Covid fora dos trilhos

Faltam máscaras e fiscalização: como é viajar em trens do subúrbio no Rio durante a pandemia

Igor Mello Do UOL, no Rio Marcelo de Jesus/UOL

Principal opção de transporte para quem sai da zona oeste do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense com destino ao centro da capital fluminense, os trens convivem há décadas com todo tipo de precariedade —de atrasos e superlotação a tiroteios e cracolândias em estações do subúrbio.

Um novo risco foi adicionado à rotina de passageiros e funcionários do sistema ferroviário: o novo coronavírus.

Sem fiscalização ou medidas de prevenção efetivas, os trens do Rio se tornaram um ambiente perfeito para a propagação da covid-19: passageiros sem máscara são vistos às dezenas nos vagões, sem serem incomodados por funcionários da Supervia —empresa que administra o serviço por concessão do governo do estado.

A reportagem do UOL embarcou nos trens que servem a região metropolitana do Rio neste mês, quando a variante delta —temida pelo fato de ser muito mais transmissível que as demais cepas do novo coronavírus— já havia se tornado hegemônica na cidade.

No entanto, o risco de contaminação é ignorado por muitos passageiros.

Ambulantes circulando quase sempre sem a proteção pioram ainda mais o quadro: eles passam o dia inteiro nos vagões gritando para vender seus produtos.

Estão mais expostos à covid-19 e, uma vez contaminados, podem espalhar a doença para muito mais gente que o normal. O comércio de produtos nos vagões é vedado.

Decretos do governo do estado tornam obrigatório o uso de máscaras no interior de trens e estações, mas não estabelecem punições pelo descumprimento.

Questionada, a Supervia diz que o papel de fiscalizar o cumprimento das medidas sanitárias cabe ao poder público.

Covid sem controle nos trens do Rio

Passageiros sem máscara são rotina

Nas plataformas da Central do Brasil, o mais importante terminal ferroviário do país, passageiros sem máscara são vistos por toda parte —comendo, conversando ou em trânsito.

Livres de qualquer tipo de fiscalização, eles seguiam sem serem incomodados em pleno horário de rush da manhã no último dia 15.

Dentro dos vagões, as condições para a transmissão da covid-19 são ideais: com a frota renovada há alguns anos, o Rio conta hoje apenas com trens com janelas vedadas, equipados com ar-condicionado, o que dificulta a ventilação.

Em apenas um trem, a reportagem contou mais de 90 pessoas sem máscara —em média, mais de dez por vagão.

A redução do número de viagens durante a pandemia faz com que os trens andem com pessoas aglomeradas, mesmo com uma redução de passageiros superior a 50%, segundo relatório enviado pela Supervia à Secretaria de Estado de Transportes. O documento foi obtido pelo UOL por meio do SEI (Sistema Eletrônico de Informações).

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Ambiente ideal para contágio

De acordo com a cientista Gulnar Azevedo, professora de epidemiologia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o cenário descrito pela reportagem é "gravíssimo".

A gravidade disso tudo é que, embora as nossas curvas estejam desacelerando, não dá para ter um trem sem ventilação e com as pessoas sem distanciamento, ainda mais sem usar máscara
Gulnar Azevedo, professora de epidemiologia da Uerj

"Mesmo nos países que já alcançaram taxas de transmissão muito inferiores às nossas, não se abriu mão de usar máscara em ambiente fechado. Não há maior aglomeração do que as pessoas no transporte público", completa a cientista.

Ainda segundo Gulnar, os trens podem provocar surtos de contaminação, especialmente com a variante delta, hegemônica na cidade do Rio desde agosto.

Estimativas apontam que cada paciente contaminado com essa cepa é capaz de transmitir o vírus para algo entre cinco e nove pessoas. Gulnar alerta que, em um ambiente como o dos trens, esse índice pode ser ainda maior.

"Em um local com muita gente confinada, sem respeitar a distância mínima de 1,5 m, uma pessoa contaminada pode transmitir para mais gente do que o normal", diz a especialista.

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Passageira distribui máscaras nos vagões

A estudante Renata Silva, 30, usa o trem como principal forma de deslocamento de sua casa, em Campo Grande, na zona oeste carioca, para outros bairros da cidade.

Preocupada com a pandemia, ela se chocou com a falta de cuidado de muitos passageiros e decidiu adotar uma estratégia inusitada: toda vez que embarca em um vagão, leva consigo máscaras descartáveis. E não hesita em oferecê-las quando alguém se aproxima sem a proteção adequada.

"As pessoas que abordo reagem de forma positiva. Costumam aceitar a máscara meio constrangidas e colocam logo em seguida. Algumas até agradecem."

Ela expressa indignação com a falta de fiscalização nos trens.

"Me sinto extremamente desrespeitada como cidadã que paga impostos e a passagem. Inclusive já questionei a Supervia pelas redes sociais do porquê de não haver fiscalização nos vagões, já que tal fiscalização existe no metrô pelos próprios funcionários [da concessionária MetrôRio]. Recebi como resposta da Supervia que a Polícia Militar é que tem o dever de fiscalizar."
Renata Silva, estudante

Ela destaca ainda a questão dos ambulantes, que circulam pelos vagões quase sempre sem máscara. "Nunca vi nenhum agente da Supervia repreender [ambulantes ou passageiros sem máscaras], agentes estes que também não fazem uso adequado da máscara de proteção individual", completa.

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Decretos restringem lotação nos vagões

Desde 2020, decretos do governador do Rio, Cláudio Castro (PL), determinam que os trens circulem com até 60% de sua capacidade máxima. No entanto, o cenário visto nos 270 km de malha ferroviária no Grande Rio —que engloba cinco ramais e 104 estações— é diferente disso.

Em diversas viagens, o UOL presenciou vagões cheios, com muitos passageiros em pé e distanciamento muito inferior ao recomendado por especialistas.

O eletricista de audiovisual Sergio Cezário, 26, relata experiência parecida. Ele pega o trem seis dias por semana para ir de sua casa, em Comendador Soares, bairro de Nova Iguaçu, até Madureira, onde pega o BRT até o trabalho na zona oeste carioca.

Segundo ele, as condições de lotação são as mesmas de antes da pandemia. "Nada mudou. Não existe nenhum tipo de fiscalização, nem no ingresso da estação, muito menos nas plataformas", reclama.

Apesar disso, em relatório enviado à Setrans, a Supervia diz que a queda no número de passageiros gerou prejuízo de R$ 589,6 milhões —desde o início da pandemia até 31 de agosto— só na receita oriunda das passagens.

A concessionária diz também ter perdido R$ 9 milhões em publicidade por conta da redução do fluxo de pessoas. Em junho, a Supervia entrou com um processo de recuperação judicial.

Sobre a lotação dos vagões, a empresa afirmou, em nota ao UOL, monitorar o número de passageiros e alega que tem cumprido a determinação de permitir apenas 60% da capacidade máxima.

"Por ser um transporte de alta capacidade, uma das principais características do trem é a maior quantidade de pessoas viajando em pé. Os assentos representam apenas 15% do total de lugares ofertados no trem, a depender do modelo da composição", diz a Supervia.

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Supervia diz adotar medidas de prevenção

Procurada pelo UOL, a Supervia afirmou não ter responsabilidade sobre a fiscalização do uso de máscaras nos trens e estações.

Em nota, a concessionária afirmou que, "de acordo com o contrato de concessão, a segurança pública nos trens e estações e ao longo da linha férrea é uma atribuição do governo do estado, que atua por meio dos seus órgãos policiais".

"Isso inclui a fiscalização do uso de máscara, que é uma atribuição do Poder Público, já que os agentes da SuperVia não têm poder de polícia e, desta forma, não estão autorizados a aplicar multas, impedir o embarque ou pedir que se retirem da composição aqueles que estão sem máscara", afirma a empresa.

A concessionária diz que realiza campanhas informativas e "apoia as medidas de proteção e, por isso, vende passagens apenas aos clientes que estejam utilizando máscaras no momento da compra nas bilheterias".

A reportagem observou contudo passageiros sem máscara passando pelas catracas de diversas estações sem qualquer restrição por parte da concessionária.

No relatório enviado à Setrans, a Supervia diz ter gasto R$ 6,7 milhões com medidas de prevenção.

Desse total, R$ 4 milhões foram para higienização de trens e estações, e apenas R$ 15,8 mil para campanhas de divulgação sobre as mudanças operacionais durante a pandemia e sobre as medidas sanitárias, como o uso de máscaras nas suas dependências.

À Secretaria de Estado de Transportes, o UOL perguntou sobre fiscalização e efetividade das medidas adotadas pela Supervia. Não houve resposta.

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