Combater o estigma da Aids é prioridade em SP, afirma Padilha

Da Agência Aids

  • Adriano Vizoni/Folhapress

    O secretário da Saúde de SP, Alexandre Padilha

    O secretário da Saúde de SP, Alexandre Padilha

Displays com preservativos na antessala do gabinete e espalhadas nos andares do prédio que abriga a Secretaria de Saúde de São Paulo, herança da gestão anterior que foi mantida. Atrás de sua mesa, santos que ajudam a equilibrar a energia positiva. O próprio secretário tem em seu tornozelo esquerdo uma guia, presente da etnia Mondungu quando trabalhou na floresta e foi diretor de saúde indígena da Fundação Nacional de Saúde, em 2004. 

"Tudo é proteção. Eu acredito na vontade do povo para proteger as pessoas."

O jaleco branco com o emblema do SUS e uma gravata também estão pendurados para serem usados em um compromisso oficial.

Alexandre Padilha, formado em medicina pela Unicamp, infectologista, avalia que sua gestão poderá significar "um reencontro da cidade de São Paulo com o SUS (Sistema Único de Saúde)". Destacou ainda a celebração da diversidade na cidade e o combate ao preconceito como pontos importantes para melhorar a qualidade de vida das pessoas com HIV na maior cidade do Brasil.

Na segunda-feira (25), São Paulo faz 462 anos e, em alusão à data, a Agência Aids convidou alguns ativistas para uma rodada de conversa com o secretário municipal de Saúde.

Padilha se defendeu de medidas tomadas em sua gestão como ministro, que foram consideradas conservadoras. Disse que, com o prefeito Fernando Haddad, tem feito uma gestão ousada, citando como exemplo o projeto Transcidadania, que formou sua primeira turma de travestis nos ensinos fundamental e médio na semana passada.

A entrevista foi concedida em seu gabinete na quinta-feira (20) e contou com a presença dos ativistas Américo Nunes Neto, presidente do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids); José Araújo Lima, presidente do Epah (Espaço de Atenção Humanizada); Aline Ferreira, da Rede de Jovens Vivendo com HIV/Aids, e de Roseli Tardelli, diretora desta agência. Leia a seguir.

Agência de Notícias da Aids: O que o sr. considera o maior desafio do enfrentamento de Aids na cidade de São Paulo?

Alexandre Padilha: Combater qualquer tipo de estigma e preconceito que, infelizmente, ainda existem e afastam as pessoas das possibilidades de acesso às políticas de prevenção, testagem e, caso o teste dê positivo, fazer o tratamento o mais rápido possível.

A cidade de São Paulo tem importância para o Brasil e para o mundo em construir uma resposta para a epidemia da Aids por dois motivos. Primeiro, pela sua dimensão -- estamos na sexta maior cidade do mundo, tudo que fizermos aqui repercurtirá mundialmente. E também por ser uma cidade que convive o tempo todo com a polarização.

Por um lado, é uma cidade acolhedora e libertária, onde as pessoas encontram a possibilidade de construir vários modos de viver, amar, relacionar. Mas, ao mesmo tempo, convivem com as posturas mais repugnantes de homofobia, criminalização,  violência.

Ontem [quarta, 20], o prefeito Fernando Haddad esteve numa cerimônia simbólica, a formatura da primeira turma de travestis que participam do Transcidadania. Esse grupo se formou no ensino médio com o apoio da Prefeitura de São Paulo. É muito simbólico a gente ter uma formatura como essa na cidade do Brasil onde temos o maior registro de óbitos de assassinato da população trans, da população travesti.

Então, o principal desafio é enfrentarmos qualquer tipo de estigma, do ponto de vista dos serviços de saúde e também dos movimentos sociais. Além disso, enfrentarmos a situação que vivemos hoje de epidemia concentrada em alguns grupos que vivem em situações de altíssima vulnerabilidade e, por isso, tem sido o segmento com o maior crescimento dos casos de Aids na cidade, sobretudo a população mais jovem e a população trans.

Nós acreditamos que só é possível enfrentar uma epidemia concentrada se você coloca esses segmentos como protagonistas deste enfrentamento. Então, os jovens vão conversar com outros jovens. Temos de superar os dados de que a grande maioria dos jovens sabe que a camisinha é a melhor forma de se prevenir, mas a grande minoria utiliza o preservativo só nas primeiras relações sexuais.

A população trans, a população de travestis, também deve estar à frente, sendo protagonistas. Só assim saberemos como chegar com as práticas de prevenção e testagem nas situações de maior vulnerabilidade. Eu diria que são esses dois grandes desafios.

Américo Nunes Neto (fundador do Instituto Vida Nova): Como o sr. vê as campanhas de prevenção às DSTs/HIV/Aids na cidade?

Padilha: Eu acho que temos um grande esforço; a própria Câmara Municipal aprovou em lei algo que já é uma prática desde o início do enfrentamento da epidemia contra a Aids no mundo, que é adotar o dia 1º de dezembro como o Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

Depois de um pedido nosso, foi aprovada a ideia de que ao longo de todo o mês de dezembro se faça um conjunto de ações. Vamos ter a campanha para o Carnaval, temos campanhas para vários momentos. As campanhas têm de ser permanentes.

Eu diria que o principal aprimoramento delas se faz quando a gente vai dialogando com os movimentos, com a população-alvo, fazendo testagem. Eu defendo campanhas gerais para o conjunto da população, por exemplo, ao longo do ano, em dezembro, no Carnaval. Mas quando enfrentamos uma epidemia concentrada é muito importante ter campanhas setoriais, específicas, nas quais os protagonistas representem os segmentos mais vulneráveis.

Também acho que, numa cidade de epidemia concentrada, as campanhas não podem ser só clássicas, só de outdoor, TV, rádio. Quando a gente faz um programa como Os Caminhos da Prevenção, no qual as pessoas que vivem no espaço da cracolândia são beneficiárias do Programa de Braços Abertos e estão recuperando o seu projeto de vida na perspectiva da redução de danos, é uma forma de passar a mensagem, de chamar a atenção.

Não é simples. Às vezes, a gente acerta; às vezes, erra. Temos de construir sempre um equilíbrio fino, entre reforçar a importância da atitude da prevenção e a preocupação sobre o que é a pessoa se infectar pelo HIV, viver com o vírus, se tratar.

Ainda não temos uma cura definitiva para o HIV. Ao mesmo tempo, não se pode reduzir a autoestima, decretar um estilo de vida das pessoas. Não é mais uma morte anunciada – a gente sabe que cada vez mais conseguimos ter uma qualidade de vida melhor. Mas isso, às vezes, é trazido para um conjunto da população como uma mensagem de que não é tão grave mais ser portador do HIV.

Esse é o equilíbrio fino. Eu defendo que se mostre as pessoas que vivem com HIV numa perspectiva positiva também. Mas que os tratamentos e serviços de saúde precisam melhorar cada vez mais, para garantir a qualidade de vida. Esse equilíbrio fino tem de ser sempre construído. Eu acho que a melhor forma de fazer isso é colocar as pessoas em situação de maior vulnerabilidade como protagonistas das campanhas.

José Araújo Lima (presidente do Epah): Dentre os ministros que eu conheci, o sr. é o que tem mais facilidade de se comunicar. Fico vendo essa facilidade e pensando na situação da garota do Hospital Campo Limpo, que causou grande constrangimento, para não dizer vergonha,  para a cidade. Ela denunciou que sofreu violência durante o parto e até hoje não nos deram uma resposta sequer da apuração do caso. O que falta para a sua equipe ter uma boa comunicação como a que o senhor tem para deixar a sociedade civil e a imprensa a par da decisão tomada? [A denúncia foi publicada pela Agência de Notícias da Aids em 24 de setembro de 2015]

Padilha: Primeiro, esse fato nos deixou indignados. Quando foi denunciado, o presidente da autarquia hospitalar tinha acabado de assumir o cargo. Eu estava há menos de um mês na Secretaria da Saúde. Mas está de parabéns a Agência Aids e o movimento, por ter conseguido detectar e receber a denúncia. Isso já permitiu uma ação muito enérgica por parte do Programa de DST/Aids, da autarquia, dos programas de residência médica, do Conselho Municipal de Saúde.

A gente não admite qualquer preconceito e atitude antiética ou de negligência de qualquer profissional de saúde em relação a qualquer usuário do SUS e sobretudo em relação ao tema do HIV/Aids, porque as práticas, as condutas e protocolos são muito conhecidos.

Segundo, foi instalado de forma imediata um processo de apuração. No final do ano, teve uma primeira parte das ações preliminares. A superintendência da autarquia considerou insuficiente a apuração realizada e, por isso, determinou um novo processo. O fato que ocorreu é extremamente grave e por isso temos de ter uma apuração detalhada.

Quanto à garota [a parturiente], a coordenadora do nosso Programa de DST/Aids [Eliana Gutierrez] foi visitá-la, conversou com ela. Pode ter certeza de que nós seremos muito rigorosos nesta apuração. Isso é um episódio que, se comprovado, merece punição extremamente imediata, não só do profissional, mas que pode caber ao serviço e certamente pode suscitar um processo ético também, independentemente do processo administrativo dentro da autarquia. Eu acho que teve uma ação enérgica da superintendência da autarquia em ter considerado o primeiro processo insuficiente e exigido  mais detalhes. 

Aline Ferreira (da Rede de Jovens SP+).: A Rede de Jovens com HIV vem se assustando com o aumento de casos de HIV/Aids em mulheres. Na nossa vivência, esses casos têm sido diagnosticados principalmente no pré-natal, ou seja, a testagem não foi feita antes. Outra preocupação é o jovem em conflito com a lei. Como a gente acolhe e cuida do jovem com HIV em situação de cárcere, seja na Fundação Casa ou em presídios? São locais onde não conseguimos entrar e nos quais temos dificuldade de acessar dados.

Em relação às mulheres, um balanço do Ministério da Saúde, no começo de 2011, mostrava isso. Na faixa etária de 15 a 19 anos, tínhamos maior detecção de mulheres com HIV do que homens no país e a maior parte acontecendo no pré-natal. Com tantos reforços nos cuidados em relação ao pré-natal, eu acredito que São Paulo tem condição de cumprir as metas de acabar com a transmissão vertical. Temos discutido com alguns serviços, por exemplo, a Maternidade Cachoeirinha, que pode antecipar essa meta e expandir as formas de sensibilização das mulheres, sobretudo as mais jovens, em relação à testagem e à prevenção.

Em relação à testagem entre jovens, estamos fazendo uma série de iniciativas. Fizemos uma grande parceria com a turma do "rolezinho", do Funk Cidadania, estamos levando as nossas unidades móveis de testagem para os grandes eventos, tivemos parceiros no lançamento da campanha junto com o Unicef [Fundo das Nações Unidas para a Infância]. Músicos bastante conhecidos, que dialogam com essa população jovem, assumiram a campanha, são nossos padrinhos e madrinhas.

Segundo, a nossa decisão de colocar em todos os terminais de ônibus a distribuição gratuita dos preservativos [os Jumbos] vai fazer com que São Paulo seja a cidade em que mais se distribui preservativos no mundo inteiro, eu não tenho dúvidas. A gente sabe que o jovem não procura a unidade de saúde, não quer entrar na unidade, principalmente naquela do bairro onde ele mora -- ele fica com vergonha, com medo de encontrar alguém conhecido. Então, ter o acesso à camisinha facilitado, de forma gratuita, onde o jovem pode pegar a quantidade que quer, na hora que quer, sem ninguém vê-lo pegando, é a melhor forma possível.

Outro dia, eu estava conversando com a Escola da Cidade, aqui na frente, uma escola de pós-graduação em urbanismo e arquitetura. Tinha o display para dispensar a camisinha lá, e os alunos e professores disseram que tem de arrumar um jeito de botar dentro do banheiro, porque mesmo ali, no corredor,  o pessoal ficava com vergonha de pegar. Isso é numa escola superprogressista, que discute a forma urbana na cidade e nos espaços públicos. Mesmo num espaço como esse as pessoas têm vergonha, receio, acabam não pegando a camisinha se outros vão ver, se o professor vai ver.

A segunda preocupação são os jovens homens que fazem sexo com homens, que é o principal público da epidemia hoje. Estamos tentando novas tecnologias para alcançá-lo, como o aplicativo "Tá na Mão". A informação da prevenção o jovem tem, as pesquisas mostram isso, falta atitude de prevenção. Então, fazer as campanhas, a divulgação e sensibilização usando as linguagens que os jovens utilizam para decidir suas atitudes pode ser um caminho, e o aplicativo é uma prova disso.

O terceiro público de que você falou [jovens em conflito com a lei] depende muito de uma articulação com os governos estaduais, não só a prevenção de DST/Aids, mas também de tuberculose e outras doenças infectocontagiosas e o cuidado integral à saúde. O Estado de São Paulo tem um volume impressionante de pessoas nessa situação.

No caso das penitenciárias, um terço da população está lá sem definição de pena, esperando julgamento, e não deveria estar lá, a priori. Então, é uma situação que preocupa, a gente procura fazer articulação, insistir com o governo do Estado para entrar mais nestas áreas e acredito que os ativistas que lidam com a população em privação de liberdade e a pastoral carcerária podem contribuir muito para que a gente possa lidar com esses temas nestes espaços.

Américo Nunes: Temos uma grande dificuldade de recursos humanos na área da saúde e principalmente na de Aids. O que o sr pensa em relação à equipe multiprofissional? Temos visto muita dificuldade para as assistências de referência e contrarreferência, em que o paciente fica perambulando de unidade em unidade para ter atendimento de outras especialidades.

Eu diria que esse é maior desafio assistencial que nós temos. Felizmente, cada vez mais, as pessoas com HIV que se tratam vivem por mais tempo. Por isso, também começam, cada vez mais, a terem contato com outros problemas de saúde e necessidade de cuidados que ultrapassam aquilo que os serviços de referência DST/aids se organizaram inicialmente para oferecer, que são  o cuidado em torno das doenças mais infecciosas e o tratamento com os antirretroviais.

A atenção básica é uma perspectiva importante nesse sentido, pois o ideal é que esse cuidado aconteça mais perto de onde a pessoa mora ou trabalha. Ontem [21] foram publicadas as novas diretrizes da atenção básica na cidade de São Paulo. Elas buscam estabelecer a ideia de que existe uma rede no município, com características, bairros, histórias e composição de equipe muito diferentes.

Metade das unidades básicas de saúde tem a estratégia Saúde da Família e a outra metade não tem. A equipe da atenção básica ainda é formada por médico generalista, pediatra, ginecologista e não tem agente comunitário de saúde. Então, são estruturas e arranjos muito diferentes, mas você precisa ter uma política sólida para esses arranjos diferentes.

Essas novas diretrizes estabelecem, por exemplo, o papel de outros profissionais da equipe multiprofissional, que não só o médico ou o enfermeiro. É muito importante a presença de fisioterapeuta, terapeuta, terapeuta ocupacional, nutricionista, psicólogo, eventualmente outras especialidades como psiquiatra e geriatra, pois na atenção básica eles têm um papel a cumprir, mas eles têm de ser um apoio à equipe multiprofissional que acompanha aquele número de pacientes, famílias e territórios.

Acho que vai ser um avanço para a cidade de São Paulo fazer a testagem de HIV nas unidades básicas de saúde. A gente sabe que sempre precisa aprimorar quando universaliza um serviço como esse. Hoje, se tem algo importante para prevenção e resposta da epidemia é você testar e tratar o mais rápido possível, pois além de o paciente ter uma qualidade de vida melhor, reduz o risco de transmissão para outras pessoas.

O outro ponto são os serviços de referência e o desafio de uma qualificação permanente. Foi feito um concurso nessa gestão, para profissionais dos serviços de referência, para vários profissionais, sobretudo médicos infectologistas. Estou saindo daqui hoje para inaugurar um novo hospital Hora Certa na região de Santo Amaro, junto com o prefeito Fernando Haddad. A gente vai ter, até 2016, 30 hospitais da Rede Hora Certa espalhados, sobretudo, na periferia. Acredito que a estruturação dessa rede especializada vai ser muito importante também para o paciente que vive com HIV.

Agência Aids: Secretário, essa não é uma resposta que demora muito para uma pessoa que tem Aids?

Todo mundo que tem uma doença quer e precisa de uma resposta mais imediata possível. As pessoas que vivem há muitos anos com HIV sabem o quanto demorou para que a cidade de São Paulo tivesse algumas dessas respostas. Eu diria que a gente está avançando num ritmo bastante acelerado. Foi importante nesse período a universalização da testagem na atenção básica, a expansão da Rede Hora Certa, de levar ao Hospital Dia a atenção especializada e exames especializados para o mais próximo de onde as pessoas vivem. Eu sou um insatisfeito, sou sempre uma pessoa que quer avançar mais, melhorar mais e num tempo mais curto possível.

José Araújo: A história do Brasil na assistência e na prevenção  foi algo fantástico. Eu me lembro muito bem de uma campanha feita para as travestis chamada "Olhe bem, a gente merece dignidade" que foi lançada pelo Ministério da Saúde. Nela, tinha o logotipo do governo e o próprio ministro na época abraçado com as travestis. Quando se mostra esse cartaz em uma universidade de Tóquio, por exemplo, todo mundo admira muito, primeiro por ter a marca do governo e depois por ter o ministro ao lado. Na administração do sr, como ministro, o conservadorismo tinha tomado conta de Brasília. De repente, uma campanha de prostitutas em Alagoas foi por água abaixo e levou com isso grande parte de todo o Departamento de Aids. Hoje, o sr está em uma administração do prefeito Haddad, que eu acho uma pessoa progressista e interessante. É possível fazer uma campanha no município, mais do que cara-a-cara, assumindo, literalmente, esse público que esta sendo infectado, visivelmente como governo?

Isso a gente já faz e eu fiz como ministro da Saúde também. Você falou de fotos e imagens, eu tenho várias fotos e várias imagens. Uma das primeiras atividades que eu fiz como ministro da Saúde foi no Dia da Visibilidade Trans. Eu vim aqui em São Paulo, na Casa Rosa, nas primeiras atividades de janeiro, e a gente lançou um livro com o logotipo e as ações do Ministério. Esse livro contava histórias que, inclusive, ajudavam muitas campanhas de prevenção. Nós tivemos na época do Ministério uma sequência de outras campanhas com as populações mais vulneráveis.

Quero deixar bem claro que a mudança que eu fiz no Departamento de DST/Aids não foi por causa de alguma campanha A, B ou C.  Eu não tenho nenhuma crítica e respeito muito o trabalho feito pelo diretor anterior, mas eu achava que o Fábio Mesquita tinha condições de dirigir melhor os desafios que nós tínhamos para o Programa de DST/Aids naquele momento. Quando ele ficou disponível, eu fiz questão de leva-lo para o programa. Vou deixar claro também que teve sim uma grande polêmica em relação a uma proposta de campanha feita e elaborada por movimentos e organizações de prostitutas, em uma oficina feita pelo próprio ministério. Tanto que fizemos várias oficinas de discussões para campanhas e ali teve uma decisão, e eu sei de todo o debate em torno dessa decisão, mas foi uma decisão da equipe de comunicação do ministério e minha de achar que estava errado ter uma mensagem do ministério dizendo o seguinte: "Sou feliz sendo prostituta".

Nós avaliamos que, mesmo entendendo a motivação que a mensagem propunha de tentar reduzir estigma em relação a profissionais do sexo, não cabia ao Ministério da Saúde estabelecer a condição de felicidade ou não da pessoa, relacionada ao modo de viver que ela tem. E as prostitutas que são infelizes? Não tem infelicidade?

Eu sei da polêmica que teve, mas as minhas atitudes, tanto no Ministério quanto na Prefeitura de São Paulo, mostram que nosso maior desafio é enfrentar os estigmas. O trabalho do prefeito Fernando Haddad e da Secretaria Municipal da Saúde tem sido bastante ousado e estamos abertos a sugestões de novas ousadias. Ontem, estávamos todos na formatura da primeira turma do Transcidadania. Em outubro do ano passado, inauguramos o laboratório de hormonoterapia, dando total protagonismo à população trans. Estamos abertos e queremos a contribuição do movimento para outras ousadias em relação a isso.

Aline Ferreira: Nós, da Rede de Jovens, entendemos a importância e o potencial da meta 90-90-90, mas incomoda o modo como ela está sendo colocada em prática. Por exemplo, quando o jovem é diagnosticado e imediatamente é medicado, sem a existência de um "contrato", entre usuário e médico; sobre as possibilidades de medicação e como aquilo vai interferir na vida dele; ou a obrigatoriedade de mostrar o exame de CD4 na hora da dispensação da medicação. Parece que a população vivendo com HIV está sendo tratada como os vetores. Existe até uma piada entre nós de que "tão semelhante quanto a dengue é quem vive com HIV". Qual é a dificuldade dessas três metas, que tem um potencial tão importante, de serem colocadas na prática de uma forma mais humanizada e próxima da população?

Eu acho a sua fala muito relevante e um aspecto muito importante. É a primeira vez que eu ouço alguém falar sobre isso dessa maneira. Eu sou infectologista, daqueles formados com a avaliação de que você deveria introduzir o mais rápido possível a medicação. Porém, naquele momento, a gente não tinha evidências, mas muito medo dos eventos adversos e da resistência aos antirretrovirais.

Agora, estou mais do que convencido. Tem evidências muito claras de que testar e tratar é o melhor a se fazer no caso de um portador do vírus HIV. Isso não tem relação nenhuma com o que é feito com o mosquito da dengue, afinal, tudo que é feito com o mosquito da dengue é para matar o mosquito. Agora, tratar é muito bom para quem vive com HIV, pois a pessoa tem chance maior de ter uma vida mais longa.

Hoje, nós temos medicamentos com forma de administração muito melhor do que tínhamos no começo do enfrentamento da epidemia. As evidências mostram que você se tratar também reduz o risco de transmitir para outras pessoas. Eu entendo a perspectiva que você falou aqui, de serem vistos como vetores, a gente sabe a angústia de quem vive com HIV, da preocupação de, às vezes, transmitir a infecção mesmo com todos os cuidados de prevenção. Então, a pessoa saber que, ao se tratar ela também está reduzindo o risco de transmitir, é positivo. Claro que a gente tem de fazer tudo respeitando o usuário e estabelecendo um contrato, mas isso com qualquer doença e o principal papel do profissional de saúde é aliviar o sofrimento e aumentar a autonomia do paciente.

Américo Nunes: Os grandes centros ainda não estão preparados para fazerem o manejo da PEP (profilaxia pós-exposição) e a população também não conhece muito sobre ela. Nessa linha também, o que a secretária tem pensado em relação à PrEP (profilaxia pré-exposição) que possivelmente será implantada neste ano no Brasil?

Em relação à PEP, a gente avançou muito e é importante impedir qualquer tipo de retrocesso -- vocês sabem que tem um movimento no Congresso Nacional hoje para retroceder esse direito, usam dos argumentos mais absurdos, sobretudo em relação à violência sexual, o que, além de ser desrespeito, afronta um direto que tem sido de todo mundo, como o acesso ao SUS, ao que nós temos de terapias para evitar gravidez indesejadas ou evitar doenças sexualmente transmissíveis. É uma mistura de ignorância talvez com convicções religiosas que negligencia o fato de que 70% dos agressores de violência sexual contra as mulheres, na cidade de São Paulo, são pessoas conhecidas das vítimas.

Estamos em processo de sensibilização dos profissionais de saúde, equipes para o conhecimento da oferta da PEP consentida – de casos que não foram de violência sexual. A gente sabe que tem preconceito e estigmas em relação a isso, a gente precisa vencer esse estigma. E estamos em discussão com o Programa Nacional de DST/Aids, junto ao Ministério da Saúde, para a adoção da PrEP.

Agencia Aids: As políticas públicas na cidade de São Paulo relacionadas à saúde merecem parabéns nesse aniversário?

Merecem parabéns o trabalho e o esforço tanto da gestão municipal quanto dos trabalhadores que estão na rede . Temos muito clareza de que essa gestão pode significar um reencontro da cidade  com o SUS, na política de atenção básica, assistência farmacêutica e emergência pré-hospitalar. São Paulo se negou a ter UPA (Unidade de Pronto Atendimento) 24h, estamos derrubando o muro que foi construído entre o pronto-atendimento da AMA (Assistência Médico Ambulatorial) e da UBS (Unidades Básicas de Saúde) de cuidado continuado.

As 87 AMAs e UBSs que viviam no mesmo prédio eram desintegradas, tinha uma parede entre elas. Nós derrubamos essa parede para promover a integração. Então, é um reencontro com o SUS.

Até o final de 2016, vamos ter consolidado a Rede Hora Certa de hospitais na periferia, que já reduz e vai reduzir ainda mais o tempo de espera para algumas cirurgias e exames. Estamos reestruturando a atenção básica com as unidades novas de saúde. O prefeito está construindo hospitais em territórios que não tinham um leito, como o Hospital de Parelheiros, na zona sul, o Hospital de Brasilândia, na zona norte, o Hospital Alexandre Maio, na zona leste. E entregou o Hospital Santa Catarina, depois de anos sem um serviço hospitalar novo na cidade.

Nós assumimos um compromisso muito forte de reorganizar o SUS para celebrar a diversidade na cidade em relação às políticas de DST/Aids, com o Programa de Braços Abertos, o Ambulatório de Hormonoterapia, Saúde da População Imigrante e um grande esforço de retomar o papel público na gestão.

Com a valorização dos trabalhadores, aprovamos um plano de carreira com o qual eles sonhavam há treze anos. Em 2015, isso significou investir 50% a mais do orçamento na folha de pagamento da administração direta da prefeitura. Os concursos que faremos agora são com esse plano de carreira, ou seja, o médico vai ter uma carreira de Estado. Tem a retomada do controle da Secretaria Municipal da Saúde sobre aqueles serviços que são feitos em contrato de gestão com as Organizações Sociais.

Nós fizemos um processo importante de mudanças agora no ano de 2015. A cidade de São Paulo vai ter territorialização nas parcerias, ou seja, cada território, cada supervisão vai ter um parceiro apenas, vindo de chamamentos e editais públicos e concorrência, o que não tinha. Você tinha prédios em que na mesma unidade havia duas OSs, uma cuidava do CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) e outra da AMA. Agora, no território interior da supervisão regional, da atenção básica, a média complexidade e a atenção hospitalar vão ter um parceiro só. Isso é aumentar a capacidade de controle da eecretaria.

Está de parabéns o esforço dos trabalhadores, gestores e conselheiros em construir, acompanhar e fiscalizar essa mudança. Alguns resultados já existem e outros virão com essas mudanças com a nova estrutura da rede de saúde.

Agencia Aids: De 0 a 10 que nota o senhor dá a sua gestão?

Eu não gosto de dar nota porque eu nunca me conformo com as notas. Duas características me impedem de dar nota: primeiro porque eu sou virginiano, o que é ser muito perfeccionista, então eu nunca vou me dar uma boa nota. Segundo eu sou humilde, o que faz eu pensar que não tenho de dar nota para mim ou para minha gestão. Quem tem de fazer isso é a população.

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