'Me tira daqui! Vou morrer'

Flávio não obteve a tempo transferência de Érika, internada com covid em UPA no Rio

Herculano Barreto Filho Do UOL, no Rio Herculano Barreto Filho/UOL

Tarde de quinta-feira, 1º de abril. De mãos dadas, cerca de 30 pessoas fazem um círculo em torno de um carro funerário na entrada do Cemitério do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro. Em meio a uma oração, Flávio Paulino dos Santos, 28, dá dois passos lentos para frente, encosta a cabeça ao lado do veículo e chora.

Foi assim, com as mãos acariciando a lataria de um carro, que ele se despediu da esposa Erika Queiroz de Lima, 32, em um dos sepultamentos de vítimas da covid-19 veladas em caixões fechados, que se tornaram parte da rotina do cemitério há cerca de um ano.

O UOL acompanhou esse e outros enterros de pessoas mortas pelo coronavírus em uma das maiores necrópoles do país, onde há mais de 84 mil sepulturas. Nos últimos meses, as despedidas por ali passaram a carregar a marca da pandemia que também limita abraços para quem precisa de consolo.

Enquanto Erika lutava pela própria sobrevivência em uma UPA (Unidade de Pronto-Atendimento), Flávio corria contra o tempo para transferi-la para o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, unidade de referência no tratamento da pandemia. Ele tentava consolá-la, dizendo que a levaria para um local com estrutura adequada para atendê-la.

Mas não pôde abraçar a esposa nem nos seus últimos dias de vida.

Conseguimos só falar por vídeo, enquanto ela estava internada. Ela pediu tanto pra eu tirar ela daquele lugar. Dizia: 'Me tira daqui! Vou morrer'

Flávio Paulino dos Santos, marido de Erika, que morreu em decorrência da covid-19

Herculano Barreto Filho/UOL Herculano Barreto Filho/UOL
Herculano Barreto Filho/UOL

Erika não pôde fazer o isolamento para se proteger do vírus. Pela manhã, saía da casa onde morava com o marido e os três filhos no Complexo da Maré, conjunto de favelas da zona norte carioca, pegava um ônibus lotado e ia para a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde trabalhava como auxiliar de serviços gerais.

Segundo a família, os primeiros sintomas da doença e o teste positivo para covid-19, que saiu em 17 de março, não garantiram uma internação. Com falta de ar e dores pelo corpo, ela procurou atendimento em um hospital.

"Falaram que ela só seria internada em último caso. Aí, ela foi medicada na UPA e liberada", contou o marido de Erika.

Ela voltou a passar mal no dia 28 de março e acabou sendo hospitalizada na UPA da Maré. Foi quando começou uma corrida contra o tempo da família para que fosse internada em um hospital, com o auxílio da Defensoria Pública.

Não deu tempo. Erika morreu apenas dois dias após ser internada. A caçula, de 7 anos, ficou com uma tia durante o enterro por decisão da família. Sem comorbidades, Erika ilustra um novo retrato de uma pandemia que passou a ser fatal para pessoas saudáveis e de todas as idades.

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Herculano Barreto Filho/UOL

Esposa não teve coragem de ver Wagner em um caixão fechado

Enquanto coveiros paramentados usavam pás para cobrir de terra uma cova rasa no cemitério do Caju, o ajudante de obras Valeriano Gomes Pereira, 36, mirava fixamente para o caixão fechado enquanto enxugava o suor da testa.

Em seguida, ergueu a cabeça de olhos fechados e começou a rezar baixinho com outros três parentes, mantendo uma pequena distância do caixão.

Ali, estava o corpo de Wagner Gomes Pereira, 37, irmão e colega de trabalho de Valeriano. Wagner era casado e deixou uma filha de 3 anos.

A esposa não teve coragem de ir ao enterro do marido sem que pudesse ver o seu rosto pela última vez. A família morava no bairro Gardênia Azul, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Ele se protegia, usava máscara direitinho. Nem sei como aconteceu isso com ele

Vislane Gomes Pereira, Dona de casa e irmã de Wagner

Herculano Barreto Filho/UOL

'O filho da patroa morreu de covid'

Em um dos últimos "bicos", os irmãos Wagner e Valeriano trabalharam em uma obra na casa de uma mulher. "O filho da patroa morreu de covid", lembra Valeriano.

Wagner então teve os primeiros sintomas da doença, como diarreia, dores no corpo, febre e perda de apetite.

A doença avançou rapidamente. Em apenas três dias, ele passou a ter dificuldades até para caminhar e precisou do amparo do irmão para descer as escadas da casa onde morava para ser levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, zona oeste carioca.

"Lá no hospital, nos deram a informação de que ele tinha testado positivo para coronavírus", conta Valeriano.

De lá, foi transferido para o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, zona norte do Rio, unidade de referência para o tratamento da doença, onde permaneceu intubado no CTI.

No dia 31 de março, a família recebeu a notícia de que Wagner tinha morrido em decorrência da covid-19 apenas oito dias após ser internado.

Herculano Barreto Filho/UOL

'Essa doença arrebenta com a gente'

Sepultamentos com poucos parentes, com tempo reduzido de despedida e lágrimas sufocadas se tornaram comuns em meio à pandemia.

Milton Garcia de Oliveira, 75, morreu em decorrência do vírus às 23h de 30 de março, depois de permanecer internado por 11 dias no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio.

"O meu pai estava fraco, não queria mais comer. A gente teve que chamar uma ambulância. Essa doença arrebenta com a gente", desabafou o marinheiro André Marinho de Oliveira, 51, filho de Milton.

WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

Reforço psicológico para funcionários do cemitério

Acostumados a lidar com o luto das famílias, os 110 funcionários do cemitério do Caju foram obrigados a encarar o risco da contaminação pelo coronavírus desde março de 2020. Essa nova realidade obrigou a administração a adotar medidas diretamente relacionadas com a pandemia.

Em sepultamentos de pessoas que tiveram covid, os coveiros são obrigados a usar EPI (equipamento de proteção individual), que inclui macacão descartável, luvas, máscara e óculos de proteção.

Há, ainda, um quadro de reserva no RH com mais de cem colaboradores prontos para serem acionados caso os profissionais do cemitério precisem ser afastados das suas funções em decorrência do vírus.

A preferência tem sido por pessoas que morem perto do local, para evitar deslocamentos. Mas há uma outra medida ligada a eventuais distúrbios mentais entre os funcionários.

Pedi reforço psicológico, porque havia pessoas abaladas, com medo de trabalhar. Já houve casos de funcionárias que chegaram ao trabalho e começaram a chorar

Maurício Milano, gestor de registros e processos do Cemitério do Caju

O período mais delicado, diz Milano, foi o começo da pandemia. "Cheguei a trabalhar 200 dias sem parar. Achei que fosse pifar", lembra.

SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

'Sepultamentos com dignidade'

A proliferação do vírus inclusive modificou a própria rotina de trabalho. Quando chega na administração do cemitério, Milano leva ao menos 15 minutos para higienizar mesa, computador, cadeira e até as maçanetas das portas.

"Sabe aquele negócio que você repara em filmes de epidemias e vê que isso está se tornando realidade? Foi o que senti quando vi os coveiros usando macacão branco. Ou quando rodei de carro por ruas completamente desertas", lembra.

O cemitério hoje adota um protocolo de ação, que envolve medidas de segurança até para imprevistos, como a criação de uma rota para veículos de funerária, caso haja muitos enterros simultâneos de pessoas vitimadas pela covid. "A nossa preocupação é que os sepultamentos sejam feitos sempre com dignidade".

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