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Sem teste rápido para zika, é difícil combater surto, dizem médicos

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

21/12/2015 06h00

O Brasil precisa dar prioridade em dominar tecnologia para um teste rápido e em larga escala para diagnosticar e conhecer a fundo os estragos causados pelo zika vírus no país. Essa é a defesa de duas das entidades médicas: a Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose.

A doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti tem relação direta com o aumento de casos de microcefalia no país em 2015 --foram registrados 1.761 casos até a última terça-feira (8). Por conta do problema, o país está em situação de emergência em saúde pública de importância nacional

Segundo líderes das duas entidades ouvidos pelo UOL, apenas com a confirmação de casos em larga escala é que será possível entender o comportamento, o tamanho do surto pelo país e as formas de atuar na condução do problema. “Eu diria que é a urgência número zero que temos agora”, disse o presidente da SBDA, Artur Timerman.

Ele cita que o Brasil precisa de um teste menos limitado que o atual PCR --que é um teste molecular disponível apenas por dois laboratórios públicos. O exame detecta o zika vírus apenas nos primeiros cinco dias dos sintomas. Mas o teste é feito em pequena escala. Para o Norte e Nordeste, por exemplo, o teste é feito no Instituto Evandro Chagas, em Belém, e cada Estado das duas regiões têm direito a apenas uma cota de dez exames por mês. Além disso, os resultados dos exames levam até três meses para serem entregues.

Segundo o Ministério da Saúde, um dos principais eixos do plano nacional de enfrentamento à microcefalia é "incentivar a realização de pesquisas para o desenvolvimento de tecnologias voltadas ao diagnóstico do vírus e suas correlações."  

A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) do Paraná trabalha para a criação de um regente que permita o teste por sorologia, mais fácil e eficiente que o que hoje existe. A instituição trabalha em rede com outros cinco laboratórios brasileiros, e com apoio de instituições internacionais. No entanto, o exame deve levar meses para ficar pronto, segundo a assessoria de imprensa da Fiocruz. 

Informações imprecisas sobre surto

Para Nancy Bellei, coordenadora do comitê de virologia clinica da SBI, a falta de exames é um ponto que torna o entendimento da doença impreciso. “Para estabelecer o comportamento do zika vírus precisa saber se essas mães tiveram zika ou outras infecções, porque febre, lesões de pele são causadas por muitas infecções. Depois saber se a criança foi infectada, porque pode a mãe ter tido e filho não”, disse, citando a relação entre a doença e os casos de microcefalia.

Por conta da incapacidade do país em dar resultados, ela diz que hoje existem apenas "hipóteses" dos problemas acarretados pelo zika vírus. “Para se entender toda doença nova, é preciso saber quem tem a doença, e não supostamente quem tem. Precisamos saber se ela evolui da forma 'A' ou 'B'. Enquanto atrasarmos esse diagnóstico, vamos atrasar a intervenção. Quanto mais perdido ficam médicos e pessoas, mais recursos serão gasto e mais inadequações na condução haverá”, disse, recomendando:

“É o momento de investir rapidamente no diagnóstico e ter a disposição de vários serviços esse diagnóstico. Se é possível depois ter em dois, é possível ter em vários laboratórios. É questão de intervenção de governo nesse sentido”.

A coordenadora traça um paralelo com outro problema de saúde pública que preocupou o país, em 2009: o vírus H1N1. "Nós tivemos inúmeros erros na epidemia, na condução do processo. E um dos pontos frágeis foi a dificuldade do diagnóstico”, lembrou.

A infectologista alerta ainda que já é comprovado que o zika vírus pode causar infecções neurológicas em seres humanos, mas não há detalhes precisos ainda do problema.

“Existem estudos experimentais em ratos que mostram isso, então é possível. Agora, em que proporções, só vamos saber a velocidade da patogenia e quadro clínico dessa doença, se ela é está diferente dos outros locais do mundo, quando dispormos de técnicas de diagnostico. Na hora que tiver esse teste laboratorial em larga escala, vamos poder ter essas respostas. Antes disso teremos hipóteses”, finalizou.

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