Os homens de preto

Como Cuba ensinou a Venezuela a reprimir dissidências militares com medo, espiões e serviço de inteligência

Angus Berwick Da Reuters, em Caracas
Presidência da Venezuela

Em dezembro de 2007, Hugo Chávez sofreu sua primeira derrota nas urnas da Venezuela. Apesar de ainda ser extremamente popular entre a classe trabalhadora que o levou ao poder quase uma década antes, os eleitores rejeitaram o referendo que lhe permitiria disputar a reeleição indefinidamente.

Segundo três ex-assessores, Chávez ficou irritado e recorreu a um confidente próximo: Fidel Castro (1926-2016). O velho líder cubano foi mentor de Chávez anos antes de o venezuelano se tornar presidente.

Naquele momento, laços econômicos mais profundos tornavam Cuba ainda mais dependente da Venezuela rica em petróleo, por isso Fidel estava ávido em ajudar Chávez a permanecer no poder, disseram esses assessores. O conselho que ele deu foi de assegurar o controle absoluto dos militares.

Mas fácil dizer que fazer. Os militares da Venezuela tinham um retrospecto de levantes, às vezes chegando a golpes como o que Chávez, quando era tenente-coronel do Exército, tentou em 1992.

Uma década mais tarde, rivais realizaram um breve golpe contra o próprio Chávez. Mas, se Chávez desse os passos certos, instruiu o cubano, ele permaneceria no poder tanto tempo quanto o próprio Fidel, lembraram os assessores. Os militares cubanos, com o irmão de Castro no comando, controlariam tudo, da segurança a setores fundamentais da economia.

Em questão de meses, os países elaboraram dois acordos assinados em maio de 2008, analisados pela primeira vez pela Reuters, que deram a Cuba profundo acesso às Forças Armadas da Venezuela e grande liberdade para espioná-las.

Os acordos levaram à imposição de uma rígida vigilância das tropas venezuelanas por meio de um serviço de inteligência conhecido como Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM). Sob a orientação de conselheiros militares cubanos, a Venezuela reformou a unidade de inteligência em um serviço que espiona suas próprias Forças Armadas, incutindo medo e paranoia para esmagar a dissensão.

A DGCIM é acusada por soldados, legisladores da oposição, grupos de direitos humanos e governos estrangeiros de abusos, incluindo tortura e a morte recente de um capitão da Marinha que havia sido detido.

O que era permitido a Cuba pelos acordos:

  • Treinar soldados na Venezuela

  • Analisar e reestruturar partes das Forças Armadas venezuelanas

  • Treinar agentes de inteligência venezuelanos em Havana

  • De espionagem de rivais estrangeiros passar para vigilância dos militares

Andres Leighton/AP - 05.02.1992 Andres Leighton/AP - 05.02.1992

O primeiro acordo, segundo os documentos, prepararia os agentes para "descobrir e confrontar o trabalho subversivo do inimigo". O segundo autorizava as autoridades cubanas a supervisionar a "assimilação" e "modernização" dos militares da Venezuela.

A presença de oficiais cubanos dentro das Forças Armadas da Venezuela é conhecida há anos. Nicolás Maduro disse em um discurso em 2017: "Somos gratos às Forças Armadas revolucionárias de Cuba. Nós as saudamos e sempre as receberemos".

Mas nenhum dos países jamais reconheceu detalhes dos acordos ou a extensão do envolvimento de Cuba. Em março, após o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, condenar a "influência maligna" de Havana sobre Caracas, o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, minimizou o relacionamento.

"Rejeito fortemente as repetidas e falsas acusações", ele tuitou, "de militares cubanos 'treinando', 'controlando' ou 'intimidando' na Venezuela."

O Ministério da Defesa e o da Informação, responsável pelas comunicações do governo venezuelano, não responderam aos emails e telefonemas para comentar este texto. As autoridades cubanas também não responderam aos pedidos.

Os acordos militares provaram ser cruciais para a sobrevivência de Maduro como presidente, segundo especialistas em segurança, pessoas familiarizadas com o governo e políticos da oposição.

Com a ajuda e o treinamento de Cuba, os militares permaneceram ao lado de Maduro e o ajudaram a resistir ao colapso econômico, à disseminação da fome e da criminalidade, assim como à emigração de mais de 4 milhões de pessoas, mais de 10% da população da Venezuela, nos últimos anos.

A transformação da DGCIM, dizem os especialistas entrevistados, foi particularmente eficaz. "A missão mais importante para o serviço de inteligência antes era neutralizar qualquer ameaça à democracia", disse Raúl Salazar, ex-ministro da Defesa sob Chávez que se opõe a Maduro. "Agora, com Cuba no comando, o governo o utiliza para se manter no poder."

Assim que Cuba começou a treinar pessoal da DGCIM, o serviço de inteligência plantou agentes, com frequência trajando fardas pretas, dentro dos quartéis.

Ali, eles compilavam dossiês sobre pessoas vistas como problemáticas ou com sinais de deslealdade, segundo mais de 20 ex-militares e oficiais de inteligência venezuelanos. A DGCIM também começou a grampear os telefones de oficiais, incluindo altos comandantes militares, para ouvir possíveis conspirações.

A repressão levou a centenas de prisões. Pelo menos 200 oficiais militares estão no momento detidos, segundo a Assembleia Nacional liderada pela oposição. A Controle pelo Cidadão, uma organização venezuelana que estuda as Forças Armadas, diz que o número é maior e ultrapassa 300 pessoas.

Em um relatório de junho de 2017, a DGCIM acusou um soldado, matriculado em uma universidade considerada alinhada com a oposição, de "subversão ideológica e política". Falando pela primeira vez, o ex-tenente Daniel (que pediu que não divulgasse seu sobrenome) contou como foi algemado a uma cadeira em uma sala continuamente iluminada e espancado até que duas vértebras fossem quebradas.

Aqueles dias não tinham fim

Daniel, oficial torturado pelo regime de Maduro que pediu anonimato

Reuters -1992 Reuters -1992

Desde sua remodelagem, as fileiras da DGCIM incharam, de poucas centenas de agentes, no início do governo Chávez, para pelo menos 1.500 agora, segundo ex-oficiais militares.

Um relatório recente das Nações Unidas acusou a DGCIM de tortura, incluindo choques elétricos, sufocamento, simulação de afogamento, violência sexual e privação de água e comida. Sob Maduro, oficiais da DGCIM foram promovidos a altas patentes, incluindo o comando da segurança pessoal do líder.

A repressão, diz a oposição, intimidou as Forças Armadas. Mas os apelos da oposição por uma rebelião militar não foram ouvidos. "Fracassamos", disse um alto oficial da oposição envolvido nas tentativas de mediar conversações com líderes militares. "Não temos nada a oferecer para convencê-los."

Tomas Bravo/Reuters Tomas Bravo/Reuters

Admiração mútua

Para Chávez, as mudanças previstas pelos dois acordos repercutiram de forma pessoal.

Fidel, a quem há muito admirava, foi o primeiro líder internacional a apoiar Chávez como um político em ascensão nos anos 1990. Enquanto isso, a unidade de inteligência militar da Venezuela era comandada por oficiais alinhados com a elite conservadora e que se opunham à visão de Chávez de transformar um país que, apesar de contar com as maiores reservas de petróleo do mundo, sofria com grande pobreza.

Quando o golpe de Chávez fracassou, em 1992, oficiais da unidade, na época conhecida como Diretório de Inteligência Militar (DIM), foram os encarregados de prendê-lo. Ele ficou em uma cela subterrânea no quartel-general do DIM em Caracas onde posteriormente deteria alguns de seus adversários políticos.

Meses após sua soltura da prisão devido a um perdão presidencial, Chávez voou para Havana em 1994, onde Fidel o recebeu no aeroporto. O ditador cubano viu em Chávez um líder esquerdista de mentalidade semelhante à sua e, na vasta riqueza do petróleo da Venezuela, uma fonte potencial de nutrição para a economia cubana, que padecia devido ao colapso de sua antiga patrocinadora, a União Soviética.

Após a visita, os dois começaram a conversar regularmente, disseram ex-assessores.

No final dos anos 1990, a inflação alta, o baixo crescimento econômico e a crescente pobreza tornaram a mensagem socialista de Chávez atraente para um número cada vez maior de venezuelanos. Em 1998, ele foi eleito presidente. Quase imediatamente, ele aprofundou os laços formais com Cuba.

Em outubro de 2000, Fidel viajou para Caracas para assinar uma série de acordos econômicos. A Venezuela daria a Cuba petróleo suficiente para atender metade de suas necessidades de energia.

Adalberto Roque/AFP Adalberto Roque/AFP

Desde então, a Venezuela já enviou em média pelo menos 55 mil barris de petróleo por dia para a ilha, ou mais de US$ 21 bilhões em petróleo, segundo números do governo. Em troca, Cuba enviou médicos, professores e especialistas em agricultura para diversificar a economia de base da Venezuela.

Em 2002, a elite da Venezuela se cansou de Chávez. Em abril, líderes da oposição conservadora se uniram a chefes das Forças Armadas, incluindo altos oficiais do DIM, e o detiveram. Mas o golpe, após um enorme levante popular, fracassou após dois dias.

De volta ao poder, Chávez colocou assessores cubanos dentro de seu círculo interno para reforçar a segurança, segundo seus ex-assessores e vários ex-oficiais militares. Ele deu início a um expurgo do serviço de inteligência e de outros altos escalões das Forças Armadas.

Nomeou Hugo Carvajal, um tenente-coronel que participou da tentativa de golpe de Chávez em 1992 e posteriormente chefiou a divisão de investigações da DIM, como subdiretor. Em dois anos, Carvajal passou a diretor-geral.

Carvajal começou a modernizar o DIM. Em um email para a Reuters, Carvajal disse que Banco Central da Venezuela forneceu milhões de dólares em espécie para o DIM para aquisição de nova tecnologia, incluindo equipamento de vigilância e um banco de dados para centralizar a inteligência.

Agora fora do cargo, ele sofre sanções impostas pelo Departamento do Tesouro dos EUA por supostamente ajudar guerrilheiros colombianos. Em abril do ano passado, ele foi preso na Espanha e permanece detido em resposta a um mandado americano por suposto tráfico de drogas. Ele nega as acusações.

Em julho de 2007, Chávez nomeou Gustavo Rangel, um oficial leal que comandou a reserva do Exército, como ministro da Defesa.

Em sua posse, Rangel falou sobre a necessidade de um "novo pensamento militar venezuelano" em resposta ao "inimigo real". O "império", ele disse, usando o termo empregado por Caracas para se referir aos EUA, patrocinava "grupos subversivos" com a intenção de destruir a revolução. Ele não foi encontrado para comentar.

Em dezembro daquele ano, Chávez perdeu o referendo de forma legítima. Pela televisão, ele prometeu uma "nova ofensiva". Em um encontro em Caracas em 26 de maio de 2008, Rangel e o general Álvaro López, o vice-ministro da Defesa de Cuba, assinaram os dois acordos.

O Ministério da Defesa de Cuba supervisionaria uma reestruturação do DIM e assessoraria na criação de "novos órgãos". O DIM também enviaria grupos de até 40 oficiais para Havana por até três meses para treinamento de espionagem.

Segundo os documentos, a Venezuela enviaria currículos dos candidatos a treinamento para seleção por Cuba. Os cursos incluiriam lidar com "colaboradores secretos", realizar investigações criminais e selecionar novos agentes.

Grande parte do treinamento, segundo os documentos, ocorreria na Academia Militar Comandante Arides Estévez Sánchez, em Havana. Lá, instrutores cubanos diziam aos agentes que a missão deles dali em diante seria de infiltração e controle das Forças Armadas, segundo cinco pessoas familiarizadas com os cursos.

O segundo acordo criou um comitê conhecido como Grupo de Coordenação e Ligação da República de Cuba (Gruce). O Gruce, composto de oito "especialistas militares" cubanos, enviaria assessores cubanos para a Venezuela para inspeção das unidades militares e treinamento dos soldados.

Um ex-oficial da inteligência venezuelana lembrou o treinamento que recebeu de instrutores cubanos em uma fazenda em Anzoátegui. Ele disse que os instrutores pressionavam os estudantes com perguntas sobre suas crenças políticas.

Chávez venceu em novo referendo que acabava com os limites de mandato. Em 2011, mudou o nome do DIM para incluir o termo "contrainteligência", refletindo sua missão de impedir sabotagem interna.

Recém-saídos do treinamento cubano, os novos agentes começaram a se infiltrar nos quartéis. "Vivíamos e treinávamos com as tropas para monitorá-las, mantendo os chefes informados", disse outro ex-oficial do DGCIM à Reuters. "Tínhamos um controle férreo."

Alguns agentes fingiam ser soldados comuns. Outros vestiam seus uniformes da DGCIM e regularmente encorajavam os soldados a denunciarem uns aos outros. Eles passaram a ser conhecidos como "os homens de preto", segundo vários ex-soldados.

Histórias de detenção e tortura por agentes da DGCIM, às vezes usando máscaras de esqueleto e balaclavas, corriam à solta pelas fileiras.

Enrique de la Osa/Reuters Enrique de la Osa/Reuters

Sai Chávez, entra Maduro

Chávez, após quatro cirurgias em Cuba, morreu em 2013. Em uma coluna de jornal, Fidel o chamou de "o melhor amigo que o povo cubano teve em sua história". Os eleitores elegeram Maduro para sucedê-lo.

Em 2014, os preços do petróleo despencaram. O esforço de Maduro para estimular a economia fracassou.

Fome e escassez atingiram até mesmo as Forças Armadas. Um médico militar disse recentemente que muitos soldados alistados estão abaixo do peso, subsistindo basicamente de massa e lentilhas.

À medida que crescia o número de tropas buscando desertar, a DGCIM se tornava mais agressiva. Ela expandiu a vigilância, grampeando até mesmo altos oficiais.

No andar superior de seu quartel-general, cerca de 40 agentes usam uma plataforma que permite "interceptar, monitorar e analisar cada fonte de informação".

Em julho de 2017, o tenente Daniel foi convocado à sala do comandante de seu batalhão. Antes um apoiador de Chávez, Daniel perdeu o entusiasmo sob o governo Maduro e disse a seus superiores que planejava sair. Ele se matriculou em um curso de direito e participou de algumas marchas da oposição.

O comportamento de Daniel, segundo o relatório da inteligência analisado pela reportagem, era "contrarrevolucionário" e a universidade foi descrita como uma escola da oposição.

Ao se apresentar, relatou Daniel, três agentes confiscaram seu telefone e disseram que ele precisava ser "entrevistado" no quartel-general da DGCIM. Foi transferido para uma cela no subsolo e o algemaram a uma cadeira. Todo dia, um homem entrava e o espancava repetidamente. Os espancamentos resultaram em duas vértebras quebradas, segundo um laudo médico.

Após 20 dias, um tribunal militar o acusou de traição, rebelião e violação do decoro militar. Aguardando julgamento, foi transferido para outra prisão. Seis meses depois, após se declarar culpado, foi solto e expulso do Exército.

Daniel voltou ao curso de direito, mas se arrepende de ter se declarado culpado. "Não sei se foi a coisa certa", disse, ressaltando que muitos que não se declaram culpado permanecem detidos indefinidamente. "Não dá para lutar contra o Estado."

A vigilância atingiu até mesmo altos oficiais. Rafael Acosta, um capitão da Marinha de 50 anos, morreu sob custódia da DGCIM em 29 de junho, oito dias após ter sido preso.

Tarek Saab, o procurador-geral da Venezuela, disse que Acosta foi detido por participação em uma conspiração "de direita" não especificada. A mulher de Acosta, Waleswka Pérez, disse que as acusações são falsas e acusou a DGCIM de tortura.

Em 1º de julho, Saab disse que o governo indiciou dois agentes da DGCIM por homicídio.

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