitos violentos, que ficariam conhecidos como The Troubles.

Em 1969, tropas britânicas foram enviadas à Irlanda do Norte. Nesse contexto, ganhou força o IRA (exército republicano irlandês, em tradução livre), grupo paramilitar que havia surgido em 1919, no contexto da independência da Irlanda, formado majoritariamente por católicos que tentavam reunir as duas Irlandas, separando a Irlanda do Norte do Reino Unido. 

O grupo foi responsável por uma série de atentados contra militares britânicos e também civis, sendo considerado terrorista.

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Em 1972, um dos anos mais violentos do conflito, cerca de 470 pessoas foram mortas. Foi nesse ano que ocorreu o Domingo Sangrento, episódio imortalizado na canção Bloody  Sunday, da banda irlandesa U2.

Na cidade norte-irlandesa de Derry, durante uma passeata que reuniu cerca de dez mil católicos, soldados ingleses dispararam e mataram 14 manifestantes desarmados. O governo britânico declarou ter agido em legítima defesa. Em 2010 o caso foi reaberto e então declarada a inocência das vítimas. O massacre acabou por dar mais força ao grupo terrorista IRA.

Reuters Reuters

O Tratado

Depois de quase três décadas de conflito e alguns anos de negociações, em 1998 foi assinado o Tratado de Belfast, também conhecido como Tratado da Sexta-feira Santa, aprovado por referendo nos dois países. Entre os termos do acordo, estava a fronteira fluída entre os dois países.

"Para irlandeses nacionalistas, a fronteira representava uma divisão da Irlanda; para os unionistas, que se identificavam como britânicos, ela era fundamental para o reconhecimento da Irlanda do Norte como parte do Reino Unido. A fronteira estava no centro de toda a política na Irlanda do Norte durante os conflitos. O efeito do Tratado da Sexta-Feira Santa foi o de formalizar um processo de paz e gradualmente retirar a fronteira da política ao desmantelar as infraestruturas de segurança fronteiriças, promovendo uma cooperação norte-sul na Ilha", explica o professor David Phinnemore.

Muito da atual configuração das duas Irlandas é resultado do acordo de 1998, não apenas em relação à questão das fronteiras, mas também em relação as nacionalidades dentro dos países.

Hoje, qualquer pessoa nascida em território Irlandês tem direito a nacionalidade irlandesa e britânica. Com os dois países inseridos em realidades políticas e econômicas distintas, isso não será mais possível.

O tratado também estabeleceu novas instituições na Irlanda do Norte, garantindo a divisão de poderes entre nacionalistas e unionistas e o aumento da cooperação tanto com a Irlanda tanto com o Reino Unido, agradando assim os dois grupos.

Considerado um dos mais bem-sucedidos acordos de paz da Europa, o Tratado da Sexta-Feira Santa deu aos políticos da Irlanda do Norte John Hume e David Trimble o Prêmio Nobel da Paz no mesmo ano.

CLODAGH KILCOYNE/Reuters CLODAGH KILCOYNE/Reuters

Passado bate à porta

É o cenário de instabilidade anterior ao acordo que muitos temem poder voltar com o Brexit, se as fronteiras entre as Irlandas se endurecerem.

"Um endurecimento da fronteira com postos de controle é visto como algo inaceitável para muitos, especialmente os nacionalistas [que veem as duas Irlandas como uma única nação]. Se as preocupações não forem abordadas, desobediência civil e potenciais casos de violência não podem ser descartados. A polícia e as forças de segurança estão preocupadas que os postos de fronteira poderiam ser alvos de ataques", disse o professor.

Estima-se que, por mês, cerca de 1 milhão de pessoas cruze de um lado para o outro, por meio das mais de 300 passagens formais e informais que permeiam a fronteira,

Na prática, a fronteira, atualmente, só é vista nos detalhes. De repente, a moeda deixa de ser euro e vira libra. Ou as placas deixam de estar em milhas (medida britânica) e passam a estar indicadas em quilômetros. Em algumas fazendas, a fronteira invisível corta o terreno ao meio.

"A área de agricultura será particularmente afetada, pois nosso principal mercado de exportação é o Reino Unido", explica o cônsul da Irlanda. "Também haverá implicações nos setores de transporte e energia", diz.

Cathal McNaughton/Reuters Cathal McNaughton/Reuters

Para compensar os impactos econômicos de um rompimento brusco, a Irlanda preparou um extenso programa de contingência. "Acho que ninguém está mais preparado do que a Irlanda", garante o cônsul.

O país cogita dar empréstimos para empresas que tenham dificuldades econômicas, pacotes de apoio para fazendeiros e pescadores, além de investimentos em pesquisa e inovação.

Estamos trabalhando para diferenciar nossos mercados, inclusive na América Latina. Vamos abrir, pela primeira vez, uma embaixada em Bogotá e, em fevereiro, em Santiago", disse.

"No Brasil, em setembro, recebemos o ministro de comércio irlandês, que trouxe empresas irlandesas para cá. Duas abriram novos escritórios em São Paulo. Tudo isso é parte de nossa estratégia de diversificação, mas já somos um país bem globalizado", explica.

"Quando entramos na União Europeia, 40% de nossas exportações eram para o Reino Unido. Hoje em dia, isso representa apenas 12%. Vamos continuar a trabalhar com eles, mas também expandido nossa presença em outros mercados, investindo nesses relacionamentos. A Irlanda continuará sendo ambiciosa."

Ben Stansall/AFP Ben Stansall/AFP

A saída do Reino Unido da União Europeia está prevista para o dia 29 de março. 

Até lá, irlandeses torcem para que o acordo proposto por Theresa May seja aprovado, e uma fronteira militarizada não seja instalada entre Irlanda e Irlanda do Norte.

"O acordo não é apenas a melhor proposta, mas a única maneira de garantir uma saída bem ordenada do Reino Unido", diz o cônsul irlandês em São Paulo.

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