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Por que os brasileiros estão entupindo fóruns online que glorificam atentados a tiros em escolas?

Leonardo Coelho* Do Rest of World Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World

O texto abaixo foi publicado em parceria com Rest of World, uma revista online internacional baseada em Nova York. Você pode ler a versão original deste artigo e outras matérias sobre tecnologia global em restofworld.org.

Enquanto notas tristonhas de violão pairavam no ar, algumas dúzias de adolescentes em Suzano, uma pequena cidade nos arredores industriais de São Paulo, davam-se as mãos para formar uma roda. Todos vestidos de branco, cantavam e oravam em frente ao portão da escola que, exatamente um ano antes, tinham atravessado correndo para salvar a própria vida. De lá para cá os muros foram pintados, mas ainda dá para ver antigas pichações embaixo da demão de cal. "Nunca vou entender," diz uma delas. "Estas balas atingiram a todos nós," declara outra.

Aqui em Suzano, as manchas deixadas pelo segundo grande atentado a tiros em escolas brasileiras não podem ser apagadas. Às 9:43 de manhã no dia 13 de março de 2019, dois ex-alunos - jovens que encontraram inspiração em um dos recôncavos mais obscuros da internet - atacaram a escola de ensino médio Professor Raul Brasil e mataram cinco alunos, uma professora e uma funcionária, além de ferir mais onze pessoas. Depois de executar o massacre, G.T.M., 17 anos, deu um tiro fatal em seu parceiro de crime, L.H.C., 25 anos, e então cometeu suicídio.

Nesta manhã ensolarada, um ano depois, uma voz solitária começa a cantar e sobreviventes e parentes fazem coro, muitos se desmanchando em lágrimas. Uma moça na roda segurava as mãos das pessoas a seu lado e cantava alto, mas não chorava. Usando jeans e uma camiseta xadrez vermelho e azul, Raquel Dias (foto abaixo), 22 anos, confundia-se facilmente com os adolescentes de luto. O rosto dela mistura maçãs do rosto fortes com traços delicados; algo nela sugere desconforto. Ele foi a Suzano naquele dia para satisfazer uma curiosidade acachapante: finalmente se aproximar das pessoas cuja tragédia tinha se transformado em obsessão desde a primeira vez em que viu a notícia na televisão.

Talvez ela tenha sido a única intrusa na cerimônia de lembrança daquele dia, mas é apenas uma entre os milhares de pessoas que se debruçaram por cima do crime protegidas pela segurança do computador. Ela passou meses absorvendo cada mínimo detalhe da história e, na cerimônia, reconheceu os pais e amigos de várias vítimas. Para Raquel, foi o ápice de uma jornada aos meandros de um mundo subterrâneo digital perturbador.

Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World
Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World

O trajeto de G.T.M. até orquestrar o massacre de Suzano começou na internet. Depois de um amigo lhe falar do atentado a tiros na escola de ensino médio de Columbine, no Colorado (EUA), em 1999, G.T.M. ganhou inspiração para planejar seu próprio ataque. Ele era ativo na deep web e contribuía com regularidade com o Dogolachan, um fórum anônimo de extrema-direita, famoso por sua exaltação a atos violentos. Nas semanas que antecederam o massacre de Suzano, foi ali que ele pediu conselhos sobre como conseguir armas e demonstrou esperança de que seu ataque fosse ofuscar o infame atentado no Colorado. Na vida real de G.T.M., tudo estava desmoronando. Ele sofria bullying na escola, e sua avó materna- que o tinha acolhido depois que os pais o abandonaram - tinha morrido fazia pouco tempo. Então chegou o dia em que G.T.M. e L.H.C. foram à escola armados com uma pistola calibre 38, uma besta, facas, um arco e flecha e coquetéis Molotov.

Quando notícias do ataque começaram a surgir, Raquel estava em seu horário de almoço em seu emprego como atendente de telemarketing em São Paulo. Ao ver um trecho da reportagem na TV, resolveu nem prestar atenção. Mas, depois de um minuto, não conseguiu mais parar de assistir. Na medida em que o dia foi passando, ela foi ficando mais curiosa. Como tinha sido criada em uma cidade pobre com alta taxa de criminalidade perto de São Paulo, estava acostumada à violência. Mas isso era diferente.

Na medida em que as semanas foram passando, a curiosidade de Raquel foi crescendo. Ela buscou a conta original de G.T.M. no Twitter, mas só encontrou centenas de perfis anônimos em homenagem a ele. Raquel continuou fuçando e descobriu que, em vida, G.T.M. era conhecido no Twitter por seu próprio codinome numérico. Essa descoberta abriu a porta a todo um amontoado de contas diferentes e níveis de intriga ainda mais profundos.

Foi assim que Raquel passou a conhecer a comunidade de fãs de crimes reais, uma colcha de retalhos de criadores de conteúdo em várias plataformas digitais que têm em comum o fascínio por crimes de alta visibilidade como atentados a tiros em escolas e assassinatos em série. Subgrupos de crimes reais existem em plataformas como Instagram, TikTok e Facebook, mas a mais usada é o Twitter, já que permite aos usuários colocar links para recursos externos, integrar arte em ASCII e escrever longos threads que alimentam o debate por outros membros. Um desses threads inclui, por exemplo, longas especulações relativas à sexualidade dos assassinos de Columbine, Eric Harris e Dylan Klebold, e discussões a respeito de o cúmplice de L.H.C, G.T.M., sofrer ou não de distúrbios psiquiátricos. Membros criam e compartilham trechos de reportagens televisivas, detalhes da perícia dos crimes e suas próprias investigações amadoras. Até as mais mínimas informações são repetidas e amplificadas com muito pouca ou absolutamente nenhuma responsabilidade.

A tendência de criar e promover conteúdo digital relativo a crimes reais em inglês surgiu no YouTube, em 2008, e de lá passou para o Tumblr, onde a comunidade ganhou fama por idolatrar pessoas que executavam massacres a tiros. Os participantes passaram a ser conhecidos como "Columbine stans" ou "columbiners", por causa do ataque de 1999. Depois de Suzano, uma variante brasileira começou a se espalhar pelas mídias sociais e em sites específicos de fãs. Em um dia normal no site de fanfic Wattpad, uma menina descreve como se apaixonou por G.T.M. depois que seu espírito apareceu para ela. No YouTube, um vídeo de 24 segundos postado recentemente comemora o aniversário do massacre de Suzano com uma montagem de imagens com fundo de música melancólica. No Facebook, em um grupo dedicado a G.T.M., Harris e Klebold, uma jovem brasileira posta que está com saudade de G.T.M.. "Ele será eternamente meu psicopata querido", ela escreve.

No Brasil, a comunidade de crimes reais é formada principalmente por membros que idolatram assassinos: Harris e Klebold; Dylann Roof de Charleston (EUA); e, acima de tudo, G.T.M.. Apesar de a interação flutuar - e sempre aumentar depois de novos atentados -, a comunidade tem centenas de membros ativos no Brasil e milhares que apenas leem os posts. São, na maior parte, meninas adolescentes e mulheres bem jovens que, como Raquel, vêm de cenários complicados ou situação doméstica precária.

Depois que Raquel entendeu como essa sociedade marginal funcionava, fazer parte dela foi fácil. Ela criou uma conta no Twitter para isso em maio de 2019. "Preste atenção às pessoas ao seu redor", ela escreveu, com ambiguidade, e seu primeiro tweet. "Pode haver um G.T.M. perto de você, talvez até na sua casa, e você ainda não reparou."

Depois de algumas semanas na comunidade, Raquel começou a entrar em vários grupos de WhatsApp onde muitos membros fanáticos se reúnem. As regras básicas e os temas variam. Alguns proíbem integrantes de fazerem ameaças explícitas; em outros, vale tudo. "As pessoas compartilham imagens muito violentas de assassinos atirando em vítimas com música eletrônica no fundo", ela diz. Outros ainda incluem conteúdo de violência contra crianças, elogios exagerados a conhecidos assassinos em série e manuais de suicídio. Mas, segundo Raquel, o que todos esses grupos disparatados têm em comum é o interesse compartilhado por ataques a tiros em escolas.

Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World
Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World

Vitor Oliveira (foto) traça seu caminho até a comunidade em um dia de 2014 quando sua mãe morreu de um tumor de estômago não diagnosticado. A relação já frágil que ele tinha com o pai violento e alcoólatra foi piorando cada vez mais, e ele estava sofrendo bullying na escola. A certa altura, Vitor tentou se suicidar. Ele sempre tinha tido interesse por crimes reais e, na medida em que foi ficando mais velho, isso só fez se intensificar. No final do ano passado, ao navegar pelo Instagram, o rapaz de 22 anos encontrou uma página do Google Maps para a escola Columbine e viu imagens tagueadas por integrantes da comunidade de crimes reais. Ele ficou obcecado com aquilo. Vitor passou a seguir vários alunos de Columbine no Instagram, mas foi bloqueado depois de postar imagens de Harris e Klebold. "Eu estava curioso tanto em relação às vítimas quanto aos assassinos", Vitor diz.

Tímido e monossilábico, mas dotado de um senso de humor irreverente, Vitor passa até quinze horas por dia jogando videogames online, batendo papo com outros aficionados por crimes reais e postando conteúdo violento como vídeos de acidentes de carro e suicídios em seu Twitter. Ele é fascinado pela psicologia das pessoas que executam massacres a tiros em escolas, por como precisaram ser corajosos e impiedosos para executar seus planos e pelo tipo de vida que teriam se não tivessem feito o que fizeram. Mas seus sentimentos também são conflitantes. "Tanto os caras de Columbine quanto os de Suzano foram espertos, mas só queriam incitar medo", Vitor reflete. "Eu nunca teria tido essa coragem." Vitor não tem emprego fixo, mas, quando está longe do computador, faz bico para um app de entrega de comida. Alguns dias por semana, percorre de bicicleta a periferia de São Paulo com sacos cheios de comida do Burger King antes de voltar para a casa que até hoje divide com o pai.

Sociólogos descrevem comportamento como o de Vitor como esforço para se sentir mais forte, uma tentativa de achar que tem controle sobre a própria vida. Luciana Xavier, psicóloga que estuda violência em escolas na PUC de Petrópolis, diz que o apelo das plataformas de crimes reais está no fato de serem espaços onde os jovens podem testar facetas de sua personalidade e experimentar riscos. "É como se estivessem perguntando a si mesmos até onde são capazes de ir", diz Xavier. A socióloga franco-americana Nathalie Paton, autora de um livro a respeito de atentados a tiros em escolas, concorda que esse tipo de "sociabilidade digital" é um meio de entender e formar identidade. Adolescentes que fazem parte desses círculos com frequência imitam os traços que admiram nas pessoas que executam ataques a tiros em escolas, que idolatram como figuras de força. Isso tem importância especial, Paton diz, porque muitos membros foram vitimados. Possuir um histórico de violência, ela diz, é "uma das principais portas de entrada para esse tipo de comunidade".

Bullying é um problema sério no Brasil. De acordo com um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e uma agência ligada ao Ministério da Educação brasileiro, 28% dos diretores de escolas no Brasil informaram ter presenciado bullying ou intimidação entre alunos. Isso é o dobro da média em vários outros países.

A agressão é crucial à cultura da comunidade online. Há brigas internas de sobra, principalmente quando não há criação ou compartilhamento de novos conteúdos. Como não há liderança centralizada para regular a discussão, os membros ficam vulneráveis a assédio e humilhação. Depois que sua identidade foi exposta, uma mulher informou que um perfil no nome dela tinha sido criado em um site de pornografia, e que fotos dela tinham sido postadas ali. Ocasionalmente, pessoas de fora também organizam ataques a comunidades de crimes reais para revelar a identidade de seus integrantes. Conhecidos como doxxing, ataques assim, junto com bullying online e mensagens de ódio, fizeram com que muita gente abandonasse as comunidades - às vezes para sempre, outras vezes só para retornar quando um novo atentado a tiros acontece. Perfis do Twitter conhecidos como "confissões" são usados para espalhar boatos, disseminar memes e até dirigir mensagens de ódio a outros membros da comunidade. Durante um tempo, os integrantes mais famosos se pouparam de almejar uns aos outros, mas, no final, muitos cederam à tentação.

Ao explicar seu interesse pela comunidade de crimes reais, Raquel dá um tom um tanto positivo a seu fascínio pela violência. Muitos participantes se sentem "inseguros, desprotegidos e rejeitados no dia a dia", ela diz, sem ter muitas pessoas a quem possam recorrer. Isso faz com que busquem camaradagem online e encontrem espaços onde possam ser eles mesmos. "As comunidades são um ímã porque ninguém precisa usar máscara", ela diz. Ao longo dos anos, a relação de Raquel com a comunidade evoluiu. Depois de ficar sabendo muita coisa sobre a história de G.T.M., ela passou a sentir uma forte noção de empatia por ele e agora está estudando para se formar em psicologia com concentração em bullying. Vitor tem uma visão mais pessimista dos efeitos da comunidade.

Quando um massacre acontece, é um sinal. Hoje, os alunos da escola Professor Raul Brasil contam com o tão necessário apoio psicológico, por exemplo, mas isso só aconteceu depois do atentado

Vitor Oliveira

Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World Patrícia Monteiro/Redux, para Rest of World

Para algumas pessoas, aquilo que começou como curiosidade pode crescer e se transformar em fascínio perverso. Em julho do ano passado, duas adolescentes comemoraram o 18º aniversário de G.T.M. ao lado de seu túmulo em Suzano com Coca-Cola, chapeuzinhos de festa e um bolo. Depois postaram fotos do evento no Twitter. Desde então, o cemitério municipal de Suzano se recusa a informar a visitantes a localização do túmulo de G.T.M. a menos que a pessoa possa provar que é parente dele. Sobreviventes dizem que garotas periodicamente visitam a casa de G.T.M. para pedir lembrancinhas à família.

Na pior das hipóteses, a comunidade online de crimes reais pode proteger indivíduos que tramam seus próprios crimes. No dia 11 de março de 2020, a polícia deteve três menores em Avaré, uma cidadezinha do interior a 265 quilômetros de São Paulo, suspeitos de planejar um ataque a uma escola. O Rest of World confirmou com um dos amigos de um dos suspeitos que ele tinha sido influenciado por Columbine e Suzano e que editava vídeos relativos a ataques de tiros em escolas para postar nos fóruns. Enquanto especialistas dizem que a maior parte dos membros representa pouca ameaça, evidências sugerem que alguns de fato planejam colocar em prática suas fantasias violentas.

Raquel deixou de lado esse canto da internet por um tempo, mas agora voltou a postar, dando mais atenção a questões como bullying e violência na escola. Em seu novo perfil, ela fixou uma postagem com a imagem de uma rosa branca atrás das grades em primeiro plano e o logotipo da escola Professor Raul Brasil no fundo. No meio de uma pequena constelação de estrelas ela adicionou a palavra "Suzano".

Ele tem fascínio pela maneira como assassinos como G.T.M. são criados e pelas causas subliminares que os movem. Apesar de suas próprias dificuldades, ela fez três peregrinações até Suzano, onde ficou amiga do avô paterno de G.T.M. e até chegou a lhe dar dinheiro. "Tenho empatia pela história dos assassinos, por como eles se sentiam e por como eram tratados", ela diz. "Sou capaz de enxergar além do assassino e compreender por que ele se transformou em alguém assim."

Quando a cerimônia em Suzano chegou ao fim, naquela tarde de finzinho de verão, ela já não conseguia mais segurar as lágrimas. Enquanto chorava sem pudores, alguém lhe ofereceu uma flor. Raquel reconheceu o pai de uma das vítimas, que também chorava, e desmoronou em um ataque de pânico. "Ele sofreu tanto, e eu não posso fazer nada", diz Raquel.

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