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"Modelos repressivos fracassaram", diz psiquiatra sobre ação na Cracolândia

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

16/01/2014 20h47

Como era esperado, os dependentes de crack inscritos na Operação Braços Abertos, iniciada nesta quinta-feira (16) na Cracolândia, em São Paulo, não deixaram de consumir a droga, como mostrou reportagem do Estado de S.Paulo. O programa, segundo a prefeitura, tem como objetivo devolver a dignidade dos usuários. Nenhum dos participantes é obrigado a se tratar para ganhar  R$ 15 por dia, hospedagem, refeições e assistência médica em troca das quatro horas de varreção diárias.

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"É uma proposta de reinserção social, não de tratamento", enfatiza o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação, Atendimento a Dependentes (Proad) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e consultor técnico da área de saúde mental, álcool e drogas da Secretaria da Saúde de São Paulo. "É uma construção", mencionou a secretária municipal de Assistência Social, Luciana Temer, na reportagem.

Redução de danos

Para o especialista da Unifesp, referência em redução de danos no país, a medida é reflexo da conclusão de que "os modelos mais repressivos e coercitivos fracassaram no mundo inteiro" no que se refere às drogas. Na opinião do médico, tirar o usuário de seu ambiente para tratá-lo não funciona a longo prazo, mesmo quando há recursos financeiros, porque a droga "não é causa, é consequência". Para ele, ficar 'limpo' quando se está em uma clínica é uma situação fácil. "Mas quando a pessoa volta para a sua vida e seus problemas, ela recai", diz.

[O usuário] pode adquirir formas de consumo que sejam o mais compatível possível com uma vida normal

Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e coordenador do Programa de Orientação, Atendimento a Dependentes (Proad) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

Silveira acredita no tratamento ambulatorial, como o oferecido nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) Álcool e Drogas hoje no país. "Mas para o crack faltava outras coisas. Não dá para tratar uma pessoa que está há três dias sem comer", explica.

Ele lembra que a taxa de sucesso para quem inicia tratamento contra drogas é de apenas 35% em qualquer parte do mundo. "Essa pessoa tem que ser isolada da sociedade?", pergunta, referindo-se aos 65% restantes. "É aí que entra a redução de danos: ela pode adquirir formas de consumo que sejam o mais compatível possível com uma vida normal", considera o psiquiatra, que cita a enorme quantidade de pessoas que trabalham o dia todo e se drogam quando chegam em casa, sem causar comoção à sociedade. 

Tentação do dinheiro

Fabian Nacer, que já foi dependente de heroína, de crack, e chegou a morar na Cracolândia por seis anos, acha que a ação da prefeitura "é uma grande furada" e não vai dar em nada. Na contramão do que defende o psiquiatra da Unifesp, ele é enfático sobre a primeira providência que deveria ser tomada em relação à região: afastar os usuários daquele ambiente. 

Uma nota de dez reais parece um demônio [para quem está em tratamento]. O cara precisa ficar longe de dinheiro

Fabian Nacer, ex-usuário que morou seis anos na Cracolândia

Nacer está há anos sem consumir droga. Fez faculdade, especializou-se em dependência química e hoje faz palestras sobre o tema em escolas e outras instituições. "Até hoje sou chamado para fazer trabalhos na Cracolândia e eu não vou", enfatiza. Ele também levanta outra questão: "Uma nota de dez reais parece um demônio [para quem está em tratamento]. O cara precisa ficar longe de dinheiro, às vezes até por dois anos", recomenda o ex-usuário.

A observação de Nacer faz mais sentido depois que se ouve como é a rotina dos habitantes da Cracolândia: "Eu dormia na rua e, ao acordar, ia direto para o farol. Eu tinha no máximo 40 minutos para conseguir dez reais, senão começava a passar mal, a perna tremia, me dava vontade de vomitar e eu chegava até a ficar agressivo". Vencida a primeira fissura, todo o resto do dia se resumia a conseguir mais dinheiro para consumir mais pedras.

 "Estão querendo dizer que, se a pessoa tiver dignidade, ela vai ter gosto pela vida e vai querer se tratar - eu não sei de onde eles tiraram isso". Na opinião dele, todos esses conceitos estão muito distantes quando se tem uma necessidade física para suprir, ainda que para os assistentes sociais o usuário chore e jure que quer largar aquela vida. 

Quando um paciente está muito doente, a gente dá uma licença-saúde para ele se tratar. Eles estão fazendo o contrário: estão mandando pessoas doentes trabalhar

Ana Cecília Marques, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead)

Nacer sugere que a operação nada mais é do que um acordo com os usuários para "deixar a rua limpa", mencionando a minifavela que foi desmontada no local. "Você sai de lá, varre um pouco e eu te dou dinheiro", ironiza. Ele acredita que no início alguns usuários até vão cumprir a jornada para receber o salário e comprar mais droga, mas acha que, aos poucos, eles devem deixar de aderir.

Doença do cérebro

A psiquiatra Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), também acredita que a operação "é dinheiro público mal aplicado", e que não adianta reinserir o usuário socialmente se não houver tratamento primeiro.

Ela acha que até pode haver boa intenção na iniciativa, apesar de mencionar a proximidade com a Copa do Mundo, mas pensa que há um profundo desconhecimento sobre o crack por trás da ação. 

"A dependência é uma doença do cérebro, que abole a capacidade da pessoa de resolver os problemas do dia a dia", diz. "Em casos leves, até é possível conciliar reinserção social com tratamento, mas em casos graves é preciso tirar a pessoa daquele ambiente", declara.

Para concluir o assunto, a médica faz uma observação: "Quando um paciente está muito doente, a gente dá uma licença-saúde para ele se tratar. Eles estão fazendo o contrário: estão mandando pessoas doentes trabalhar".