Grupos são importantes para mulheres, diz médica

Recife - Grupos de apoio, sejam online ou offline, são importantes para que as mães dividam "o peso que carregam nos ombros", diz a diretora médica da Fundação Altino Ventura (FAV), a pediatra Kátia Guimarães. A FAV presta atendimento multidisciplinar aos bebês por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). "É importante que elas não se sintam sozinhas na luta contra o estigma." Segundo ela, quanto mais cedo começam as provocações auditivas, visuais, físicas e intelectuais, mais chances o bebê tem de recuperar funções mais finas do cérebro. "As mães aprendem com os médicos e compartilham umas com as outras técnicas de estimulação e relaxamento."

O WhatsApp também ajuda nas questões clínicas. Germana achava um charme quando seu filho Guilherme tremelicava uma perna - achava que era um reflexo natural, coisa de recém-nascido. "Mas, quando uma das garotas compartilhou a notícia de que poderia ser um indício convulsivo, fiquei alerta", conta ela, que contraiu o vírus da zika na 12ª semana de gestação.

Germana não podia engravidar - ou, pelo menos, era o que diziam os médicos que a diagnosticaram com útero retrovertido e trompas obstruídas. "Falavam que meu corpo não sustentaria um feto, então considero o Guilherme um milagre."

Quando, 15 dias antes do parto, veio a notícia da microcefalia, a corretora de imóveis, cujo sonho era ser mãe, perdeu o chão. "Mas logo em seguida engoli o choro e pensei: se essa é a minha missão, assim será. E posso garantir que a microcefalia não é o fim. Para mim, meu bebê não difere em nada das outras crianças", diz.

Foi ela quem iniciou o grupo, quando conheceu outra mãe de bebê com a má-formação na fila do atendimento do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife, e sugeriu que trocassem números de telefone. Conforme iam conhecendo outras mulheres na mesma situação, as convidavam para participar também. Hoje o chat funciona 24 horas e chega a 500 mensagens em poucos minutos. "Nosso principal objetivo é celebrar a maternidade e praticar a solidariedade", diz Germana.

Bruna Thamires, por exemplo, acabou nunca usando um sutiã de amamentação, que doou para uma amiga de grupo. Quando Enzo Luiz finalizou o tratamento para o refluxo, os remédios que sobraram também foram repassados para outra companheira, cujo bebê tinha o mesmo problema. Sem contar as campanhas de arrecadação, que já renderam 600 caixas de leite em pó e quilos de fraldas.

"Poder ajudar mães com mais dificuldade é o mais gratificante", diz Gleyse Cavalcanti, de 27 anos, mãe de Maria Giovana, de 4 meses, e de outros três meninos, de 8, 6 e 1 ano. Quando leu o laudo de microcefalia da filha, o medo maior foi perdê-la. "Quando ela nasceu, vi que, apesar do perímetro encefálico menor, era uma menina saudável. E então me acalmei", conta ela, que também pretende sair do emprego como agente de um pedágio para dar conta das terapias que Giovana exige. "Não imagino que ela seja diferente das outras crianças.
Acho que ela vai falar, andar, interagir e namorar normalmente", projeta.

Emoção

As mães da UMA mostram que a força está no sorriso e na resiliência. Aprenderam, com seus bebês e umas com as outras, que cada dia é um dia. Toda conquista é comemorada. "Ele tinha as mãozinhas fechadas e hoje já consegue abrir, consegue segurar um lápis. Pode parecer banal, mas é muito emocionante", conta Daniele sobre o filho Juan Pedro.

Ela já aprendeu a torcer o nariz para quem aponta ou lança olhares de preconceito - como a vez em que ouviu, carregando o filho no colo, que ele "até era bonitinho". "Por causa do grupo, não consigo mais aceitar a pena das pessoas. Pena? Pena por quê? Se meu filho fosse doente, ele estaria internado. Para mim, é uma criança normal. Tem dois olhos, duas pernas, duas mãos. Se é bonito ou feio, não importa. É um ser humano", diz, fortalecida.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luísa Martins, enviada especial

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