Topo

Campanha sobre Síndrome de Down criada na Europa explode em redes sociais

Patrícia Araújo

Do UOL, em Roma

2014-03-21T07:00:00

21/03/2014 07h00

“Querida futura mamãe, não tenha medo. Seu filho poderá fazer muitas coisas". Assim começa a resposta dada por 15 crianças, adolescentes e adultos com Down a uma mãe que descobre estar grávida de um bebê com a síndrome. Esse é o mote do vídeo de uma campanha publicitária criada na Itália que, em pouquíssimo tempo, explodiu nas redes sociais e se transformou em viral.

Lançada na última sexta-feira (14), o vídeo #DearFutureMom alcançou cerca de um milhão de visualizações no YouTube em apenas quatro dias e, entre segunda-feira (17) e terça-feira (18), num período de 24 horas, foi a campanha mais compartilhada entre as pessoas no mundo inteiro. Ao longo da semana, ela foi veiculada em todos os telões dos estádios de futebol em que ocorreram jogos da série “A” italiana e ganhou espaço em jornais e revistas internacionais famosos, como Vogue e Vanity Fair.

A campanha foi criada por uma agência publicitária inglesa a pedido da CoorDown (Coordenação Nacional das Associações de Pessoas com Síndrome de Down na Itália), em parceria com outras oito associações internacionais sediadas na França, Espanha, Croácia, Alemanha, Inglaterra, Rússia, Estados Unidos e Nova Zelândia. Ela foi feita para celebrar o Dia Internacional da Síndrome de Down, comemorada nesta sexta-feira (21), e que este ano tem como tema a felicidade e o bem-estar das pessoas com a síndrome.

Pergunta comum

A ideia do vídeo, de dois minutos e 28 segundos, surgiu a partir de um e-mail enviado para uma das 72 associações das quais a CoorDown é responsável. No e-mail, uma mãe que acaba de descobrir estar grávida de um bebê com a síndrome questiona que tipo de vida seu filho terá pela frente.

Para Federico De Cesare Viola, responsável pelo setor de comunicação da CoorDown e pelo projeto da campanha, o sucesso da propaganda se deve a sua “universalidade”.

“É uma ideia simples, mas fortíssima. O medo do futuro e o medo de um pai são sentimentos universais. Contamos o medo de uma mãe que espera um filho com um tipo de deficiência, mas, na verdade, este é um temor que possuem todas as mães, como diz um dos garotos do vídeo. É por isso que nós conseguimos envolver todas as mães, todos os pais. E não só eles porque, obviamente, o sentimento de medo no confronto com o futuro é uma coisa que diz respeito a todos.”

Segundo Roberto Morali, diretor da AGPD (Associação Pais e Pessoas com Síndrome de Down, com sede em Milão), a campanha também tem apelo porque se baseia em algo “verdadeiro”. De acordo com ele, a pergunta usada para construir o vídeo é realmente a primeira que se passa na cabeça de uma pessoa que recebe a notícia de que terá um filho com Down.

“A primeira preocupação dos pais [de uma criança Down] é pensar no futuro. Eles saltam o conceito de infância e já tentam projetar como será o futuro do seu filho. Estas perguntas são exemplificadas no vídeo: ‘será feliz?’, ‘poderá trabalhar?’, ‘que coisa poderá fazer quando for grande?’”

Responsável pelo setor de relações externas da Vividown (também com sede em Milão), Stella Forti confirma a informação de Morali. Ela conta que, semanalmente, sua organização recebe cartas, e-mails e, principalmente, telefonemas de pais que descobrem que terão filhos com a síndrome. “Muitos vêm aqui conversar, estabelecer contato. Eles querem sentir que não estão sozinhos. Isso é a coisa mais importante.”

Combate ao preconceito

Para o presidente da AGPD, Gian Marco Gavardi - ele próprio pai de uma criança de dez anos com a síndrome -, a campanha da CoorDown ajuda a combater o preconceito existente na sociedade ao mostrar adolescentes e adultos “independentes”, que conseguiram trabalhar e sair da casa dos pais.

“Este tipo de propaganda seguramente não muda o mundo, mas o fato de ter sido assim tão vista e compartilhada pode ser um pequeno sinal de mudança. Boa parte do mundo se relaciona com pessoas com Síndrome de Down de forma complicada, difícil ou até mesmo exclusiva. O fato de alguém, que nunca teve nenhuma relação com portadores da síndrome ou que os via de forma errada, ter assistido o vídeo e passado a vê-los de forma diferente é o significado positivo desse tipo de campanha.”

Já Stella Forti afirma que a escolha de 15 jovens de diferentes países, línguas, idades e estilos para protagonizar a campanha também é uma forma de “desmistificar” a imagem que se tem das pessoas com Down.

“Existe a concepção de que eles [portadores da síndrome] seriam sempre bonequinhos simpáticos. Não é verdade. Cada um tem seu caráter. Cada um tem seus momentos positivos e negativos. Eles não são um estereótipo.”

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-lista','/2014/leia-mais-sobre-sindrome-de-down-1395342475823.vm')

Jornada mundial

A Jornada Mundial da Síndrome de Down, que este ano está em sua nona edição, foi criada para difundir informações sobre a síndrome e abrir espaço a um novo conceito de diversidade, promovendo o respeito e a integração na sociedade das pessoas com o distúrbio. O evento é sancionado por resolução da ONU (Organização das Nações Unidas).

A escolha do dia 21 de março para a realização do evento não foi feita por acaso, mas em alusão à definição científica da síndrome, caracterizada pela presença de um cromossomo a mais (três no lugar de dois) no par 21.

Entre algumas das características típicas dos portadores da síndrome estão: rosto arredondado, olhos oblíquos, mãos e dedos menores que o normal, orelhas pequenas, diminuição do tônus muscular, língua protusa, dificuldades motoras e comprometimento intelectual.

Mais Ciência e Saúde