Tiro, facada e bomba

Como são treinados os agentes que fazem a segurança do presidente Jair Bolsonaro

Luciana Amaral Do UOL, em Brasília
Marcelo Camargo/Agência Brasil

O perfil ideal de um agente da segurança presidencial é a "mistura de Batman, Superman e Mandrake". O perfil real é a combinação de excelente preparo físico e psicológico, muita paciência e bom senso, na definição do ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno.

A equipe responsável pela proteção do presidente da República, do vice e de seus familiares é composta por membros das Forças Armadas e órgãos de segurança pública, como as polícias Federal, Militar e Civil. Os melhores são selecionados pelas próprias corporações e encaminhados ao GSI, onde passam por aprimoramento adicional de até seis meses antes de chegar às ruas.

O próprio Heleno admite ser um trabalho "difícil, estafante" e que "desertaria" se tivesse que ficar cinco dias seguidos em um corredor de hotel de olho em visitantes e perigos que possam atentar contra a vida do chefe de Estado.

Ao longo de uma manhã em Brasília, o UOL acompanhou o treinamento de um grupo de guarda-costas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) no arredores de Brasília. A rotina passa por simulações de emboscadas ao comboio presidencial, ataques a tiros e lutas corpo a corpo.

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Marcelo Camargo/Agência Brasil Marcelo Camargo/Agência Brasil

Porte atlético e nada de papo com o chefe

Semblante amarrado, terno preto, óculos escuros, fone no ouvido. A cara sisuda dos seguranças do presidente não vem de graça. Todos eles passam por treinamentos constantes de tiro e direção, além de exercícios como natação e artes marciais. Parte das atividades é feita nos anexos do Palácio do Planalto. Outra, em centros específicos e clubes das Forças Armadas em Brasília.

O desgaste físico e mental é grande. O desempenho atlético, a habilidade ao atirar e as condições de saúde norteiam a seleção do agente. Altura e idade também são critérios adotados.

Flexibilidade de horário e disponibilidade para o trabalho são essenciais. A fluência em mais idiomas é desejável.

O número de agentes empregados não é revelado pelo GSI, mas todos são oriundos de Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar, Polícia Civil ou do Corpo de Bombeiros.

Das Forças Armadas, são convocados de praças a oficiais para exercer todos os níveis de funções necessárias. Por exemplo, desde ficar de prontidão no jardim do Palácio da Alvorada, onde mora o presidente e a família, até o planejamento de eventos na Esplanada.

Os salários são compostos pelo vencimento da instituição de origem mais gratificação correspondente à função exercida na Presidência.

As equipes passam por revezamentos para manter a impessoalidade na função. A avaliação é que, se um agente permanecer com a pessoa a ser protegida por longos períodos, corre-se o risco de se criar um vínculo pessoal que diminui a noção de perigo existente e coloque em risco a segurança de ambos.

Um assessor do Planalto que acompanha os presidentes da República há duas décadas disse ao UOL que Bolsonaro é o chefe de Estado mais interage e brinca com os seus seguranças --Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem em seguida. Michel Temer (MDB) é o mais polido, segundo ele.

As horas diárias trabalhadas por um agente dependem da agenda da autoridade e vão das oito horas rotineiras a até vários dias consecutivos, como em viagens. Isso porque a segurança tem que ser ininterrupta. A equipe que acompanha o presidente é determinada por escala prévia para que todos tenham períodos de descanso.

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"Irrequieto, impetuoso e desobediente"

Décadas atrás, a maior preocupação da segurança presidencial era conter o "beijoqueiro", apelido pelo qual um português ficou famoso ao tentar agarrar e beijar celebridades de surpresa.

"Era bem mais fácil o beijoqueiro do que hoje esfaqueador", diz o general Augusto Heleno, lembrando o ataque sofrido por Bolsonaro em setembro do ano passado, durante a campanha eleitoral.

Hoje, assessores do presidente recomendam, sem sucesso, que ele fale menos em locais públicos e não se aproxime tanto do público para conversar, como faz quase diariamente na portaria do Palácio da Alvorada, atendendo a pedidos de selfies.

No desfile de 7 de Setembro, por exemplo, chegou em carro aberto, desceu da tribuna presidencial, andou a pé e, antes de ir embora, percorreu parte da Esplanada dos Ministérios com metade do corpo para fora do carro fechado do comboio.

O secretário de Segurança e Coordenação Presidencial do GSI, general Luiz Fernando Baganha, diz não ter sido surpreendido.

"Nós sabíamos que ele ia querer ir. Colocamos agentes junto à população. Todas as arquibancadas sofreram processo de checagem. Todos passaram por detecção de metal. Ele é impulsivo, mas sabemos disso", afirma.

Heleno descreve Bolsonaro como "irrequieto, impetuoso e desobediente". Porém, diz ele, não se pode dar ordens ao presidente. Cabe ao GSI se adaptar.

O ministro nega que o atentado a faca contra Bolsonaro tenha mudado o planejamento da segurança presidencial. Segundo ele, não houve grande reforço ao redor de Bolsonaro em comparação com seus antecessores. "Às vezes, não tem nem espaço" para colocar mais seguranças. O foco, diz, é a melhor qualificação dos envolvidos.

"Nós temos consciência plena de que não existe segurança 100%. As coisas são tratadas de acordo com cada oportunidade, visita, evento. É uma atividade altamente dinâmica. Existe um pequeníssimo grau de risco que pode envolver uma situação desagradável", afirma.

De acordo com Heleno, se o autor do atentado estiver disposto a morrer, provavelmente será bem-sucedido.

Bolsonaro gosta de ir para a galera. É um susto para a gente a cada momento. Temos que assimilar isso como sendo a maneira de ser do presidente e estamos aqui para isso. [...] Não tem presidente igual. Não tem viagem igual. Cada presidente é completamente diferente do outro

General Augusto Heleno

General Augusto Heleno, ministro do GSI

Luciana Amaral/UOL Luciana Amaral/UOL

Preparação para eventos e viagens (e imprevistos)

Antes de evento ou viagem, um grupo multidisciplinar chamado Escav (Escalão Avançado) é encarregado de aprovar o destino. Se for no Brasil, a equipe vai ao local com até cinco dias de antecedência. No exterior, é necessário viajar até 15 dias antes do presidente.

O Escav toma conta dos preparativos até a chegada do chefe de Estado. São checados, passo a passo, o caminho a ser percorrido pelo comboio, as condições do palanque ou do auditório, as saídas de emergência, os locais seguros para resgate, os hospitais disponíveis e os arredores.

A quantidade de veículos que forma o comboio é variável, mas costuma ser de pelo menos quatro carros. Uma ambulância sempre vai atrás.

Apesar do planejamento, imprevistos acontecem. De acordo com Heleno, há pouco tempo, o comboio presidencial estava saindo à noite de Guaratinguetá (SP) em direção à Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), quando um dos batedores foi "acidentado". O grupo teve de ficar parado na estrada até que o problema fosse resolvido "com o presidente andando para lá e para cá".

Para ocasiões como essa no Rio, há treinamento contra emboscadas. O UOL presenciou demonstrações de fuga em simuladores e em pista de terra fora do centro de Brasília.

Em casos menos extremos, como o surgimento de um obstáculo à frente, os dois primeiros carros do comboio devem formar uma barreira física para proteger os demais que vêm atrás. O da autoridade e da escolta dão marcha à ré e se retiram do local em ordem programada.

A reportagem ainda presenciou demonstração em caso de ataque sem possibilidade de fuga do comboio. Nesse caso, a autoridade tem de ser levada a pé em meio a tiroteio e lançamento de granadas coloridas para atrapalhar a visão dos criminosos.

Sangue frio, só não esquece o terço na mão

"Sob ataque, a gente tem até 3 segundos para atirar"

Em eventos fora do Planalto, Bolsonaro usa colete à prova de balas por debaixo da camisa e é cercado por agentes com pastas marrons que, ao sinal de anormalidade, se estendem e viram escudos com blindagem.

Uma das maiores preocupações é o pedido de uma falsa selfie. Ou seja, de um suposto apoiador se aproximar para tirar foto, mas, na realidade, esfaquear ou balear o presidente.

Para tanto, além de treinar movimentações a pé para preservar a integridade física de Bolsonaro, os agentes devem ser presença assídua nos estandes de tiro.

Marcelo Camargo/Agência Brasil Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os seguranças treinam tiro ao alvo com pistolas e fuzis. Segundo um instrutor, um agente da segurança presidencial tem de sacar a arma e atirar na ameaça em até três segundos.

O uso de terno no dia a dia é obrigatório para esconder a arma de fogo. Os óculos escuros são opcionais, mas costumam ser usados para não revelar a direção do olhar do agente e amenizar o reflexo da luz do sol.

Estande de tiro

Luciana Amaral/UOL Luciana Amaral/UOL

Disperso

Alvo de papelão é atingido no tórax por tiros em treino de seguranças do presidente

Luciana Amaral/UOL Luciana Amaral/UOL

Concentrado

Quanto mais próximos os disparos ficarem uns dos outros, melhor, diz Heleno

Isac Nóbrega/PR Isac Nóbrega/PR

Restrição a drones, mas não ao WhatsApp

Outro âmbito que concerne à segurança presidencial é o espaço aéreo. O GSI conta com o monitoramento da Aeronáutica e agora investe na compra de um sistema antidrone.

O sistema poderá interceptar o aparelho fazendo-o baixar ou voltar ao local de origem com a identificação do operador. Poderá também ser capturado por meio de uma rede física, como de pescador.

A intenção é evitar que os drones sobrevoem as residências oficiais e eventos ao ar livre com a presença de Bolsonaro. O que impede o combate ao drone com disparos é o alto risco de o tiro atingir alguém ao voltar para o chão.

A expectativa é que o sistema já possa ser usado na segurança dos presidentes que participarão de cúpula dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), cuja realização está prevista para os dias 13 e 14 de novembro em Brasília.

Os preparativos para a cúpula já começaram e envolvem GSI, Ministério da Justiça e Ministério das Relações Exteriores, entre outros órgão do governo.

Quanto à segurança cibernética, o ministro evita fazer comentários mais contundentes. Ele diz que o GSI olha "o que pode, deve e aparece", porém, ressalta a limitação de recursos.

"A segurança seria mais sofisticada se tivesse mais recursos", afirma.

No início do ano, o presidente, vice e os ministros receberam celular da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) com programas próprios para dificultar o vazamento de informações. No entanto, poucos aderiram ao aparelho pela menor compatibilidade com sistemas usados comercialmente.

Indagado se o celular que Bolsonaro carrega conta com alguma proteção especial, Heleno admite que o presidente continua usando o WhatsApp para troca de mensagens.

Alguma recomendação a mais? "Vai aparecer um emoji daquele com 'cuidado presidente!'", brinca, para então negar que já recebeu figurinhas de Bolsonaro.

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