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Não citar uso de medicamento ao fazer exames pode gerar diagnóstico errado

Cerca de 12% da população toma uma ou mais drogas que podem interferir no resultado de exames -
Cerca de 12% da população toma uma ou mais drogas que podem interferir no resultado de exames

Cármen Guaresemin

Do UOL, em São Paulo

29/11/2013 07h00

Uma pessoa toma um simples comprimido à base de paracetamol para aliviar uma dor de cabeça. Outra ingere gotinhas de um remédio homeopático antes de dormir.  No dia seguinte, ambas fazem exames laboratoriais e omitem essas informações, por esquecimento ou mesmo por considerá-las irrelevantes. Quais as chances de os resultados dos exames, nos dois casos, saírem alterados? Muito altas, segundo especialistas.

Claudio Pereira, diretor de análises clínicas do Delboni Auriemo Medicina Diagnóstica, diz que mais da metade dos equívocos e erros nos resultados acontecem na fase dos exames.

“Existe, sabida e seguramente, interferência dos medicamentos nos resultados. Em seu livro "Effects of Drugs on Clinical Laboratory Tests" [Efeitos das Drogas em Testes Clínicos de Laboratório, em tradução livre] o médico norte-americano Donald Young descreve mais de 40 mil exemplos de influência entre medicamentos e exames laboratoriais”, conta.

Pereira também lembra que pessoas que fazem exames costumam ter algum tipo de enfermidade e, consequentemente, utilizam remédios com mais frequência.  “Outros autores que também estudaram o tema dizem que 12% das pessoas tomam uma ou mais drogas que podem interferir no resultado."

Celso Granato, assessor médico em Infectologia e Patologia Clínica do Fleury Medicina e Saúde, afirma que a Associação Americana de Química Clínica pontua 3.500 siglas no quesito efeito de drogas sobre testes laboratoriais químicos.

Ele questiona: “O resultado de um exame para checar como está o colesterol pode ser influenciado pelo consumo de uma aspirina? Depende da metodologia, pois existem várias, mas o provável é que sim”.

Granato admite que essa preocupação é procedente e cita o exemplo de uma pessoa que fez um teste de marcador tumoral (substância encontrada no sangue, urina ou tecidos biológicos que pode estar em quantidade elevada no câncer), e o resultado estava alterado. “O médico ficou preocupado, pois o tumor poderia ter voltado. Depois de passarmos um pente fino nas drogas que o paciente tomava, chegamos ao omeprazol, medicamento usado para gastrite. Descobrimos que ele altera os resultados. Cavucamos na literatura médica até descobrir”, relata Granato.

Veja algumas das drogas que mais interferem em exames

Grupo de examesExameMedicamentos / outras drogas
HormonaisFSH e LHCorticosteroides
 TSHCorticosteroides, propranolol, amiodarona, metoclopramida, outros
 ProlactinaAmitriptilina, metoclopramida, haloperidol, outros
 TestosteronaDiazepam, digoxina, outros
 T4 livrePropranolol, amiodarona, fenitoína, carbamazepina, outros
 ReninaFurosemida, nifedipina, outros
   
Testes bioquímicosBilirrubinasAcetaminofen, amiodarona, carbamazepina, outros
 Glicose no sangueFurosemida, hidroclorotiazida, metronidazole, outros
 Glicose na urinaVitamina C
 TriglicerídeosPropanolol, bebídas alcoolícas
 Fosfatase alcalinaCefalexina, eritromicina, fenitoína, outros
 PotássioCaptopril, corticosteroides, furosemida, outros
  Fonte: Delboni Auriemo Medicina Diagnóstica

Uso contínuo

Marcos Machado, especialista em análises clínicas e diretor do CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia de São Paulo) comenta que algumas medicações de uso contínuo,  tomadas por diabéticos e cardíacos, também podem interferir no resultado de exames.

“Porém, essas pessoas não podem parar de tomá-los. Então, é importante informar os nomes dessas drogas quando for atendido antes do exame”, frisa.

Ele também explica que o correto seria, por exemplo, o endocrinologista saber se seu  paciente diabético toma repositor hormonal por causa da tireoide. Pois um exame de TSH – que mede a quantidade de hormônio estimulante da tireoide - pode dar um número baixo.

“Um simples ácido acetilsalicílico comprado na farmácia, sem receita, e tomado na véspera de um exame pode dar diferença no resultado. Um diabético que tomar um AAS pode ter diminuída sua dose de glicose no sangue e sentir-se mal. O médico vê o resultado e pensa em mudar a dose”, alerta Machado.

AVC  e infartos

Para ilustrar o perigo, Machado dá outro exemplo: quem teve um AVC, trombose ou infarto precisa tomar remédio para controlar a coagulação durante toda a vida. Se tomar paracetamol, pode complicar tudo. O médico até avisa que não pode, mas o paciente esquece.

“Peguei casos de pacientes que misturaram os medicamentos e, consequentemente, o resultado não foi bom, mesmo ele tomando a dose de medicação correta. Daí, o médico mudou a dose. Isso é perigoso, pois pode até fazer com que a pessoa morra”, lembra.

O mesmo vale para alguns antidepressivos e ansiolíticos que podem alterar resultados hormonais.  O médico pode acabar trocando a medicação quando ela estava correta.

Machado ensina o melhor procedimento no caso de quem toma antibióticos, por exemplo: “A pessoa com uma infecção urinária toma o remédio por sete dias e repete o exame dois dias após terminar o tratamento. Está errado. É preciso um intervalo de dez dias para refazer um exame de cultura."

Celso Granato ainda ressalta que os homens que precisam fazer o exame de PSA, para saber como está a próstata, não podem andar de bicicleta (inclusive as fixas, de academia), pois esse movimento fará uma massagem na região e pode levar a um resultado alterado. “Nas instruções passadas pelos atendentes no agendamento pode estar a abstinência ao sexo, mas não andar de bicicleta também é recomendado”.

Detalhes

Todos os entrevistados dão os mesmos conselhos: quando for fazer um exame, leve uma lista com os nomes, de preferência dos princípios ativos, de todos os medicamentos que tiver ingerido até três dias antes. Não se esqueça também de incluir na lista ervas, chás, laxantes, homeopáticos, fitoterápicos, suplementos vitamínicos e, claro, álcool. Aliás, o correto, é nem ingerir bebida alcoólica às vésperas da realização de exames.

Além disso, siga todas as recomendações do laboratório e, mais importante, sempre fale tudo, detalhadamente, para seu médico, pois, por mais insignificante que uma informação possa parecer, ela pode fazer toda a diferença no diagnóstico.

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