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Temor de febre amarela provoca massacre de macacos no Rio de Janeiro

Veterinária examina macaco morto no Instituto Municipal de Medicina Veterinária, no Rio de Janeiro - Carl de Souza/ AFP
Veterinária examina macaco morto no Instituto Municipal de Medicina Veterinária, no Rio de Janeiro Imagem: Carl de Souza/ AFP

No Rio de Janeiro

11/02/2018 16h41

O medo da febre amarela desatou nas últimas semanas no Rio de Janeiro um massacre de macacos, considerados equivocadamente vetores do vírus, apesar de estes serem a melhor defesa contra a doença, dizem autoridades.

Desde o início do ano, 238 macacos apareceram mortos no Estado, contra 602 em todo o ano passado, informaram os serviços sanitários da cidade do Rio.

Sessenta e nove por cento apresentavam sinais de agressão, a maioria de espancamento ou envenenamento.

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O restante morreu devido a doenças diversas, que são investigadas neste laboratório aonde chegam os macacos encontrados mortos no estado do Rio para avaliar a possível presença de vírus como o da febre amarela.

Após o último surto desta doença, que causou a morte de 25 pessoas no Estado desde o começo do ano, a população começou a procurar em massa vacinas em falta, mas alguns decidiram agir contra os macacos, em uma cidade entrelaçada com a floresta tropical.

As pessoas precisam saber que quem transmite o vírus da febre amarela é o mosquito. O macaco é uma vítima, como o ser humano. Se o macaco não estiver no ambiente, o mosquito vai buscar o homem para se alimentar

Fabiana Lucena, chefe da Unidade de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman, perto do centro do Rio

Em sua mesa de trabalho, alinham-se os corpos de uma dezena de pequenos primatas que devem ser submetidos a necropsia.

"Este apresenta múltiplas fraturas na mandíbula, na coluna, assim como diversas fraturas em ossos do crânio", diz, enquanto apalpa delicadamente a cabeça do animal.

Os corpos dos macacos que chegam ao laboratório foram encontrados em vias públicas, alguns no meio da cidade.

A prefeitura habilitou um número de telefone para que a população aponte o aparecimento de carcaças, a fim de que os serviços sanitários possam retirá-las.

Quando foram anunciadas as primeiras mortes [de humanos] relacionadas com a febre amarela este ano, em meados de janeiro, havia dias em que recebíamos uns vinte macacos mortos, dos quais 18 com sinais de agressão

Fabiana Lucena

Sentinelas

No laboratório, os macacos são submetidos a uma necropsia e, em alguns casos, fragmentos de órgãos são enviados à Fundação Oswaldo Cruz, renomado centro de epidemiologia, para identificar eventuais casos de doenças como a febre amarela.

As carcaças são incineradas em um crematório nas mesmas instalações dos serviços sanitários.

"Os macacos servem de sentinelas, nos mostram onde o vírus está", diz Fabiana Lucena.

"Para poder fazer uma campanha de vacinação mais intensa nas áreas onde estão ocorrendo mortes de macacos por febre amarela. A partir do momento que o ser humano interfere nisso, isso dificulta a rastreabilidade do vírus", afirma.

Também foram identificados massacres destes animais em outras regiões do Brasil, especialmente nos Estados vizinhos de São Paulo e Minas Gerais, onde foi registrado o maior número de casos de febre amarela.

Em São Paulo, uma equipe de biólogos que trabalha em um parque da cidade lançou nas redes a campanha #Freemacaco, depois de ter recolhido dois filhotes que ficaram órfãos após a morte da mãe, morta a pancadas.

A febre amarela no Brasil se apresenta na modalidade de ciclo rural e está restrita a áreas de floresta, consideradas prioritárias para efeitos de imunização.

A modalidade urbana ocorre quando um mosquito transmite o vírus de uma pessoa contaminada a outra saudável. Mas não há registros deste ciclo no Brasil desde 1942 e as autoridades negam indícios de uma urbanização da doença.

A febre amarela causa febre, calafrios, fadiga, dor de cabeça e muscular, geralmente associados a náuseas e vômitos. Os casos severos causam insuficiência renal e hepática, icterícia e hemorragia.