"O medo não acabou"

Sobreviventes do massacre de Suzano (SP) relembram pânico e relatam dificuldade em voltar à escola

Wellington Ramalhoso e Diego Padgurschi do UOL, em Suzano (SP) Diego Padgurschi/UOL

Onze dias depois do ataque feito por dois ex-alunos na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, sobreviventes enfrentam os traumas provocados pelo massacre. As lembranças dos momentos de desespero e das cenas de horror não se apagam.

O UOL mostra a seguir os depoimentos de duas alunas e do dono da cantina da escola. Khetlynn Nery e Maimby Moreira, ambas de 16 anos e alunas do terceiro ano do ensino médio, e o comerciante Bruno Zanchetta, 30, relembram o que viveram na manhã do último dia 13 e dizem como encaram a perspectiva de retomar a rotina e os planos de vida. As aulas devem ser retomadas na próxima terça-feira (26).

Depoimento de Khetlynn Nery

A gente pensava que era bomba porque sempre tem um engraçadinho que solta bomba. Eu estava no banheiro [quando o atirador começou a disparar], e nunca ia passar pela minha cabeça que estavam matando pessoas.

Ouvimos o atirador dizendo: "pode chamar a polícia, vou matar todo mundo". Aí comecei a entrar em desespero e liguei para a minha mãe. Falei: "estão atirando na escola". E ela falou para me acalmar e disse que ia ligar para a polícia.

Me senti encurralada. Eu pensava: "meu Deus, será que vou sair daqui viva? E se a polícia não chegar antes de ele entrar nesse banheiro?". Quando os assassinos vinham perto do banheiro e gritavam, a gente ficava desesperada e pedia para as meninas fazerem silêncio para não chamar a atenção deles.

Diego Padgurschi/UOL Diego Padgurschi/UOL

Acho que não vai acontecer de novo, mas o medo não acabou. Na escola, quando ouvir qualquer barulho, a gente vai achar que é tiro, vai ficar desesperada. Sei que é difícil, mas a gente tem que ser forte. Se a gente não for forte, o que será da gente? A gente sobreviveu e tem que continuar.

De início, a gente se sente com muito medo, não quer mais voltar para a escola. Vendo o apoio que estão dando, é mais fácil de lidar.

Digo para os alunos serem fortes e não desistirem da escola, da vida, dos sonhos, de fazer faculdade. Eu pretendo fazer odontologia ou engenharia.

Depoimento de Maimby Moreira

Naquela manhã a gente tinha conversado bastante com a inspetora Eliana [Regina de Oliveira Xavier], brincado com ela porque a gente tinha ficado com aula vaga, coisa que nunca tinha acontecido neste ano. E ela ficou na nossa sala. Era muito amiga da gente, muito gente boa.

Bateu o sinal do intervalo e foi quando tudo começou. A gente saiu da sala e foi ao banheiro. Aí o tiroteio começou. Começou a entrar muita gente no banheiro. Essas pessoas estavam desesperadas. E a gente entrou nos boxes. Umas 25, 30 meninas ficaram no banheiro. Fechamos a porta, só que o trinco não tranca. A gente ficou segurando a porta com medo de alguém entrar lá. Tem gente que começou a entrar em desespero e passar mal.

Só saímos quando os policiais chegaram e autorizaram a saída. Os assassinos já estavam mortos.

Diego Padgurschi/UOL Diego Padgurschi/UOL

Não é certo o que falaram sobre professores terem armas. Arma com professor não seria a solução. Tinham que reforçar a segurança, dificultar a entrada e colocar funcionários de segurança.

Eu estava querendo mudar de escola, mas aí a gente começou a vir para a escola e viu todo o apoio que estão dando. E o medo foi diminuindo um pouco esses dias. Não sei como vai ser quando voltar porque a gente quer que tenha segurança. O medo vai continuar.

Mesmo com tudo o que aconteceu a gente não pode parar, tem que continuar. Vou fazer o Enem, pretendo tirar uma boa nota para conseguir uma faculdade. Ainda não me decidi pelo curso, mas pretendo continuar nos estudos.

Como foi o massacre

Depoimento de Bruno Zanchetta

Todo dia eu fico na cantina para ajudar a funcionária durante os intervalos das aulas. Naquele dia, cheguei às 9h10. O intervalo era às 9h30. A inspetora Eliana [Regina de Oliveira Xavier] veio tomar um café e bater um papo. Ela brincou comigo, a gente deu risada. Não lembro qual foi a brincadeira. Todo dia ela brincava comigo. Deu o sinal, a Eliana ficou na parte de cima, bem em frente à secretaria, na entrada.

O intervalo é muito cheio nos primeiros dez minutos. Às 9h40, olhei o celular. Foi bem na hora em que escutei o barulho do tiro. No momento, falei para a minha funcionária: 'nossa, os meninos estão soltando bombinha de novo'. Porque vira e mexe os alunos fazem isso nas escolas. Aí vi o atirador. Ele disparou mais dois tiros e começou a descer a escada. Começou toda a movimentação, a gritaria.

Chutei a porta da cantina para sair. Tentei estourar o cadeado de um portão que dá acesso à quadra e não consegui. O atirador estava descendo, tendo acesso ao pátio, e o pátio é aberto, não tem onde se esconder. No desespero, corri para o banheiro masculino com uns 30, 40 alunos. Não tinha como fechar o banheiro. Só tínhamos as portas de madeira dos boxes. Acho que tinha uns cinco, seis alunos em cada box.

Liguei para a polícia enquanto ouvia os tiros e a gritaria. Pensava se ia viver ou não. Se ele entrasse lá, não tinha para onde correr nem como sair. Estava todo mundo encurralado. Foram uns dez minutos, mas na hora parecia mais tempo.

Ficamos lá até aparecer o policial à paisana que ajudou na saída.

Saímos correndo do banheiro e vimos que tinha bastante gente morta, muita gente chorando e gritando, vidros estourados. É essa a cena que não sai da cabeça. Vi o corpo da Eliana no chão, e ela não estava mais com vida.

A funcionária está mal. Ela tem muito mais amizade com os funcionários da escola porque trabalha manhã e tarde lá. Ela quer voltar a trabalhar, mas precisa de tempo.

Não tenho a mínima ideia do que fazer com a cantina. Eu me sentia seguro, mas agora não estou muito confiante. É difícil ter vontade de voltar. Estou bem receoso. Qualquer barulho e coisa diferente, fico mais ligado.

Passei quatro dias seguidos em casa com a família. De vez em quando, trazia meus filhos para correr no pátio e brincar aqui. Tão cedo não vou trazer de novo. Hoje não tenho essa coragem. Só vou trazer se acontecer uma mudança e a escola tiver segurança.

Estão pintando a escola, trocando carteiras para as pessoas terem uma nova imagem. Acho que isso não é suficiente.

Diego Padgurschi/UOL Diego Padgurschi/UOL

Vejo muito funcionário da escola sem vontade de voltar. As escolas estaduais são muito largadas. A gente precisa de apoio, precisa de segurança.

Talvez eu seja favorável a ter arma em casa para defesa contra algum bandido, mas aqui na escola não resolveria nada. Só um segurança, um guarda, um policial pronto e sabendo lidar com segurança poderia ter interferido e feito alguma coisa diferente. Do jeito que aconteceu, cidadão comum armado sem treinamento não mudaria nada.

Precisamos cobrar mais do governo. Se a gente não se unir e cobrar mais, o país não muda. As pessoas que estão representando a gente têm o dever dever de fazer algo.

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