Zika mata células de cérebros em desenvolvimento, aponta estudo americano

James Gallagher

Editor de Saúde da BBC News

  • Ueslei Marcelino/Reuters

O vírus Zika mata um tipo de tecido essencial para cérebros em desenvolvimento, afirmam pesquisadores.

Em testes de laboratório, o Zika foi capaz de destruir ou impedir o crescimento de células progenitoras neurais, que constroem o cérebro e o sistema nervoso.

A descoberta, anunciada na publicação científica Cell Stem Cell, reforça a crença de que o vírus esteja causando as más-formações nos cérebros de bebês.

Os pesquisadores americanos, alertam, porém, que isso ainda não representa uma relação definitiva entre o Zika e a condição.

Segundo o último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde brasileiro, já são 641 confirmações de microcefalia ou outras más-formações em cérebros de bebês. Outros 4,2 mil casos suspeitos estão sob investigação e pouco mais de 1 mil foram descartados.

A epidemia de zika tem sido amplamente apontada como o motivo do aumento dos casos de microcefalia, mas esse elo ainda não foi cientificamente confirmado aos olhos da Organização Mundial da Saúde.

A equipe americana, formado por pesquisadores das universidades Johns Hopkins (Maryland), do Estado da Flórida e Emory (Geórgia), infectou um grupo das células com o Zika por duas horas e analisou essas amostras três dias depois.

O vírus conseguiu infectar até 90% das progenitoras neurais em uma das amostras, levando à morte de cerca de um terço das células e a sérios danos nas demais. Um efeito similar teria resultados devastadores em um cérebro em desenvolvimento.

Por outro lado, o Zika foi capaz de infectar apenas 10% dos outros tecidos testados, incluindo células cerebrais mais avançadas, renais e tronco.

A professora Guo-li Ming, uma dos cientistas responsáveis pelo estudo, afirmou que as descobertas são significantes e representam um primeiro passo para entender a relação entre zika e microcefalia.

"As células progenitoras neurais são especialmente vulneráveis ao vírus Zika", afirmou ela ao site da BBC. "Elas dão origem ao córtex - a principal parte (do cérebro) a apresentar volume reduzido na microcefalia."

"Mas esse estudo não provém uma evidência direta de que o vírus Zika é a causa da microcefalia."

Segundo a pesquisadora, são necessários mais estudos em cérebros em miniatura, criados em laboratório, e em animais.

Ainda não está claro o motivo de essas células serem tão vulneráveis - elas aparentemente não criam uma defesa contra a infecção pelo Zika.

Embora não seja definitivo, o estudo se soma às evidências já anunciadas pela comunidade científica - incluindo a descoberta do vírus em cérebros de bebês mortos e em líquido amniótico.

Madeleine Lancaster, que pesquisa o desenvolvimento do cérebro no Laboratório de Biologia Molecular do MRC (Conselho de Pesquisas Médicas britânico, na sigla em inglês), afirmou que o estudo é um "significativo passo adiante".

"Os efeitos vistos poderiam explicar o surto de microcefalia e abrem alas para muitos estudos futuros sobre como o vírus afeta células-tronco e sua habilidade de produzir neurônios em cérebros em desenvolvimento", afirmou ela ao site da BBC.

"Eu acho que se trata de uma contribuição muito importante, e num momento extremamente oportuno."

Mas a cientista concorda com os pesquisadores: é preciso investigar mais. "(Deve-se) testar se o Zika afeta a produção de neurônios e o tamanho do cérebro" e descobrir como ele atravessa a placenta, afirma.

Bruce Aylward, da Organização Mundial de Saúde, diz que as evidências de que o Zika esteja causando microcefalia e outra condição - a síndrome de Guillain-Barré - se acumulam.

"Desde a declaração de emergência internacional, em fevereiro, as evidências de uma relação causal vêm se acumulando."

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