Um militar entre olavistas

Contra-almirante Sergio Segovia tem carta-branca para enfrentar crise com seguidores de guru de Bolsonaro

Talita Marchao Do UOL, em São Paulo
Eduardo Knapp/Folhapress
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O 3º escolhido de Bolsonaro

Dias depois de assumir como o terceiro presidente indicado por Jair Bolsonaro (PSL) para a Apex, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, o contra-almirante Sergio Ricardo Segovia Barbosa reuniu toda a equipe para apresentar o que queria em sua gestão.

Prometeu "transparência e lealdade" e cobrou o mesmo de seus funcionários. Desde que assumiu o posto, o militar que comanda a agência --integrada ao Itamaraty sob a chefia do chanceler olavista Ernesto Araújo-- vem tentando colocar a casa em ordem.

Segovia tem 55 anos e quatro décadas dedicadas à Marinha. Mas não ficou muito feliz quando Bolsonaro falou para a imprensa que havia indicado um "jovem" para a presidência da Apex. Poderia indicar inexperiência. Que ele até admitiu aos funcionários do órgão ter pouca na área de comércio exterior. Mas sua atuação como gestor tem sido elogiada, mais ainda após o período turbulento pelo qual a agência de exportações passou nos últimos meses.

Em entrevista ao UOL --a primeira dada a um veículo de comunicação desde que assumiu o cargo, no começo de maio--, o contra-almirante Segovia contou que a transição da área militar para a civil tem sido "bastante suave e tranquila".

"Na verdade, a gestão de um navio --uma organização militar típica da Marinha-- funciona da mesma forma que a gestão de uma empresa. Se pensarmos bem, as únicas coisas que mudam são o uniforme, que é substituído pelo terno e gravata, e o fato de que as pessoas não me prestam continência. Afinal, a base é a mesma: o respeito às pessoas e o compromisso com a ética, a transparência e o trabalho bem feito", disse o militar.

Madrugador e escritor

Segovia foi o primeiro comandante do navio polar brasileiro, o Almirante Maximiliano. Comandou duas expedições nele e que renderam um livro infantojuvenil chamado "A Incrível Viagem do Tio Max à Antártica", escrito com base em seus diários de bordo.

Tem pós-graduação em política e estratégia pela Escola Superior de Guerra. O tema de sua pesquisa foi a Amazônia Azul, o território marítimo brasileiro em que fica a zona econômica de exploração exclusiva do Brasil, onde está o pré-sal, por exemplo. Até o convite de Bolsonaro, ocupava o cargo de subchefe de Inteligência Estratégica do Ministério da Defesa.

A descrição oficial feita pela agência de exportações ao anunciar a sua nomeação destaca a experiência do militar "em processos de logística e de aquisição internacional, quando encarregado do grupo de recebimento de navio no estrangeiro", atenuando a falta de embasamento em comércio exterior, setor em que a atuação da Apex é vital para o empreendedor brasileiro.

É casado com sua namorada dos tempos de adolescência e descrito como um homem dedicado à família, mas também ao trabalho. "Acordava 4h30 da manhã, fazia atividade física antes do trabalho e ainda chegava no horário", diz um entrevistado sob a condição de anonimato.

Segovia é próximo do ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz, da Secretaria de Governo, que foi alvo do escritor Olavo de Carvalho quando intensificou os ataques aos militares presentes no alto escalão.

Mas o contra-almirante recebeu carta branca para colocar a casa em ordem. Uma de suas primeiras medidas ao assumir foi demitir a olavista Letícia Catelani, diretora de negócios da Apex. Com o aval de Ernesto Araújo.

Reprodução/Twitter Reprodução/Twitter

Letícia é amiga pessoal do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e fez parte da campanha presidencial do pai dele --foi ela que teria conseguido o avião para levar um médico do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para avaliar a transferência de Jair Bolsonaro à capital paulista após tomar a facada em Juiz de Fora (MG). Foi secretária-geral do PSL de São Paulo, até ser destituída do cargo durante a campanha.

Antes de Segovia assumir o timão da Apex, a agência passou por dois presidentes. Alex Carreiro não falava inglês e foi demitido dias depois de assumir o cargo. O segundo, o embaixador Mario Vilalva, foi exonerado após reclamar de ter os poderes reduzidos com uma mudança no estatuto da agência.

Tanto a demissão de Carreiro quanto a de Vilalva tiveram em comum conflitos com Letícia Catelani.

Divulgação/Apex Divulgação/Apex

Pessoas de confiança na diretoria

Perguntado sobre as mudanças recentes na diretoria da Apex, Segovia foi sucinto: "Eu precisava contar com profissionais que estivessem alinhados com a minha gestão". "As decisões na Apex são tomadas de forma colegiada pela Diretoria Executiva, composta pelo presidente e por dois diretores. Ou seja, é preciso que haja um diálogo fluido e uma diretriz comum para que as questões sejam aprovadas e, tempestivamente, executadas dentro de um planejamento estratégico", afirmou o contra-almirante.

"Fiz apenas mudanças pontuais, com o objetivo de trazer mais dinamismo para a gestão. Para as Diretorias, vieram profissionais experientes, competentes e da minha confiança: o diplomata Augusto Pestana na Diretoria de Negócios e o Vice-Almirante da Reserva Edervaldo Teixeira de Abreu Filho para a Diretoria de Gestão Corporativa", disse.

Segovia destacou ainda que a revogação do estatuto que tirava poderes do presidente da Apex ocorreu em "uma decisão consensual com o ministro Ernesto Araújo, a fim de permitir a devida governança da Apex". "Apesar das mudanças de diretoria e de presidente, a Apex manteve sua estabilidade, graças a um corpo técnico extremamente eficiente."

Letícia Catelani creditou sua saída da agência a uma pressão para manter "contratos espúrios".

Sobre isso, Segovia afirmou que o caso está sendo discutido na esfera judicial, com um possível processo contra a ex-diretora. "Enquanto não houver uma decisão final, a Apex não irá se posicionar sobre o tema", afirmou ele.

"Todos os contratos da agência são realizados de forma transparente e auditados sistematicamente por uma empresa de auditoria externa, por um departamento de auditoria interno e pelos órgãos de controle", disse, ressaltando não saber de contratos ideologizados.

Em movimento

Apesar de integrada ao Itamaraty, a Apex não é um órgão estatal. É um serviço social autônomo com um orçamento de quase R$ 800 milhões, daí a queda de braço, no ano passado, entre a chancelaria brasileira e o Ministério da Economia por quem comandaria a agência de exportações.

Seus funcionários são registrados pelo regime de CLT (Consolidação das Leis de Trabalho) e todas as compras e gastos são, por lei, fiscalizados pelo TCU (Tribunal de Contas da União).

Após meses de crise interna, com relatos de paralisia de projetos e falta de interlocução, a Apex vive agora um outro cenário após a posse de Segovia. Segundo as pessoas entrevistadas pela reportagem, as coisas começaram a andar. Já foi feita a revisão do orçamento e do programa para este ano, além de as contas do ano passado terem sido aprovadas por auditoria externa e interna.

O deputado federal Alexandre Frota (PSL-SP), que tentava uma reunião com a Apex para reverter o cancelamento dos contratos do setor de audiovisual, conseguiu se encontrar com o militar dois dias depois da posse na agência.

"A reunião com o almirante Segovia foi ótima. Falamos sobre vários temas, entre eles a reaproximação do cinema nacional junto à Apex para o convênio que já existia desde 2006. Ele se vê muito favorável para que a gente retome esta conversa e me deixou responsável para marcar essa reunião para levar os principais produtores do cinema nacional até a Apex. Vou conduzir isso a pedido do próprio almirante", disse Frota em entrevista ao UOL ao comentar o encontro. "Pudemos falar dos investimentos e dos apoios que a Apex tem a fazer junto à cultura."

"A gente também conversou sobre esse passado inicial conturbado da Apex com a saída do Vilalva, com as intervenções da Letícia Catelani que, com toda a certeza, foi um desastre lá dentro. Todos nós sabemos disso. Tanto é que ela foi demitida, assim como foi expulsa do PSL", disse o deputado. "Achei Segovia uma pessoa extremamente inteligente, aberto, apto a estar operando na presidência da Apex. Tenho a certeza de que ele vai fazer um ótimo trabalho", destacou Frota.

Reprodução/Youtube sala.org.br Reprodução/Youtube sala.org.br

O deputado contou que Segovia revelou a ele na conversa ter carta-branca do próprio Bolsonaro. "O cinema nacional merece um lugar de respeito e não podemos trabalhar em cima de ideologias. Tenho me reunido em São Paulo com alguns donos de produtoras de cinema, e a gente tem falado bastante sobre as demandas. Acho que isso precisa caminhar, e acredito que isso será feito em breve", disse.

Frota disse que ainda quando Vilalva era presidente foi marcada um encontro. "Mas a reunião foi interceptada por parte do chanceler Ernesto Araújo junto com a Letícia. Eles inviabilizaram essa reunião. Como ela não aconteceu, mandei um grupo de advogados com o pessoal do sindicato para uma reunião com os técnicos da Apex para tentar um início de conversa. Mas todos saíram de lá sem uma perspectiva boa. A situação agora mudou completamente. Vilalva estava de mãos amarradas, não conseguia trabalhar. Tanto é que, quando almirante assumiu, ele fez uma limpeza dentro da Apex. A gente precisa entender que isso foi feito para poder tramitar as coisas de uma maneira proativa na agência", diz o parlamentar.

Romont Willy/ A Incrível Viagem do Tio Max à Antártica/ Reprodução Romont Willy/ A Incrível Viagem do Tio Max à Antártica/ Reprodução

As aventuras do Tio Max (e de Segovia)

O contra-almirante é coautor em uma espécie de biografia transformada em livro infantojuvenil. "A Incrível Viagem do Tio Max à Antártica" é inspirado em sua trajetória profissional (e um tanto pessoal), com base no diário de bordo de Segovia no comando do navio Almirante Maximiliano --o "tio Max" do livro, como se fosse a alma da embarcação.

O historiador João Paulo Barbosa, outro autor do livro, contou que Segovia fez o acompanhamento da pesquisa e da redação do livro, além da revisão da escrita e de todo o linguajar da Marinha. "Ele é um cara extremamente preparado. Tem uma visão de mundo e um conhecimento de história que conta muito mais do que um pós-doutorado em comércio exterior. Daria conta de trabalhar em qualquer ministério", diz Barbosa.

"No navio polar, posso dizer que quase todo mundo estava muito orgulhoso de trabalhar sob o comando dele. É claro que existia a hierarquia, mas ele é um cara que sabe não só comandar, mas se comunicar com as pessoas. Ele é firme, mas aproveita a oportunidade para ensinar. Se eu fosse tomar uma bronca dele, eu iria aprender muito e não ficaria triste, iria agradecer."

O escritor contou que contra-almirante também foi professor dos comandantes de navios polares de outros países. "Viajei em um navio da armada chilena em que, quando o comandante soube que eu conhecia o Segovia, ele me abraçou e disse ter sido seu aluno. Foi emocionante navegar com outra nação e o comandante elogiar o Segovia".

"Ele é um cara que aceita desafios. Ele aceitaria a presidência da Apex independentemente de partido político. Ele tem essa utopia de ver o Brasil melhor. Ele transcende partidos políticos, essa vaidade política. Ele já chegou no topo da carreira quando recebeu o primeiro navio polar do Brasil. Acho que tem total capacidade de, um dia, ser o comandante da Marinha do Brasil", diz Barbosa.

Romont Willy/ A Incrível Viagem do Tio Max à Antártica/ Reprodução Romont Willy/ A Incrível Viagem do Tio Max à Antártica/ Reprodução

Segovia confirma que o texto tem um toque de ficção, "mas a maior parte do conteúdo é verídico".

"Participar dessa iniciativa me deu muita satisfação pessoal e profissional. O livro permite que crianças e jovens vislumbrem a riqueza da Antártica e conheçam as atividades dos pesquisadores e militares que atuam em prol do desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro na Estação Antártica Comandante Ferraz", diz o contra-almirante.

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