Tem dia que é só isso

Em SP, famílias relatam comer descartes de supermercado, mesmo passando mal depois

Beatriz Mazzei (texto) e Reinaldo Canato (fotos) Colaboração para o UOL, em São Paulo Reinaldo Canato/UOL

Na hora do almoço, Vanilda Silva, 65, sua filha e dois netos pequenos se alimentam com cortes de carne e pedaços de verduras ainda frescas, deixados na caçamba de lixo do supermercado.

Desde que ela descobriu o dia e horário de descarte dos maiores mercados da região, passa pelos estabelecimentos em busca de pedaços consumíveis.

Eu não tenho vergonha de dizer que faço isso. Vergonha seria desistir de dar comida para minha família."

Moradora da periferia de Guarulhos, na Grande São Paulo, Vanilda gasta R$ 9,60 por dia de passagem de ônibus para se locomover até o centro da cidade, em busca de movimento para vender balas de eucalipto no farol.

Até o início de 2020, ela trabalhava com jardinagem, indo de porta em porta para oferecer seus serviços de regar e cuidar das plantas. A pandemia mudou tudo.

Com o que recebe no dia, nem sempre consegue pagar a condução. "Eu venho mendigar aqui porque é o que tem. Ou eu faço isso, ou morro de fome", conta.

Vive desde 2018 em um apartamento do Minha Casa, Minha Vida. A soma dos custos mensais de financiamento, condomínio, água e luz chega a R$ 300. Seu Bolsa Família é de R$ 150. Como a conta não fecha, a alimentação acaba ficando em segundo plano.

"Eu poderia tentar sair do apartamento e morar em um barraco ou na rua, mas meus netos são pequenos. Não quero que passem por isso", diz olhando para os chinelos desgastados nos pés.

No mesmo farol, Venina Lourenço, 70, diz que parou de comer a carne da caçamba depois que teve intoxicação alimentar com um pedaço podre.

O cheiro não estava muito bom, mas a cor era normal, então arrisquei, porque estava com fome. Acabei no posto de saúde, depois de passar muito mal."

Mãe de Kleberson, 42, portador de Síndrome de Down, Venina cuida sozinha do filho no bairro Jardim Ponte Alta, a 20 km de onde vende balas. Ele precisa de cuidados especiais, como uso diário de fraldas e ao menos quatro refeições por dia.

"Então, quando só tem pra um, eu fico sem. Ontem mesmo, fiquei o dia todo sem nada. Ele precisa de mim, entendeu? Faço o que posso."

Com isso, seu Bolsa Família vai quase todo em despesas médicas —ela ainda toma remédio para hipertensão. A alimentação fica por conta de doações ou do valor irrisório da venda de balas.

Micaela dos Santos vive em situação de rua na zona leste de São Paulo. Sua barraca fica ao lado do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, que oferece café da manhã, almoço, jantar, programas de higiene pessoal, assistência e farmácia para primeiros socorros.

Nascida no Rio, Micaela vivia em uma favela do Complexo da Maré. No início de 2020, veio para São Paulo tentar um emprego. "Mas a pandemia piorou tudo e, quando fui ver, já estava aqui", conta, apontando para a barraca.

Comer ou pagar a luz

Em Heliópolis, comunidade mais populosa de São Paulo, com mais de 200 mil habitantes, 93% das famílias vivem com menos de um salário mínimo por mês e afirmam ter perdido renda nos últimos dois anos.

Segundo pesquisa feita pela Unas (União de Núcleos e Associações dos Moradores de Heliópolis), 89% da população da região tem medo de não ter o que comer no dia seguinte e 24% dos entrevistados já ficaram sem alimentação.

Esse é o caso de Kelly Celestino, 45, que já ficou uma semana com a geladeira vazia. Mãe de quatro filhos, era diarista, mas não conseguiu manter o emprego. "Nem as patroas têm dinheiro. E as que tinham ficaram com medo por causa do vírus e não quiseram arriscar", relata.

Em sua casa, os dois filhos com idade para trabalhar também estão desempregados.

Vivendo em uma casa de aluguel em Heliópolis, a família está com o pagamento atrasado desde o começo da pandemia. O valor que conseguem com o Bolsa Família é integralmente destinado para as contas de luz e gás. Para comer, Kelly tem dependido de doações.

No cardápio, arroz e feijão é o que consegue consumir com mais frequência. "Já faz muito tempo que eu não sei o que é comer uma carne. Até o ovo não conseguimos comprar", conta. Segundo ela, se não fossem as doações, teria que escolher entre viver no escuro ou se alimentar.

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