Que comecem os Jogos

Eleição de 2020 em SP antecipa disputa que Bolsonaro e Doria devem travar pelo Planalto em 2022

Aiuri Rebello e Wellington Ramalhoso Do UOL, em São Paulo
Ariel Severino/UOL

Cartas embaralhadas

Mais do que um teste para o prefeito Bruno Covas (PSDB), a eleição municipal de São Paulo em 2020 deverá ser a mais importante disputa entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o governador João Doria (PSDB) antes da eleição de 2022, quando o tucano tende a concorrer ao Palácio do Planalto.

Uma vitória na maior cidade do país é considerada estratégica no caminho para a próxima eleição presidencial.

Algumas situações embaralham as cartas do jogo eleitoral, que tem a deputada federal Joice Hasselmann (PSL) como uma espécie de coringa. Com mais de 1 milhão de votos recebidos em 2018, ela teve a segunda maior votação entre os deputados do país e é a mais cotada para representar o partido de Bolsonaro na disputa.

Embora seja líder do governo federal na Câmara, Joice, que ganhou fama como jornalista, mantém proximidade com Doria e outros tucanos. Nas eleições de 2018, ela ajudou a estreitar os laços entre os então candidatos a governador e a presidente. Na ocasião, o tucano distanciou-se do ex-governador Geraldo Alckmin, seu padrinho político e então candidato do PSDB à Presidência.

Quando o resultado do primeiro turno foi conhecido, Doria escancarou o apoio a Bolsonaro e passou a pregar o voto casado "BolsoDoria" no segundo turno em São Paulo.

Ariel Severino/UOL

O truco tucano

Nos últimos meses, o governador tem tentado se descolar da imagem do presidente fazendo críticas pontuais a ele. Na mais recente, disse que nunca mamou nas tetas de ninguém, em resposta a uma crítica do presidente. O movimento tem seus riscos.

"A eleição municipal é um teste para quem tem projetos nacionais. O que Doria quer é formar um arco grande de alianças [para 2022]. E isso passa por não criar problemas na eleição municipal. Ele não pode sair dessa eleição com inimigos, mas fazer aliança com o PSL tem uma simbologia complicada. Ele tem sinalizado críticas ao bolsonarismo. É provável que algum segmento do PSL também comece a fazer restrições a ele", analisa o cientista social Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor do Departamento de Gestão Pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

A ambiguidade da situação obriga aliados a mudarem o discurso repentinamente. Recém-expulso do PSL depois de ter feito críticas a Bolsonaro, o deputado federal Alexandre Frota dizia que sua candidata em São Paulo era Joice. Assim que se filiou ao PSDB a convite de Doria, passou a alardear apoio a Bruno Covas, mas chegou a falar, no programa Roda Viva, da TV Cultura, que poderia pensar em trazer a deputada para o ninho tucano se tivesse carta branca da Executiva Nacional da legenda.

Doria teria a possibilidade de apoiar Joice mesmo que ela não troque de partido, mas esta hipótese é malvista por interlocutores do governador. No círculo próximo a Bruno Covas, a avaliação é de que Doria e Joice possuem um "alinhamento muito grande", mas que o governador não tem alternativa a não ser apoiar de fato a reeleição do correligionário.

"Ele não teria nada a ganhar ao me trair. Eu sou o candidato dele", disse o prefeito a um interlocutor próximo recentemente. "No ano passado, essa questão da falta de palavra já pegou bastante para ele por conta da questão com o Alckmin e por ele ter abandonado a prefeitura mesmo depois de prometer na campanha que não o faria. As sondagens internas mostram isso, e ele sabe".

A ligação de Joice com Bolsonaro também representaria um risco para os planos do tucano. "Ajudar a Joice aqui em São Paulo seria loucura, como trazer um cavalo de Troia para dentro do nosso quintal", diz um tucano a par das articulações. "Quem garante que ela não serviria como um pivô para o Bolsonaro aqui, coisa que hoje ele não tem, para 2022? Para as pretensões do governador, esse seria o pior dos cenários."

Outro interlocutor de Doria lembra que Joice é inexperiente - o mandato de deputada é sua primeira experiência em cargo eletivo. Por este raciocínio, falhas de uma eventual gestão dela na prefeitura arranhariam a imagem dos caciques que lhe dessem apoio.

Entretanto, a gestão Bruno Covas também carece de uma marca positiva. "O que queremos de Doria é inaugurar os hospitais, as escolas, enfim, mostrar todo o trabalho feito em parceria [com o governo estadual]", declara um tucano de confiança do prefeito. "Ele não criou uma marca, mas pode se beneficiar porque está no centro (político). Então pode ser uma alternativa ao bolsonarismo e ao petismo ao mesmo tempo", analisa o professor Carvalho Teixeira.

Ariel Severino/UOL

Ás na manga bolsonarista

Enquanto os tucanos se debatem com dilemas, o comportamento de Joice ainda provoca desconfiança entre colegas do PSL, e a hora de escolher entre Bolsonaro e Doria parece estar chegando.

"Não sabemos até hoje de que lado ela está, do nosso e do presidente Bolsonaro ou do Doria. É impossível seguir com os dois", diz um deputado estadual do partido na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Em evento do PSL na Grande São Paulo no dia 17, Joice deu sinais de que optou por Bolsonaro embora tenha chamado Doria de amigo. Ela discursou como pré-candidata e alfinetou o governador ao dizer que a população da capital paulista "não gosta muito quando alguém muda no meio do caminho o cargo", em uma referência à rejeição a Doria na cidade após ele ter deixado a prefeitura logo no começo do segundo ano de mandato.

A deputada disse que o tucano "errou muito feio" na escolha de Bruno Covas, a quem também chamou de "cavalo de Troia", como vice-prefeito. E ainda exaltou o estilo "brucutu" de Bolsonaro.

Por outro lado, pressionou o presidente pelo veto à lei de Abuso de Autoridade, aprovada pelo Congresso na semana passada, ao compartilhar a convocatória de uma manifestação contra o projeto.

"Estou acostumada com desafios. O PSL, um partido desse tamanho, não vai pagar mico de lançar [candidatura] sem musculatura. A Executiva já disse que é meu nome, não adianta espernear. Se aparecer outro nome de musculatura, a gente vai analisar. Mas hoje o nome com mais representação [para disputar a Prefeitura de São Paulo] é o meu", diz Joice.

Dentro da legenda, a parlamentar conseguiu superar desavenças que teve com o senador Major Olimpio, líder do governo no Senado e figura relevante do partido no estado. Embora outros filiados tenham cogitado a candidatura a prefeito, Olimpio afirma que a escolha por Joice tende a ser um consenso na sigla.

"Já nos entendemos [ele e Joice] e estamos trabalhando em harmonia e na mesma trincheira na defesa do governo Bolsonaro. Pela potencialidade de votos, ela tem a preferência interna para ser candidata. A cidade de São Paulo tem o terceiro maior orçamento do país e é estratégica. Queremos vencer as eleições em São Paulo, e não apenas participar", declarava o senador na semana passada. Nesta semana, porém, o major afirmou em entrevista que cogita deixar o PSL.

Antes de oficializar a candidatura, o diretório municipal do partido tem, entretanto, outros problemas a resolver: ele está suspenso porque apresentou contas irregulares entre 2009 e 2016.

Lucas Lima/ UOL Lucas Lima/ UOL

Outros candidatos na órbita

Pelo menos outros dois postulantes ao comando da capital paulista gravitam na órbita de Doria. Um é o ex-ministro e ex-vereador Andrea Matarazzo (PSD). Em 2016, ele deixou o PSDB acusando o atual governador de comprar votos dentro do partido. Depois, os dois se reaproximaram.

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, é secretário licenciado do governo Doria e mantém boa relação com o tucano. O partido foi convidado a participar de conversas sobre uma eventual fusão com o PSDB e o DEM. O líder da sigla diz, porém, que junções entre grandes partidos devem acontecer somente depois de 2022. De acordo com dirigentes, a legenda deve manter Matarazzo como candidato próprio em 2020.

Estes dirigentes afirmam que a relação entre Doria e Matarazzo não é um "caso de amor", mas atestam que a desavença de 2016 está superada.

O outro pré-candidato da lista é o deputado estadual Arthur "Mamãe Falei" do Val (DEM). O MBL (Movimento Brasil Livre), do qual faz parte, manteve boa relação com Doria, mas agora o parlamentar diz não apoiar um candidato tucano. "Eu nunca apoiaria uma candidatura do PSDB, principalmente do Bruno Covas, que considero o pior prefeito na história da cidade junto com o petista Fernando Haddad".

Depois de receber mais de 400 mil votos no ano passado para entrar na Assembleia Legislativa do estado, ele busca uma forma de viabilizar sua candidatura fora do DEM. "Quero muito ser candidato a prefeito no ano que vem. Estou focado nisso e sei que no DEM essa possibilidade não existe", afirma.

Doria e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), anunciaram parceria entre os partidos para as eleições municipais de 2020. "Não me senti traído como alguns colegas. Nunca esperei nada dessas pessoas", declara Arthur "Mamãe Falei".

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