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Pessoas podem esconder grandes segredos, especialmente de seus médicos

Demônios pessoais podem "se esconder" dos médicos quando os pacientes tentam disfarçá-los nos consultórios, mas e o abuso de substâncias na presença de entes queridos? - Keith Negley/The New York Times
Demônios pessoais podem "se esconder" dos médicos quando os pacientes tentam disfarçá-los nos consultórios, mas e o abuso de substâncias na presença de entes queridos? Imagem: Keith Negley/The New York Times

Abigail Zuger

The New York Times

18/01/2014 08h00

A esposa de um paciente me telefonou; a voz estava hesitante e triste. Ela não quis saber de bater papo. "Eu preciso falar sobre o problema que Tom tem com a bebida", a mulher afirmou.
 
Somente o choque que levei naquele momento justifica as primeiras palavras que saíram da minha boca. "O Tom? Você está brincando?"
 
Toda família tem uma alma torturada dentro de um armário cuja porta não fecha direito. Os demônios lá de dentro são visíveis para amigos e familiares, vizinhos e porteiros, até mesmo para a equipe do pronto-socorro. Já o mundo externo, no entanto, não vê nem sinal de problema, e isso inclui colegas, clientes e sempre, principalmente, o médico.
 
Manter sua reputação no consultório médico é um fenômeno extraordinário, tanto divertido quanto penoso, que reflete em todo tipo de avaliação médica. Em seu aspecto mais básico, é o paciente recuperando-se de uma gripe que anuncia – a gente escuta isso uma vez por dia – "eu estava tão mal na semana passada que nem sabia o que fazer". Então por que não veio aqui? "Ah, eu não queria que me visse daquele jeito."
 
O mesmo instinto está por trás da determinação de cortar o coração dos dementes que lutam para esconder todo pensamento perdido; dos moribundos, que se concentram com determinação em uma conversa sobre qualquer assunto, menos na mortalidade; nos viciados, que fazem malabarismos para evitar ajuda médica para seu problema.
 
Existem ferramentas para pegar o usuário evasivo, mas não o suficiente. Os recursos comuns do ofício podem dar certo às vezes: um exame físico pode revelar as marcas da agulha do usuário de drogas ou as glândulas salivares inchadas do alcoólatra. Exames laboratoriais rotineiros de vez em quando dão pistas, bem como uma conversa deliberadamente casual ("quais são seus planos para o fim de semana?"). Uma série de perguntas mais incisivas ("você sempre precisa de uma bebida para 'pegar' pela manhã?") recebeu validação científica em detectar muitos problemas sérios.
 
Entretanto, mesmo as boas ferramentas são inúteis quando ninguém se dá ao trabalho de usá-las. Uma nova análise dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos estima que das 38 milhões de pessoas com problemas de alcoolismo no país, somente uma em seis contou a verdade a um profissional de saúde. Os médicos não parecem estar interessados em fazer uma investigação longa e tensa.

Eles podem sentir empatia e respeito demasiados por um paciente que é claramente um pilar da comunidade. Eles podem estar até o pescoço com os outros problemas do paciente (como eu estava com os do Tom), previsivelmente esquecendo, como demonstraram estudos, que o vício pode ser a fonte de muitos desses problemas.
 
Então, de repente, uma voz desconhecida está ao telefone, e tudo se torna muito claro – claro, mas, infelizmente, certamente nada fácil, como evidenciaram minhas próximas palavras à esposa de Tom: "Eu sinto muito. Não posso conversar com a senhora sobre isso".
 
Três considerações diferentes cancelaram nossa conversa antes que ela começasse.
 
Em primeiro lugar, discussões pelas costas de um paciente adulto sempre são um ideia terrível. Por mais bem intencionadas que sejam, elas rapidamente deformam a ligação entre médico e paciente, transformando um em pediatra e o outro em criança. Logicamente, como nenhum dos dois é um deles, esse novo relacionamento raramente funciona, e a não criança sai de imediato e encontra outro médico.
 
O padrão ético também sustenta que a maioria dos aspectos da saúde de um paciente adulto é de natureza particular, não devendo ser discutidos, nem mesmo com uma esposa amorosa, sem permissão específica. Tal obrigação somente prescreve quando o paciente está confuso, em coma ou decisões médicas urgentes têm de ser tomadas.
 
Um perigo iminente e claro da parte preocupada também pode justificar uma brecha. Se a esposa de Tom não soubesse dirigir e ele planejasse levá-la em uma longa viagem, costurando pela Rodovia Interestadual 80 com uma garrafa de vodca no colo, então uma conversa demorada poderia ser adequada. Tirando esse tipo de perigo, a vida de Tom continua sendo só dele.
 
Por fim, a lei agora está envolvida. Com a Lei de Portabilidade e Responsabilidade de Seguros de Saúde, de 1996, o governo federal mexeu com a privacidade do paciente, causando grande confusão para todos. Os meandros dessa legislação costumam ser interpretados equivocadamente para afirmar que ninguém pode falar com ninguém sobre a saúde de um terceiro sem seu consentimento por escrito. Na verdade, conversas mais comuns são legítimas desde que o paciente seja consultado com antecedência e não apresente objeções. Ainda assim, a lei deixa todos um pouco mais cautelosos.
 
Eu falei à esposa de Tom que ligaria para ela.

Em sua próxima consulta, disse a Tom que ela havia ligado. E não contei o motivo.
 
"Posso falar com ela? Ou quem sabe ela o acompanha na próxima consulta?" Firme e educadamente, Tom afirmou que de jeito nenhum.
 
E foi assim que a história terminou. Não conheci sua esposa, nunca mais ouvi aquela voz triste ao telefone outra vez. Porém, Tom repentinamente viu que nossas conversas sobre saúde tomavam um rumo completamente novo. Acontece que mesmo quando considerações morais, legais e profissionais me proíbem de dizer uma única palavra, nada me impediu de escutar e nada me fez esquecer.

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