Covid-19, saliva e pólvora

Enquanto a vacina não vem, instabilidade deve alimentar onda de protestos; urnas pelo mundo pedem moderação

Jamil Chade Colaboração para o UOL, em Genebra (Suíça) Odd ANDERSEN / AFP

Nos últimos dias, as ruas de Lisboa foram tomadas por donos de bares e restaurantes, em protesto contra as novas restrições impostas pelo governo. Em Roma, manifestações ganharam contornos de violência, assim como em Nápoles, Turim e Milão. Na França, Reino Unido, Alemanha e na Espanha, manifestações também se proliferam.

A Europa enfrenta uma crise dupla: a da explosão de novos casos de contaminação pela covid-19 e a exaustão de uma parcela cada vez maior de sua população.

Diante de uma segunda onda da pandemia e um novo mergulho da economia do continente, o temor é de que tal cenário alimente um número cada vez maior de protestos.

Um estudo da OMS (Organização Mundial da Saúde) revelou que, de fato, há hoje uma apatia profunda de parte da sociedade, o que resulta em um comportamento de pouco compromisso com as medidas sanitárias.

Parte dessa reação vem da sensação de que governos não conseguiram agir para frear o vírus e, agora, a renda também desaparece. A produção de uma vacina em tempo recorde é uma aposta para amenizar esse quadro.

Se alguns desses protestos ocorrem de forma espontânea, membros dos conselhos de segurança e de direitos humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) destacam como a extrema direita vem tentando ampliar o sentimento de indignação por parte da sociedade, espalhando teorias da conspiração e promovendo a difusão de ideias de que as liberdades individuais estão sendo ameaçadas

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Num informe do Conselho de Segurança da ONU, o risco de uma desestabilização por parte de grupos de extrema direita é colocado como uma realidade. De acordo com o documento, esse movimento tem tentado explorar a pandemia para "radicalizar, recrutar e inspirar ataques".

De acordo com o informe, entre janeiro e abril de 2020, 34 sites promoveram 80 milhões de interações a partir de desinformação sobre o vírus. Nesse mesmo período, as notícias veiculadas pela OMS em plataformas como Facebook atingiram apenas 6,2 milhões de interações, menos de 10% do movimento promovido pela extrema direita.

Nas urnas, porém, esses movimentos têm mostrado que não conseguiram traduzir ainda em votos o barulho que promovem. Nos Estados Unidos, a resposta inadequada de Donald Trump à pandemia foi considerada como decisiva no resultado eleitoral.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson viu sua popularidade cair e pesquisas de opinião indicam que a oposição venceria uma eleição se ela fosse realizada hoje. 51% dos britânicos ainda consideram que o chefe do governo fracassou em lidar com a pandemia

Alberto PIZZOLI / AFP Alberto PIZZOLI / AFP

Pela Europa, líderes que optaram por respostas robustas à crise se viram compensados por uma maior popularidade. Na Alemanha, uma recente pesquisa realizada pelo instituto Infratest Dimap indicou que 75% dos cidadãos estavam satisfeitos com o trabalho de Angela Merkel durante a pandemia.

Em setembro, uma pesquisa também deu uma taxa de aprovação de 64% para o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas autoridades sabem que uma prolongação da crise ampliará a tensão.

Se inicialmente havia um compromisso político de união contra o vírus da covid-19, a segunda onda colocou em questão pactos nacionais e reabriu velhas disputas entre partidos, regiões e entre ideologias.

ADRIAN DENNIS / AFP ADRIAN DENNIS / AFP

Pelo mundo, o número de novos pobres deve aumentar em 100 milhões de pessoas, além de famintos e desempregados. A OIT (Organização Internacional do Trabalho) ainda estima que a crise vai afetar a renda de 1,2 bilhão de pessoas.

Para especialistas, portanto, o descontentamento social, desemprego, falta de confiança na liderança e a manipulação por grupos extremistas fazem com que a eclosão de crises sociais e distúrbios seja um risco real a partir de 2021.

Antes mesmo da pandemia eclodir, o mundo registrava em 2019 o "ano dos protestos". Desde 2017, movimentos antigoverno já somavam mais de cem iniciativas, entre eles os Coletes Amarelos na França, atos no Chile, Sudão ou Bolívia. Segundo o Carnegie Endowment for International Peace, centro de estudos com sede em diversos países, 20% dessas iniciativas derrubaram governos, mas o resto foi alvo de repressão ou sucumbiu ao vírus.

Governos, porém, temem que esses atos voltarão com uma força ainda maior em 2021.

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Entre os historiadores, não faltam aqueles que alertam que, ao longo dos últimos 1,5 mil anos, epidemias foram seguidas por fortes períodos de distúrbios sociais, revoltas e até mesmo a queda de governos. Ao longo da história, porém, surtos e epidemias percorreram territórios por décadas antes que perdessem força.
A devastação, portanto, incluía um abalo no número de homens num exército, a fome generalizada e onda de violência contra grupos considerados como sendo os supostos responsáveis pelas doenças.

Desta vez, o desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde e a organização de uma operação global de vacinação podem encurtar de forma decisiva a dimensão da crise social. Algumas estimativas revelam que, até o final de 2021, cerca de 1 bilhão de pessoas poderiam ser imunizadas.

Se até hoje a vacina mais rápida a chegar ao mercado precisou de quatro anos de testes clínicos e aprovações, a situação passou a ser radicalmente diferente com a covid-19. Ao longo dos últimos dias, pelo menos três vacinas já indicaram que contam com uma eficácia acima de 90%. E isso tudo antes da pandemia completar um ano.

Mas, para a OMS, ainda que a vacina chegue ao mercado em 2021, não haverá uma quantidade de doses suficientes para toda a população.

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Estudos e projeções da OMS, revelados pelo UOL, confirmam que uma vacinação em massa ocorreria apenas em 2022. Até lá, a agência de saúde insiste que a vacina terá de conviver com outras medidas de controle, incluindo máscaras e distanciamento social.

Outra preocupação se refere ao acesso às vacinas. A OMS insiste que precisa de US$ 38 bilhões para garantir que a inovação chegue a 20% da população de todos os países. Hoje, porém, conta com menos de 30% desse valor.

Enquanto bilhões de pessoas continuem sem a vacina, o risco de turbulência continuará no radar dos governos. Além disso, não haverá vacina para a desigualdade, aprofundada pela crise.
E quanto mais tempo levar para um restabelecimento da economia mundial, maior será a tensão. "Não existe vacina para a pobreza", concluiu o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus

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