'Maior desafio é dar apoio e estrutura para mães de bebês com microcefalia'

No Rio

A dificuldade de se obter o diagnóstico correto de zika, que permita mapear o fluxo da doença no país, e a formação de uma rede de apoio para as mães que tiverem filhos com microcefalia serão os grandes desafios no enfrentamento à epidemia pelo novo vírus, aponta o infectologista José Cerbino, vice-diretor do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas. A instituição ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é voltada à pesquisa clínica e referência de atendimento em doenças infecciosas - no ano passado, foi escolhida pelo Ministério da Saúde para o atendimento de casos suspeitos de ebola. "A gente tem muito pouco a oferecer para as mães de bebês com microcefalia", diz Cerbino.

Qual é o maior desafio ao enfrentar essa epidemia de zika?

A gente tem visto muita discussão sobre como o vírus se comporta, qual o número de casos, quais as más-formações que podem acontecer. Mas temos de pensar também no apoio e no acolhimento que têm de ser dados às mães que descobrem que os filhos têm microcefalia. Quando elas recebem diagnóstico desse tipo, surgem muitas dúvidas. E a gente tem muito pouco para oferecer para elas hoje. Esse é o grande desafio para o sistema de saúde. Não se pode ter o discurso de que não há nada a fazer, é preciso trazer esperança, ter uma palavra de conforto para essas mães. E a gente pode ter número grande de casos desses. Vamos ter de saber lidar com isso. É necessário preparar o sistema para ter condições de dar conta da reabilitação, do apoio que essa criança vai precisar.

O que mais?

O diagnóstico para conseguir saber exatamente qual é o padrão de circulação do vírus é uma dificuldade. O exame pelo método de biologia molecular é caro e pouco disponível. Não existe kit comercial para que se faça o diagnóstico. A sorologia, outro tipo de exame de diagnóstico, não tem se mostrado boa ferramenta para o zika. A gente observa reações cruzadas com dengue.

O que existe de diferente nesses casos no Brasil e os que já vimos no mundo, em países da África e na Polinésia Francesa?

A primeira diferença é a magnitude. Essas epidemias anteriores que aconteceram no Pacífico se deram em ilhas pequenas, com população restrita. É a primeira epidemia de zika em um país continental, com o tamanho do Brasil. A segunda diferença é o surgimento desses casos de microcefalia, que não haviam sido descritos anteriormente. Zika vinha sendo considerada doença de menor agressividade, de menores repercussões para a saúde.

Microcefalia em bebês de mulheres que contraíram o vírus não aconteciam antes ou não havia serviços de saúde estruturados para reconhecer o aumento dos casos e fazer a ligação?

A gente não tem essa resposta. Temos algumas hipóteses para isso não ter acontecido. Uma delas é o número menor de casos, em locais que não têm tantas condições de diagnóstico. Mas a gente tem de considerar outras possibilidades também. Pode ter acontecido alguma mudança no vírus. Ou pode haver algum cofator. Pode ser que não seja só o vírus que esteja causando a microcefalia, mas outro fator ambiental ou infeccioso que esteja contribuindo. Mas nesse momento não tem como saber ainda. Para isso será preciso fazer o sequenciamento do vírus, para entender o genoma, o material genético, para ver se tem diferença em relação aos vírus identificados na Oceania, na Ásia e na África. Além da análise clínica e laboratorial dos casos que estão ocorrendo, para ver se a gente identifica alguma coisa que esteja presente nesses casos e explique isso.

Subestimou-se o zika vírus?

A doença surpreendeu. Não tem nenhum elemento que sugerisse que poderia ter casos de microcefalia associados. Não tinha nenhuma sinalização de que zika entraria aqui. A gente foi surpreendido. Não dá para ter vigilância sobre todos os vírus que podem um dia entrar no país. O sistema tem de estar preparado para identificar coisas novas que apareçam. E, na verdade, conseguiu identificar.

Há a preocupação de a epidemia de zika sobrecarregar os serviços de saúde?

A gente tem bastante tempo de enfrentamento de epidemias de dengue. Temos de usar isso ao nosso favor. Deve existir abordagem sindrômica. O paciente tem de ser abordado como um quadro febril. As medidas que serão tomadas para evitar a piora independem do teste diagnóstico. São exames simples, como hemograma. E as medidas para evitar complicação são simples: hidratação, analgesia.

 

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