Paparazzo imperial

Durante décadas, superfã fotografou cada passo do imperador japonês -- que renuncia ao cargo agora

laine Lies e Kwiyeon Ha Da Reuters, em Tóquio*
Toshifumi Kitamura/AFP
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Há décadas, aonde quer que a família imperial vá, Fumiko Shirataki, 78, está lá, seja no calor do verão, ou no frio do inverno, no oceano, ou nas montanhas.

Acostumada a seguir uma das famílias imperiais mais tradicionais do planeta, nas condições mais adversas, Fumiko é testemunha de um momento histórico.

Pela primeira vez em 200 anos, um imperador nipônico abdica do trono - o que aconteceu nesta manhã.

Amanhã, conforme a programação imperial, com a saída do imperador Akihito, 85, assume seu filho, o Príncipe Herdeiro Naruhito, 59.

A transição, programada e suave, bem ao gosto dos japoneses, será acompanhada com atenção pela nação, que ganhou um feriado de dez dias durante a troca imperial, e pelo mundo.

Fim de uma era

Com a troca de ocupante do trono, o Japão inicia oficialmente amanhã uma nova era -- a Reiwa ("bela harmonia").

O imperador atual, Akihito, deixou o poder hoje afirmando não ter mais capacidade de "exercer de corpo e alma" o cargo devido à idade.

A sua saída encerra a era Heisei, que quer dizer algo como "realização da paz".

A Lei da Sucessão Imperial, de 1947, diz que a passagem do trono é feita de pai para o filho mais velho. E na falta desse, assume o irmão mais novo.

Em 2005, debateu-se a necessidade de alterar a lei para que mulheres pudessem também assumir o trono. Durante 41 anos, nenhum homem nasceu na família imperial japonesa - Naruhito, que assume amanhã, tem uma filha, a princesa Aiko.

Em 2006, o nascimento do príncipe Hisashito, sobrinho do novo imperador, abafou a discussão.

O Japão já passou por quase 250 eras, que não representam, necessariamente, a mudança de imperadores. No passado, grandes acontecimentos, como catástrofes naturais, eram suficientes para a mudança.

A escolha do nome das eras é feita pelo governo. Eles devem ser simples, inéditos e refletir os ideais da nação, sem fazer menção a nome de pessoas, lugares ou empresas.

O país aguarda com muitas expectativas a era vindoura e que ela represente um Japão mais jovem e globalizado.

A era Heisei, que se encerra com a saída de Akihito, se iniciou em 1989, após a morte do imperador Showa, e passou por marcos munidiais como a queda do Muro de Berlim, em 1991, e o lançamento do Game Boy, da Nintendo.

Marcada por grandes transformações econômicas, a era também ficará conhecida pela relação mais próxima do imperador e da imperatriz com o público.

A família imperial tem, inclusive, um fã clube fiel, que dedica tempo e dinheiro para seguir os imperadores e fotografá-los.Entre eles está Fumiko Shirataki.

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Shirataki diz que só não fotografa a família imperial quando há chuva ou neve.

"Você não pode tirar boas fotos nessas condições - e se a lente da câmera ficar molhada, ela pode danificar. Eu realmente me preocupo com isso", disse Shirataki, 78, que passou os últimos 26 anos seguindo e fotografando o Imperador Akihito, a Imperatriz Michiko e especialmente a Princesa herdeira Masako.

"Assim que eu fico sabendo dos planos deles, eu vou para lá - embora fique difícil se eu só descobrir na noite anterior", ela adicionou.

A paixão de Shirataki por "okkake" - como a perseguição a ídolos é conhecida no Japão - começou em 1993, quando ela seguiu Masako Owada depois do noivado com o príncipe herdeiro Naruhito, mas não conseguiu boas fotos.

"Eu não estava acostumada a carregar uma câmera tão pesada, então eu capturava os pneus, o banco de trás ou o motorista", disse Shirataki na cozinha de sua casa em Kawasaki, perto de Tóquio, decorada com uma foto de Masako e um calendário da Família Imperial.

Mas agora ela aperfeiçoou suas habilidades e sua casa está repleta de muitas fotos.

"Incontáveis", disse ela. "Afinal, já faz 26 anos."

Shirataki não revela como ela e seus amigos fãs descobrem os horários imperiais. Assim que ela recebe as informações, ela pega uma mochila, uma cadeira dobrável, bolinhos de arroz para comer, e sai.

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"Eles já conhecem nossos rostos, então quando levantamos as câmeras, acho que eles pensam 'aqui estão' e ficam de frente para nós e acenam", disse Shirataki, que sempre usa tênis e calça para facilitar a movimentação enquanto está à caça.

Shirataki e seus colegas perseguidores, quase todas mulheres, dizem que seu foco principal são as mulheres reais e suas roupas. Por causa das limitações de tempo - trabalha meio período em uma concessionária de carros - ela se concentra na imperatriz e na futura imperatriz.

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"Quando meu marido ainda estava vivo e trabalhando, eu passava cinco ou seis dias por semana com isso, mas agora tenho que trabalhar", disse ela. A foto no altar budista para o marido, que morreu há dois anos, é menor do que uma foto de Masako posicionada ao lado.

Embora ela seja cautelosa sobre quanto custa seu hobby, ela afirma gasta pelo menos 50.000 ienes (R$ 1.760) por ano apenas em fotos.

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Shirataki diz que Masako é sua favorita e até apareceu em seus sonhos. A fã se preocupa sobre como a princesa se sairá como imperatriz, devido à doença relacionada ao estresse que afastou a jovem dos olhos do público por muitos anos.

"Poderá ter muitos momentos em que Masako não irá junto com o imperador", disse ela. "Se for só ele, nós não iremos. Só ela? Sim".

Shirataki alcançou o ápice do sucesso do okkake: este ano, ela apertou a mão da imperatriz.

"Eu já tinha falado com eles brevemente antes, mas essa é foi única vez que pude tocá-los. Eu não imaginava que faria isso."

"Quando eu perguntei, ela apenas disse, em voz baixa: 'Se minha mão está bem'", acrescentou. "E então eu fiz".

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