Fiocruz e Sanofi-Pasteur assinam acordo para desenvolver vacina contra zika

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinou um acordo de colaboração com a empresa francesa de fármacos Sanofi-Pasteur para participação no desenvolvimento de uma vacina contra o vírus da zika.

A parceria envolverá o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz, conhecido como Bio-Manguinhos e o Walter Reed Army Institute of Research (WRAIR), laboratório de pesquisa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
No fim de setembro, a Sanofi-Pasteur anunciou que o governo americano investirá US$ 43,2 milhões na segunda fase de testes clínicos da vacina que a empresa está desenvolvendo contra o vírus da zika.

De acordo com Marcos Freire, vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico da Bio-Manguinhos, o objetivo do novo acordo é permitir que a Fiocruz, a Sanofi e o WRAIR somem suas experiências para acelerar o desenvolvimento da nova vacina.

"Já vínhamos conversando com a Sanofi desde o início do ano, quando se intensificou a epidemia de zika. Com esse acordo, vamos unir esforços e competências com o objetivo, aproveitando o que cada parceiro já desenvolveu de mais avançado para dar velocidade ao desenvolvimento da vacina", disse Freire ao Estado.

O acordo prevê a participação da Fiocruz nos processos de desenvolvimento da vacina e a garantia de que a instituição poderá produzi-la e fabricá-la no Brasil, segundo Freire. "Sem essas garantias, não entramos na parceria. A base do acordo inicial repousa nessas garantias", explicou.

Segundo Freire, o papel de cada um dos parceiros ainda será definido com precisão. "Estamos nos reunindo e definindo as tarefas para que não haja duplicidade de atividades", afirmou.

Ele afirma que a Fiocruz dará uma contribuição importante, já que tem uma rede de pesquisa clínica muito robusta e trabalha em vários Estados no estabelecimento de coortes (estudos de longa duração, com acompanhamento de grande números de pacientes ao longo do tempo), com equipes que envolvem neonatalogistas, infectologistas, virologistas, entomologistas e epidemiologistas.

"A Fiocruz tem uma atuação fortíssima nessa área. Temos esses estudos de coorte em um país central na epidemia de zika e temos grande experiência no desenvolvimento e produção de vacinas. Tudo isso será muito importante numa fase de estudos clínicos. A Sanofi é uma grande farmacêutica, com muitos recursos e o WRAIR tem um trabalho forte no estudo de doenças infecciosas. Acreditamos que essa união permitirá acelerar as pesquisas clínicas", disse.

Financiamento americano. A nova vacina de vírus inativado e purificado está sendo desenvolvida desde agosto pela Sanofi-Pasteur, em parceria com o WRAIR e com o Instituto Americano de Alergias e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês).

O WRAIR deverá fornecer para a Sanofi Pasteur a vacina candidata contra zika de vírus, para que a empresa produza as doses que serão usadas na segunda fase dos testes clínicos.

Os US$ 43,2 milhões que a empresa farmacêutica francesa receberá do governo americano serão fornecidos pela Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado (Barda, na sigla em inglês), um órgão ligado à secretaria-geral do Departamento de Saúde e Serviços Sociais dos Estados Unidos.

De acordo com a Sanofi, o contrato assinado com os americanos em julho vale até 2022 e prevê que a Barda realize um novo financiamento de US$ 130,4 milhões para as etapas seguintes de testes, caso os testes atuais tenham resultados positivos.

Os testes preliminares com animais foram bem-sucedidos, de acordo com o diretor de Projetos em Desenvolvimento Inicial da Sanofi-Pasteur, Jon Heinrichs, que coordena o projeto da nova vacina.

"Os estudos iniciais realizados nos nossos laboratórios incluíram testes da vacina em modelos de camundongos e macacos. A vacinação deu 100% de proteção aos animais", disse Heinrichs ao Estado. De acordo com ele, os resultados preliminares foram publicados nas revistas científicas Science e Nature Medicine.

Heinrich afirmou que o financiamento americano deverá permitir a realização de toda a segunda fase de testes clínicos.

"Ainda na primeira fase, vamos testar a vacina em humanos a partir de outubro - incluindo a aplicação em voluntários em Porto Rico, que é uma área endêmica. A segunda fase, está prevista para ter início no segundo trimestre de 2018, com a fabricação e caracterização do produto", declarou Heinrich.

Incerteza. Segundo Heinrich, o retorno dos investimentos para a Sanofi é incerto, já que ainda não é possível saber como a epidemia evoluirá nos próximos anos. De acordo com ele, nos próximos dois anos ela poderá reproduzir o modelo da epidemia de dengue - que se tornou uma doença endêmica na maior parte do mundo - ou o modelo da chikungunya, que aparece em vários países e depois desaparece.

"É difícil saber o que acontecerá. A vacina poderá até mesmo não ser mais necessária. Mas não estamos entrando nesse projeto com foco no aspecto financeiro. A epidemia de zika é considerada um imperativo moral para a empresa. Não achamos que a vacina trará grandes lucros à empresa, mas temos que desenvolvê-la porque temos que nos manter como líderes no desenvolvimento de vacinas", declarou.

De acordo com Heinrich, o governo americano já anunciou investimentos de US$ 1,9 bilhão para o combate à zika e a Sanofi não foi a única empresa estrangeira a receber recursos. "É importante que sejam feitos grandes investimentos em diversas vertentes de vacinas", declarou.

Uma das candidatas a vacina contra a zika que já teve testes clínicos pagos pelo governo americano é a do grupo japonês Takeda, que obteve um financiamento de US$ 19,8 milhões, no início de setembro, para realizar testes clínicos em humanos no segundo semestre de 2017. O contrato com a Takeda poderá ser estendido até US$ 312 milhões, de acordo com o sucesso obtido em cada fase de estudos.

Fábio de Castro

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