De rapel a snowboard: Paulistano com deficiência usa cinco próteses high-tec para se tornar 'ciborgue olímpico'

Felipe Souza - BBC Brasil, Sao Paulo

"Mãe, mãe! O homem biônico! O homem biônico!", disse o menino atônito na praia.

Com uma chave de fenda nas mãos, Andre Cintra, de 37 anos, desperta atenção quando percisa trocar a prótese de sua perna direita. O "ciborgue" brasileiro tem uma perna mecânica para cada tipo de esporte que pratica, como rapel, kitesurf e surfe.

Mas é a descida numa prancha em montanhas com neve, o snowboard, que o colocou na história como o primeiro atelta brasileiro a se classificar para uma Paralimpíada de inverno. Sua estreia ocorreu nos Jogos de Sochi, na Rússia, em 2014.

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No fim deste ano, Cintra vai participar de campeonatos para tentar se classificar para a Paralimpíada de inverno em 2018 na Coreia do Sul. Ele também estuda a possibilidade de competir na Paralimpíada de verão em 2020, no Japão.

Mas as próteses que ajudam a fazer de Cintra um campeão são acessíveis para poucas pessoas. O atleta não comentou valores, mas uma pesquisa feita pela BBC Brasil revelou que algumas podem custar mais de R$ 60 mil.

Leia o depoimento completo de Andre Cintra:

"Desde moleque eu gosto de esportes de prancha. Eu morava em São Paulo e sempre brincava de skate no playground do prédio.

Em 1997, eu andava de moto quando um carro me fechou. Eu caí e fui deslizando até minha perna bater na placa de um hospital. Quando eu levantei para pegar a moto, vi que a minha perna estava a alguns metros de distância.

Eu fiquei parado e um rapaz trouxe a minha perna para mim. Desde então, preciso usar uma prótese acima do joelho.

Como eu tenho a coxa, uso uma prótese com duas articulações: uma para o joelho e outra para o tornozelo. Eu acredito que a mente manda e o corpo obedece.

Pouco tempo depois do acidente, eu consegui colocar uma prótese e alguns meses depois eu já estava fazendo rafting no Nepal.

Isso foi marcante para eu entender que, mesmo sem uma perna, eu poderia fazer tudo o que eu quisesse. Eu fui me adaptando a praticar novos esportes e construindo próteses para fazer determinados esportes, adaptando conforme eu tinha necessidade para fazer um movimento diferente ou (precisava de) um sistema de segurança para não afundar.

Eu tenho cinco próteses diferentes e conto com o apoio do meu ortopedista porque elas quebram sempre - e eu preciso mantê-las em funcionamento.

Multipróteses

Eu tenho uma prótese para o dia a dia, para andar. Tenho outra para correr, outra para fazer snowboard, outra para fazer wakeboard e outra para kitesurf.

Cada prótese tem uma função diferente. A prótese de kitesurf tem a funcionalidade de ficar em uma posição específica. Essa prótese flutua caso saia da minha perna (na água), para eu não perder mais próteses. Já tive grandes prejuízos com isso.

A prótese de snowboard, por exemplo, tem uma mola que funciona como um amortecedor de bicicleta. Há um amortecedor no joelho e outro no tornozelo, que fazem o trabalho de flexionar e estender.

A prótese para wakeboard tem um funcionamento parecido com esse e também flutua.

A prótese que uso para corrida tem o formato da letra C. Quando você pisa, ela absorve a energia e devolve em impulsão. Ela ficou famosa após ser usada pelo corredor Oscar Pistorius.

Dependendo da prótese, ela pode demorar um mês para ficar pronta, dependendo do tipo de ajuste.

Multipróteses

É uma rotina maluca porque toda hora eu estou trocando de prótese: às vezes eu chego num lugar vestindo uma delas e com com duas outras dentro da mochila.

Eu abro a mochila e começo a desmontar a prótese na praia ou na neve. E as pessoas param e começam a olhar para aquela situação. A reação é sempre inusitada. As crianças passam e dizem: "Olha, mãe! Olha, mãe!"

Praticando kitesurf no Piauí, um moleque passou e começou a gritar: "Mãe, mãe, vem ver! O homem biônico! O homem biônico!"

E todo mundo parou e começou a rir. Foi uma cena superlegal. Muita gente que acaba me vendo e perguntando como são as próteses, quais eu uso e se eu posso dar uma dica para conhecidos porque geralmente quem perde uma perna fica limitado ou com vergonha de sair de casa.

E o que tem sido muito legal é que as pessoas procuram e ter essa imagem como referência para ajudar outras pessoas com o mesmo tipo de problema a criar coragem de fazer esporte e mudar sua vida.

Sochi 2014

Em 2013, eu consegui classificar o Brasil pela primeira vez para os Jogos de Sochi, na Rússia, no snowboard na categoria bordercross.

É como uma pista de motocross com rampas e curvas em diagonal na neve montanha abaixo, em cima de uma prancha.

Na competição, existem duas categorias: amputados abaixo do joelho e acima. Em Sochi, elas competiam juntas e os atletas que têm joelho ganham uma vantagem bastante considerável.

Eu fiquei em 28º lugar, mas apenas dois que estavam na minha frente não tinham joelho. Se as categorias fossem separadas eu teria conseguido a medalha de bronze para o Brasil. Agora, eles estão modificando as regras para que as categorias sejam separadas nos próximos Jogos.

É muito engraçado ter um brasileiro competindo nos Jogos de inverno porque a gente não tem neve e o treino é muito difícil: a gente sempre precisa viajar. A classificação para os Jogos na Coreia do Sul, em 2018, só vai acontecer no fim deste ano.

Muitos brasileiros podem tentar classificar não só para o snowboard, mas também para outras modalidades. Possivelmente, eu vou fazer algumas provas no Canadá, Estados Unidos e algumas na Europa para buscar uma vaga.

Eu estou muito focado nos esportes radicais e eles ainda não estavam na Olimpíada do Rio, mas com a entrada do surfe (nos Jogos do Japão em 2020) vamos ver se ele entra também entra na Paralimpíada.

Eu estou muito focado no snowboard, que exige um treinamento específico e muitas viagens. Mas pode ser que no futuro eu tente algo relacionado aos esportes de verão.

Empresário

Eu tenho duas profissões. Sou empresário e atleta e é bem difícil conciliar essas duas vidas porque são muito importantes e agitadas. Quando estou treinando fora do Brasil, eu preciso também fazer o meu trabalho na empresa à distância.

Quando estou no Brasil meu treino também é focado no snowboard. É uma agenda bem puxada.

O que eu diria para as pessoas é: acredite no seu sonho e vá em frente porque dá para fazer tudo o que você sonha com prótese ou sem prótese.

Com o esporte. busco sempre me superar a cada dia."

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