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Unidade básica não está preparada para lidar com Aids, dizem especialistas

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

01/12/2013 19h28Atualizada em 06/01/2014 12h19

Para o secretário de saúde do Estado de São Paulo, o infectologista David Uip, o anúncio de que todo paciente diagnosticado com HIV terá acesso a antirretrovirais na rede pública, feito neste domingo (1º), é uma medida que deveria ter sido melhor discutida. Na opinião do médico, que tem uma trajetória longa no combate à Aids, é preciso lembrar que os medicamentos têm efeitos colaterais importantes, como o risco de complicações renais, cardíacas e cerebrais. Além disso, o secretário lembra que há um problema histórico de adesão de pacientes ao tratamento. E estudos mostram que o uso incorreto das drogas aumenta o risco de resistência.

Para o infectologista, a medida pode ser considerada útil como política pública porque diminui a transmissibilidade do vírus - uma vez que a pessoa tome os medicamentos corretamente, terá uma carga viral baixa e, assim, corre menos risco de infectar outras pessoas. Estudos internacionais mostram que o uso precoce de antirretrovirais reduz em 96% a taxa de transmissão do HIV. 

Mas a decisão de tomar, ou não, os remédios antes que os sintomas apareçam "é entre médico e paciente e precisa ser individualizada", alertou o médico, presente no lançamento do livro "O Valor da Vida", da jornalista Roseli Tardelli, na Livraria Cultura, em São Paulo. Além dele, foram ao evento o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o ex-ministro da Saúde José Serra.

Atenção básica

De acordo com o Ministério da Saúde, atualmente 313 mil pessoas recebem os antirretrovirais pelo SUS. Com o novo protocolo, que deve ser publicado nesta segunda-feira (2) no Diário Oficial,  a ampliação do tratamento gratuito deve incluir 100 mil pacientes na lista apenas em 2014. Isso significa um aumento de 32% no número de pacientes vivendo com HIV com acesso ao antirretroviral. O ministro José Padilha também anunciou hoje, no Rio, que começa a estudar a ampliação da profilaxia contra a doença na rede básica de saúde, ou seja, a oferta a antirretrovirais em 72 horas após a provável exposição ao HIV, como é feito com a pílula do dia seguinte.

A ampliação do tratamento antirretroviral vai fazer com que parte dos pacientes seja atendida na atenção básica, ou seja, as unidades básicas de saúde (UBSs), o que, segundo o ministério, será feito gradualmente e apenas em casos menos complicados.

"Nós, do governo de São Paulo, somos contra. A unidade básica não está preparada para lidar uma questão tão complexa como a Aids", disse o secretário, ressaltando que o manejo da doença exige preparo. Para o governador de São Paulo, a mudança no protocolo não significa que os pacientes deixarão de recorrer aos serviços especializados.

"Deslocar o atendimento para a atenção básica é uma temeridade", opinou, também, Mário Scheffer, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), também presente no evento. Além de ter questionado a existência de uma retaguarda assistencial para esses 100 mil novos pacientes, ele lembrou que os grupos mais vulneráveis ao HIV não frequentam os serviços de saúde porque têm medo de ser estigmatizados. 

Epidemia concentrada

Na opinião de Scheffer testes, projetos e campanhas de prevenção devem ir para onde estão os mais vulneráveis ao vírus. "A epidemia da Aids no Brasil é concentrada (...); dizer que a doença afeta a todos de forma igual está equivocado para a nossa realidade", ressaltou.

Como divulgado pelo próprio Ministério da Saúde hoje, apesar de uma prevalência do HIV baixa na população em geral (0,4%), nestes grupos chamados de "prioritários" - homens que fazem sexo com homens, gays, profissionais do sexo, travestis, transexuais e pessoas que usam drogas – ela pode ser maior que 10%. 

Por que a doença voltou a ter tanto peso para esses grupos? "As populações vulneráveis foram totalmente negligenciadas pelos poderes públicos", criticou Scheffer. Isso teria acontecido pelo receio das autoridades de direcionar campanhas e acabar gerando preconceito e reforçando o conceito, já ultrapassado, de 'grupos de risco'? "Focar sem discriminar é um desafio", respondeu. "Mas pior é varrer o problema para debaixo do tapete."

Para Scheffer, nunca o país teve tantos instrumentos para combater a Aids - terapia precoce, pós-exposição e, agora, ainda como projeto-piloto, pré-exposição. "Mas também nunca teve tantos desafios."

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