Preservar é negócio?

Maior reserva privada de mata atlântica do Brasil quer provar que pode se sustentar sem incentivo e dar lucro

Wanderley Preite Sobrinho* Do UOL, em Tapiraí, Miracatu e Juquiá (SP)
Luciano Candisani
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O que um dia foi uma floresta intocada no coração do Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, de repente se transformou em um lago. A construção de sete hidrelétricas entre as décadas de 1950 e 1980 inundou o rio Juquiá, encobriu inúmeras espécies de plantas, ilhou e matou parte da fauna.

Esse espaço, de propriedade da já poderosa Votorantim, tinha por missão levar energia à fábrica de um dos braços da empresa, a CBA (Companhia Brasileira de Alumínio). Sessenta anos se passaram, e o que antes era uma cicatriz ambiental se converteu na terceira maior reserva particular de mata atlântica do Brasil: um paraíso preservado aberto à visitação a apenas três horas da capital paulista.

Do tamanho da cidade de Curitiba, o espaço renasceu em 2012 com novo nome e outro desafio: o "Legado das Águas" quer se transformar na maior prova de que é possível cuidar na natureza e ainda ganhar dinheiro com isso.

Luciano Candisani Luciano Candisani
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Fechada ao público por décadas, a Votorantim decidiu abrir as porteiras de sua reserva naquele ano, quando percebeu que o alto grau de conservação da mata poderia resultar em uma nova oportunidade de negócios. Se a ideia vingasse, seu modelo seria replicado por outras reservas privadas ou mesmo por parques nacionais, uma vez que eles "não estão entre as prioridades de destinação de recursos" do governo federal.

A declaração é do próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que em 4 de julho anunciou a intenção de conceder à iniciativa privada até 20 unidades de conservação, incluindo quatro parques nacionais.

Para tirar seu modelo do papel, a Votorantim decidiu se autodenominar Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável, um termo não reconhecido pelo Snuc (Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Com esse título, a empresa poderia explorar algumas atividades sustentáveis na mata sem as amarras da chamada RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), reconhecida pelo governo e que já soma 900 unidades e 5,7 milhões de quilômetros quadrados preservados em todo o país.

Com o aval do poder público, a companhia com ramificação nos setores de cimento, siderurgia, celulose, energia, financeiro e produção de suco de laranja traçou suas estratégias de negócios para o Legado. Os resultados são promissores.

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O que há na reserva?

Da beira da represa Porto Raso, o céu azul, o lago de 40 metros de profundidade e "montanhas de brócolis" são tudo o que os olhos alcançam no Legado das Águas. "Efeito brócolis" é o nome que os ambientalistas dão à densidade das folhas que se espremem na copa das árvores quando a mata atlântica está preservada. Debaixo delas, a vida se multiplica naquele que é o bioma mais rico do mundo.

Para mapear essa biodiversidade, a empresa escalou 19 pesquisadores que trabalham em oito projetos. "Já foram catalogadas mais de 1.700 espécies de plantas e animais no Legado", contou ao UOL a gerente-executiva da Reservas Votorantim, Frineia Rezende. São 221 espécies de orquídeas, 291 de borboletas, 281 de aves, 33 de mamíferos, 34 de anfíbios, quatro de lagartos, um de quelônio (um réptil) e 12 de serpentes.

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Entre as espécies raras podemos citar o tucano-de-bico-preto, saíra-sete-cores (pássaro), cobra-coral, jararaca, jaracuçu, cachorro-do-mato, irara (animal onívoro semelhante à fuinha), sanhaço-de-traço-azul e de-traço-amarelo e muitas outras

Frineia Rezende, gerente-executiva da Reservas Votorantim

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O jardineiro da mata atlântica

Um dos orgulhos dos pesquisadores é o macaco muriqui, o maior primata sul-americano, que pode pesar até 15 kg. De calda e braços longos, vive principalmente na copa de grandes árvores. "O Legado tem entre 8% e 10% da população total de macacos muriquis remanescentes na natureza, cerca de cem indivíduos", diz Frineia. "São especialistas em fazer rebrotar a mata porque se alimentam de frutas e espalham as sementes das várias espécies de árvores. São os jardineiros da mata atlântica."

Grandes árvores não faltam no Legado. Cerca de 75% da reserva é composta por floresta clímax --em estado avançado de conservação. A joia da coroa é uma figueira bicentenária (próxima foto abaixo) com circunferência de 21,4 metros e 40 metros de altura. Suas dimensões são tão impressionantes que entraram para o livro "Remanescentes da Mata Atlântica: As Grandes Árvores da Floresta Original e Seus Vestígios" (Editora Olhares, 2018), do botânico Ricardo Cardim.

Cardim levou consigo o biólogo Luciano Zandoná e o fotógrafo Cássio Vasconcelos para percorrer 12,5 mil km de florestas em seis estados, resultando na descoberta de 90 árvores seculares. São as sobreviventes mais antigas da devastação provocada pelo homem, que reduziu a mata atlântica a 12% de seu tamanho original.

Cassio Vasconcelos Cassio Vasconcelos
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É o Gasparzinho?

Era o ano de 2013 quando os pesquisadores da reserva tomaram um susto. Eles não podiam acreditar que suas armadilhas fotográficas (40 câmeras espalhadas pela mata) haviam flagrado uma anta albina. O maior mamífero terrestre brasileiro ganhou até um nome: Gasparzinho.

Em meados de 2018, "uma chance em um milhão" aconteceu na reserva da Votorantim: um novo exemplar albino foi encontrado. Em princípio, os biólogos acreditaram se tratar do mesmo bicho, mas estranharam seu tamanho, um pouco maior, uma mancha no corpo e a orelha direita cortada. Poderia ser que o Gasparzinho tivesse se ferido?

Um levantamento de 190 imagens comprovou a suspeita. Uma imagem de março do ano passado registrou um indivíduo com as orelhas inteiras, enquanto a anta com a orelha direita cortada foi fotografada pela primeira vez em abril de 2015. "Estamos em uma campanha para escolher o nome do segundo indivíduo albino que registramos", diz a gerente-executiva.

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Sequenciamento de genomas

Além de ajudar na preservação as espécies, conhecer a fauna e flora da reserva garante outras vantagens. Uma delas é atrair turistas curiosos; a outra é mais ambiciosa: ganhar as farmácias. "Começamos a sequenciar o DNA das espécies do Legado em busca de enzimas e proteínas de interesse da indústria medicinal e de cosméticos", conta Frineia.

"Em três anos, criamos o maior banco de dados de uma floresta tropical, que passamos a chamar de Floresta Digital", diz. "Sequenciamos o primeiro genoma completo de uma árvore da mata atlântica. Até o final deste ano, nosso objetivo é ter uma biblioteca com o perfil genético de mais de 200 espécies."

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Divulgação Divulgação

Berçário na marginal do rio Pinheiros

Outro negócio promissor do Legado é o paisagismo. Os especialistas da reserva desenvolveram um berçário feito com as sementes recolhidas no terreno. "Não arrancamos nenhuma planta", afirma a gerente-executiva. Ela explica que a maioria dos paisagistas consideram a mata atlântica como mato e que, por isso, preferem utilizar plantas exóticas, trazidas de outros países. "Essa opção afasta a fauna local, gerando um alto custo de conservação."

No dia 6 de junho, as primeiras das 30 mil mudas foram plantadas na marginal do rio Pinheiros em um projeto de paisagismo (foto acima) que promete embelezar as margens ribeirinhas e atrair a fauna típica da região.

Por 30 meses (renováveis por mais 30), os paisagistas da reserva farão plantios anuais entre outubro e março ao longo de 13,5 km. "A escolha por esse período de plantio no verão se deve ao regime de chuvas. Entre março e outubro é o período de preparação dos trechos para receber o plantio e a manutenção na área", diz Frineia.

O primeiro trecho repaginado será o Retiro, perto do complexo viário Cebolão. "Além dos plantios anuais, haverá os pontuais, que serão realizados em parceria com empresas apoiadoras do projeto e por mobilização da comunidade local."

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Ecoturismo a 3 horas de São Paulo

Uma das principais apostas da Votorantim é transformar o Legado das Águas em um polo ecoturístico, um ramo que cresce 15% ao ano no Brasil segundo a Abeta (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura). Entre a região central de São Paulo e a estrada de terra que dá acesso à reserva, o motorista leva duas horas. Depois, percorre uma hora em estrada de terra sinuosa, estreita, sem iluminação noturna, mas bem sinalizada.

Por R$ 30 é possível passar o dia na reserva, mas o alvo é quem está disposto a pagar um dos pacotes. A sede conta com restaurante com vista panorâmica e suítes individuais (R$ 160), duplas (R$ 200) e triplas (R$ 270) com direito a café da manhã e Wi-Fi intermitente. Por R$ 70, o interessado pode acampar com barraca fornecida pela reserva.

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Um passeio de barco sai por R$ 148, uma trilha com direito a canoagem custa R$ 128, o mesmo preço de uma trilha com cachoeira no fim, valores com taxa de entrada, café da manhã e almoço inclusos.

Mas a imersão também oferece caminhada, observação de aves, trilha noturna, rafting e trajetos com mountain bike. Aberta a essas atividades de terça a domingo, a reserva recebe de 30 a 50 pessoas a cada final de semana.

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R$ 25 milhões de investimentos em 9 anos

A reserva também ganha dinheiro com a compensação da reserva legal: um fazendeiro com uma propriedade rural maior que quatro módulos fiscais podem arrendar uma parte do legado caso não mantenha um percentual mínimo (variável a depender do estado) de cobertura vegetal nativa em suas terras.

"O valor cobrado oscila dependendo da quantidade de hectares negociadas com o cliente", explica a gerente-executiva. "Não abrimos os valores, mas os contratos são de até 15 anos, renováveis."

Nesses nove anos, o legado vem sendo mantido pela Votorantim S.A e patrocinadores do grupo, como a Votorantim Energia, a Votorantim Cimentos, a Nexa e a CBA.

No período, o grupo desembolsou R$ 25 milhões em investimentos. "As atividades comerciais iniciaram em 2019 e a previsão é que sejamos autossustentáveis em 2024", diz Frineia.

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Ela afirma que a reserva não recebe "nenhum tipo de isenção ou apoio financeiro de órgãos do governo", uma realidade que pode mudar em breve. Um Projeto de Lei (784/19) tramitando em caráter conclusivo quer incentivar a criação de reservas ambientais particulares.

A sugestão do deputado federal Rodrigo Agostinho (PSB-SP) é que, em troca, os proprietários recebam isenção do Imposto Territorial Rural, dedução em dobro do Imposto de Renda sobre os gastos na reserva e crédito agrícola em condições melhores que a do mercado.

Até que a exploração sustentável da mata atlântica se converta em nova fonte de lucro para o grupo Votorantim, as hidrelétricas na reserva seguem trazendo economia décadas depois de construídas. Com capacidade para abastecer o equivalente a uma cidade de 2,6 milhões de habitantes, as usinas no coração do rio Juquiá levam até hoje energia à CBA, a segunda maior fabricante de alumínio do Brasil.

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