Minha cota, minha vida

Alunos e ex-alunos negros relatam preconceitos e dificuldades após entrarem na universidade pública

André Bernardo Colaboração para o UOL, no Rio
Theo Marques/UOL

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra cota é derivada da expressão latina "Quota pars?" (que pode ser traduzida por "Em quantas partes?") e significa quantia, fração, parcela.

Sozinho, pode ser um substantivo como outro qualquer. Mas, acompanhado do adjetivo racial, costuma gerar polarizações.

Uns dizem que cotas raciais reduzem desigualdades socioeconômicas, reparam erros históricos e democratizam o acesso à universidade. Outros, ao contrário, afirmam que elas ferem o princípio da igualdade, derrubam o nível acadêmico e acirram os conflitos étnicos.

"A ideia de que as cotas raciais ferem o princípio da igualdade é simplesmente cruel. Não há igualdade em um país onde as oportunidades são díspares", diz Renísia Garcia, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), da UnB (Universidade de Brasília). "A crueldade está na insensibilidade de quem não vê que do jeito que estava não dava para continuar e que o Brasil precisava fazer algo urgentemente."

Em 2004, a UnB se tornou a primeira instituição federal a instituir o sistema de cotas no país. Um ano antes, em 2003, a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) havia sido a primeira estadual a lançar mão do recurso para facilitar o acesso de estudantes de origem negra nas universidades públicas. Levou mais oito anos para que, em 2012, todas as universidades federais, por intermédio da lei nº 12.711, adotassem ações afirmativas.

Com o passar do tempo, algumas ideias preconcebidas foram derrubadas. Como a que sustentava que o percentual de evasão entre cotistas era maior. Um relatório da Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) apontou que, entre 2003 e 2016, 26% dos 21,3 mil estudantes que ingressaram na instituição pelo sistema de cotas desistiram no meio do caminho. Entre os não cotistas, o índice ficou em 37%.

"Cotistas tendem a abandonar menos o curso e a tirar notas tão boas ou até melhores que os não cotistas porque valorizam mais a universidade", afirma Frei David Santos, fundador da ONG Educafro. "Quanto ao racismo, infelizmente, está por toda parte. Mas já ouvi aluno dizer que prefere ser discriminado dentro da universidade. Lá, pelo menos, dispõe de meios para se defender do preconceito racial e da exclusão social."

A reportagem do UOL ouviu dois ex-cotistas formados e um estudante que relataram suas dificuldades ao ingressar no ensino superior e falaram da importância das ações afirmativas para a vida pessoal e acadêmica.

Gabriel Lordello/UOL Gabriel Lordello/UOL

"Negros na universidade incomodam"

O estudante João Victor dos Santos, 24, não consegue esquecer o dia 3 de novembro de 2014. Durante uma aula para alunos do curso de ciências sociais, da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), adepta das cotas raciais desde 2012, um professor de economia teceu críticas ao sistema de cotas e disse que "detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro". "Ele verbalizou o que muitos professores pensam", diz.

Primeiro de sua família a ingressar em uma universidade federal, Santos diz que aquele não foi um caso isolado. Em 2016, cita, docentes de arquitetura e urbanismo dividiram as turmas de algumas disciplinas entre cotistas e não cotistas.

"A presença de corpos negros no espaço universitário incomoda bastante. Há muita discriminação", afirma.

O preconceito não parte apenas de professores. Alunos não cotistas tendem a segregar os cotistas nas redes sociais e a não convidá-los para participar de grupos de estudo ou festas de confraternização.

"Eu digo que sou o único da minha família 'até o momento' a estar em uma federal, porque tenho certeza de que meus filhos e primos terão mais chances de ingressar numa universidade. O sistema de cotas é eficaz, mas precisa ser aprimorado. Precisamos de mais docentes negros ocupando as reitorias", diz.

Integrante do Coletivo Negrada, ele explica que, além de denunciar casos de racismo à ouvidoria, aciona os meios de comunicação. O citado professor de economia foi demitido em fevereiro deste ano.

"Se a gente não leva o caso ao conhecimento da mídia, ele provavelmente é arquivado. Há muito corporativismo. Quando a gente divulga para a imprensa, a pressão tende a ser maior", afirma.

Desde 2015, o grupo denuncia fraudes no sistema de cotas. Naquele ano, encaminhou uma lista de 40 alunos suspeitos de fraudar a autodeclaração étnico-racial no vestibular da Ufes.

Na minha turma, só temos seis estudantes negros em um universo de 40. É muito pouco. O sistema de cotas é eficaz, mas precisa ser aprimorado. Também precisamos de mais docentes negros para ocupar as reitorias e combater o racismo institucionalizado

João Victor dos Santos, estudante

Luciola Viellela/UOL Luciola Viellela/UOL

"Gritei de outra forma: metendo a cara nos livros"

A hoje professora Luciene Ventura, 34, nunca gostou de negar coisas à mãe. Em 2003, quando dona Ofélia falou à filha que desse um tempo nos estudos e fosse à praia "distrair a cabeça", ela atendeu o pedido. Mas levou um livro a tiracolo. Entre um mergulho e outro, aproveitava para estudar.

"Tempo era algo que eu não podia desperdiçar", diz.

Luciene e a irmã, Luciana, fazem parte da primeira geração de cotistas da Uerj. Ela passou em matemática; Luciana em engenharia química.

Vinda de um colégio estadual, Luciene sentiu, e muito, o ensino avançado. "Corri contra o relógio. Passei madrugadas estudando o que não tinha aprendido no ensino médio", conta. Tão difícil quanto ingressar na universidade foi permanecer lá. "Não adianta dar acesso e não dar condição."

A bolsa de incentivo mal dava para cobrir as despesas com xerox, passagem e alimentação. "Na hora do almoço, levava marmita de casa ou comprava salgadinho na promoção", diz.

Também não havia tempo a perder com ataques racistas. "Ainda hoje, o sistema de cotas é visto como se o negro quisesse se dar bem ou tirar vantagem. Cota não é privilégio, é reparação. No tempo da escravidão, os negros eram tratados como bichos e sofriam castigos, como se não sentissem dor. Com o fim da escravidão, foram descartados como se não tivessem valor", afirma.

Para assumir a vaga conquistada em um concurso público, Luciene precisava terminar o curso de quatro anos em três. Conseguiu. "No ensino médio, gritei e não fui ouvida. No ensino superior, gritei de outra forma: metendo a cara nos livros", afirma. "Bater de frente é pior."

Hoje, dá aula para alunos do ensino médio. "A hegemonia racial fez o branco poderoso e com boas condições de vida. Já o negro não era dono de nada, nem de si mesmo. Os negros viveram a pior miséria humana, que é a desumanização do ser. Foram deixados à margem, para contar com a própria sorte", afirma. "Não tem como tratar igual os desiguais. Ao negro não foi dada oportunidade, mas descaso. E reparar erros é necessário, já que a educação brasileira não prepara igualmente seus filhos."

Aprendi, desde cedo, a não desistir dos meus sonhos. Sem sonho, a gente não é nada nesta vida. É vazio por dentro

Luciene Ventura, ex-cotista, hoje professora

Theo Marques/UOL Theo Marques/UOL

"Jamais pensei em desistir"

"Eram profetas do Apocalipse". É assim que o psicólogo Wellington Oliveira dos Santos, 31, se refere àqueles que, no começo de sua trajetória acadêmica, em 2005, diziam que os cotistas desistiriam no meio do caminho ou derrubariam o nível da universidade.

"Jamais pensei em desistir. Era uma das poucas chances que tive para mudar minha condição social. Perdi amigos, tanto para o crime quanto para o álcool, que não tiveram as mesmas oportunidades", afirma.

Aluno da primeira turma de cotistas negros da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Santos foi o primeiro a conquistar o título de doutor na instituição onde concluiu a graduação. Sua tese compara as políticas educacionais antirracistas no Brasil e na Colômbia.

O caminho percorrido pelo hoje professor de psicologia da educação da UEG (Universidade Estadual de Goiás) foi longo. O pai, Adelino, morreu cedo. A mãe, Lucinda, se viu obrigada a trabalhar duro como cozinheira e diarista para criar os três filhos.

No início do curso, ele chegou a trabalhar como garçom em Curitiba. Para economizar a grana do ônibus, fazia a pé o percurso de 6 km que separava um campus do outro. No trajeto, recolhia latinhas de refrigerante e as vendia para reciclagem.

"Na minha família, poucos tinham o ensino fundamental completo. Minha mãe, por exemplo, só estudou até a quarta série. Éramos pobres e, quando digo isso, não estou falando de não ter dinheiro para viajar ou para trocar de carro a cada três anos. Estou falando de morar em um barraco de madeira, ter só arroz e feijão na panela e usar roupas doadas. Minha conquista representou uma mudança de perspectiva. Hoje, ingressar no ensino superior tornou-se um horizonte possível para minha irmã, Érika, 30, e meu primo de 34 anos."

Ele diz que de início teve dificuldade para conseguir comprar textos, pagar a passagem do ônibus e outras tarefas rotineiras. "Até achei que poderia sofrer algum preconceito. Mas me sentia muito bem na UFPR. A universidade era uma das poucas oportunidades que tive para mudar minha condição social."

Tinha consciência da importância do ingresso no ensino superior. Considero que sou parte da história se outros negros que estão hoje na mesma condição em que estive alcançarem os mesmos direitos que eu

Wellington Oliveira dos Santos, ex-cotista, hoje psicólogo

Curtiu? Compartilhe.

Topo