A invenção latino-americana que revolucionou a menstruação de milhares de meninas em todo o mundo

Daniel Pardo - BBC Mundo

Embora tenha desembarcado em Uganda bem informada sobre a situação do país, a colombiana Diana Sierra não deixou de ficar impressionada.

"Cerca de 40% das meninas acabam deixando a escola por causa da menstruação, devido à falta de produtos de higiene íntima feminina", diz ela à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

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"Disse a mim mesma que isso não podia continuar; tinha que mudar", acrescentou Diana, que mora em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

Assim começou a história de sua marca, a Be Girl, que Diana lançaria junto com o equatoriano Pablo Freund.

Atualmente, a marca está presente em 13 países da África e também em outras partes do mundo.

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Causa e efeito

"A relação entre a menstruação e a evasão escolar não é fácil de demonstrar", reconhece Diana.

Mas, segundo ela, a associação entre causa e efeito é inegável.

Em um aldeia de Uganda, um pacote de absorventes custa US$ 0,75 (R$ 2,56), o equivalente a um dia inteiro de trabalho para quem ganha o salário mínimo.

E um único pacote nem sempre é suficiente.

Como resultado, muitas meninas não podem recorrer a esses produtos durante a menstruação.

"A maioria coloca um tecido grosso entre as pernas, às vezes até palha seca", explica.

"E considerando que caminham quilômetros até chegar à escola, acabam sofrendo com ferimentos e bolhas nas partes íntimas", acrescenta.

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Além disso, o método rudimentar não deixa as meninas totalmente protegidas.

"Já em sala de aula, elas não se levantam da cadeira por medo que o sangue vaze do tecido e fiquem com uma mancha visível", diz.

Ao medo do estigma somam-se as crenças e superstições relacionadas à menstrução que ainda predominam nas zonas rurais de vários países africanos.

Segundo a Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, algumas famílias seguem uma antiga tradição que consiste em isolar meninas e mulheres em cabanas remotas quando estão menstruadas.

"Por isso, em muitos casos, pelo medo do estigma, as meninas decidem não frequentar mais a escola", diz Diana.

"Todo o mês acabam perdendo quatro ou cinco dias letivos, ou 25% da grade curricular durante o ano", calcula.

"Então, os pais pensam que o rendimento da menina está baixo e decidem tirá-la da escola. As matrículas são caras, o machismo é brutal e elas são levadas para trabalhar no campo", assinala.

A Unicef estima que na África uma a cada dez meninas falta à escola todos os meses e que, na zona subsaariana, quatro em cada cinco não têm acesso a absorventes femininos.

'Cópia'

Para reverter tal cenário, Diana teve uma ideia que mudaria para sempre a vida de muitas dessas meninas.

"Decidi copiar os absorventes femininos", conta.

A ideia foi uma resposta à crise profissional e existencial na qual Diana mergulhou enquanto fazia seu mestrado em desenvolvimento sustentável na Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos.

Dez anos antes, ela havia obtido um diploma em desenho industrial pela Universidade de Los Andes, na Colômbia, e trabalhado para marcas como Panasonic, Nike e LG.

"Passava um monte de tempo desenhando televisores, câmeras, escovas de dentes... produtos com os quais enchia os bolsos dos outros. E isso me gerava um certo conflito ético", explica.

"Para um designer, um usuário é um usuário, só que alguns são ignorados porque não têm dinheiro ou porque pertencem a uma classe social desfavorecida. Ninguém desenvolve produtos para eles."

Mosquiteiro e guarda-sol

Mas Diana não seguiu a lógica. Ela criou um protótipo de absorvente feminino usando um guarda-sol e um pedaço de um mosquiteiro.

"O material do guarda-sol seria a parte impermeável, evitando que a roupa da menina fosse manchada", diz.

"Sobre ela cozi um pedaço de mosquiteiro, formando uma espécie de bolso".

Nesse bolso, as meninas poderiam colocar um pedaço de tecido, que seria substituído ao longo da menstruação.

Posteriormente, Diana se deu conta de que em outros povoados as meninas não tinham roupas íntimas.

Ela, então, redesenhou o protótipo, criando uma calcinha reutilizável.

Junto com Pablo Freund, especialista em terceiro setor, Diana conseguiu o financiamento necessário para lançar o produto.

Foi quando ela decidiu trazer o invento para a América Latina, mais especificamente para a Amazônia colombiana, onde iniciou um programa piloto com os ticunas, uma tribo indígena local.

Até o momento, já foram distribuídas 20 mil calcinhas, diz Freund.

A maioria foi vendida para ONGs locais, às quais cabe redistribuir o material.

Design e educação

"O design é uma ferramente espetacular para acabar com a pobreza", assinala Diana.

Mas informação também é importante, segundo ela.

"A maioria das meninas não sabe o que está acontecendo com seus corpos quando ficam menstruadas", explica.

"Durante uma conversa com os ticuna na Colômbia, por exemplo, umas meninas me perguntaram o que aconteceria com elas se elas entrassem na água durante a menstruação, se poderiam ficar grávidas de algum animal selvagem."

Apesar do teor social, Diana espera que as calcinhas se tornem "comercialmente rentáveis".

"Cada mulher usa ao longo de sua vida 11 mil absorventes. Para onde vão todos esses dejetos?", pergunta Freund.

"É preciso pensar na gestão sustentável disso também", conclui ela.

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