Topo

Clique Ciência: Por que vemos rostos em manchas, nuvens e até em torradas?

Reprodução
Você vê o Bin Laden nas manchas do caranguejo? Há quem veja Jesus Imagem: Reprodução

Cintia Baio

Colaboração para o UOL

2015-11-17T13:34:12

17/11/2015 13h34

É bem provável que você já tenha enxergado a imagem de um ursinho em uma nuvem, uma torrada "com olhos, nariz e boca" ou um rosto na mancha de uma parede. Algumas pessoas vão além e conseguem ver imagens sacras, como a de Nossa Senhora em um pão ou de São Jorge na Lua.

Chamado de pareidolia, esse fenômeno é definido como a percepção de uma imagem a partir de um estímulo aleatório.

"É algo totalmente psicológico, que não ativa uma área definida do cérebro quando acontece”, explica Péricles Maranhão Filho, neurologista e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Ainda não se sabe exatamente porque isso acontece, mas pode estar relacionado com a nossa capacidade de detectar rostos desde pequenos, devido a nossa herança evolutiva.

Se você pegar um bebê com alguns minutos de vida, ele vai dirigir a atenção para algo que, no geral, apresenta características de um rosto

Nouchine Hadjikhani, cientista da Universidade de Harvard (EUA), em uma entrevista à BBC

Outros pesquisadores acham que a pareidolia é uma consequência de como o cérebro processa informações, já que ele está constantemente vasculhando linhas, formas cores e superfícies para dar significado a elas. Em alguns momentos, ele funcionaria praticamente como uma câmera que tenta detectar faces nas fotos a partir de padrões já determinados (e nem sempre isso funciona). 

Arte/UOL
Tem uma curiosidade científica? Mande sua pergunta para o UOL com a #CliqueCiência Imagem: Arte/UOL

Um estudo publicado em 2014 mostrou que as pessoas não enxergam rostos em objetos aleatórios porque estão iludidos, mas porque o cérebro é justamente treinado para ver rostos, mesmo quando eles não estão lá.

"Essa tendência de detectar rostos em informações visuais ambíguas é, talvez, altamente adaptável, dada a importância suprema de rostos em nossa vida social e o alto custo resultante da incapacidade de detectar um rosto verdadeiro", diz Kang Lee, psicólogo da Universidade de Toronto e autor do estudo.

Questão de fé?

A "aparição" de imagens sacras, como a de Nossa Senhora, Madre Teresa de Calcutá e de Jesus em pães, manchas na parede, biscoitos é algo muito comum e, cientificamente, creditado à pareidolia.

Não existe uma explicação, mas pessoas religiosas tendem a ter mais pareidolia

Péricles Maranhão Filho

Para a pesquisadora Sophie Scott, da University College de Londres, o fenômeno também pode ser produto das expectativas. “Ver o rosto de Jesus em uma torrada diz mais sobre como você está interpretando o mundo do que algo que realmente está na torrada”, disse em uma entrevista.

Mensagem do céu?

Além das nuvens, é muito comum ouvir relatos de imagens na Lua. O interessante é que em cada parte do mundo, um tipo diferente de imagem é vista por lá. Por aqui, é comum ver São Jorge lutando contra um dragão. Já na Índia, é comum identificar a imagem de uma mulher deitada, conhecida como Ashtangi Mata, mãe de todas as coisas vivas. Ela teria mandado seus filhos gêmeos para ser o Sol e a Lua. Nos Estados Unidos, a figura é do rosto de um homem. E no Japão, um coelho.

As imagens, novamente, são formadas por conta da pareidolia. Quando olhamos para a Lua vemos áreas iluminadas e escuras, fornadas pela superfície irregular do astro. Esse contraste de luz e sombra contribui para vermos as imagens.

Nasa
A famosa "face de Marte" Imagem: Nasa
 O mesmo acontece nas imagens vistas em Marte. A famosa “Face de Marte”, fotografada em 1976, nada mais é que uma formação montanhosa parecida com um rosto.

Além disso, já foram "fotografados" ursos, esquilos e até rosto de aliens. Por enquanto, a única explicação para tudo isso é, realmente, a pareidolia.

O fenômeno psicológico rende, no mínimo, histórias curiosas. Em 1994, uma norte-americana mordeu um sanduíche de queijo e notou que ele parecia ser uma imagem da Virgem Maria. Diana Duyser guardou o resto do sanduíche por mais de uma década e depois o leiloou por US$ 28 mil. No momento em que ele foi vendido, o anúncio do pão tinha recebido mais de 1,7 milhão de acessos.

Mais Ciência e Saúde