O drama de uma mulher da gravidez ao nascimento da filha com microcefalia

Thiago Varella

Colaboração para o UOL, em Mogi Guaçu (SP)

  • Arte UOL

Nas estatísticas, Mogi Guaçu, cidade que fica a 163 km de São Paulo, apresenta quatro casos de dengue para cada 100 mil habitantes. A cidade tem um pouco mais do que 100 mil habitantes. Foi nesse contexto, em um bairro periférico da cidade, que Adélia M. (nome fictício) engravidou. Era o começo de um drama que culminaria em mais um caso de microcefalia no país.

Janeiro de 2015: a gravidez e a demissão

Aos 19 anos, mãe de um menino de 5, Adélia ganhava a vida trabalhando em uma tradicional churrascaria da cidade, localizada na beira de uma rodovia. Após se envolver com um rapaz, a jovem engravidou.

Sem ter carteira assinada, Adélia perdeu o emprego assim que comunicou seu empregador sobre a gravidez.

Arranjar outro emprego estava fora de cogitação. A jovem se viu contando apenas com a ajuda da família, já que o pai da criança também a abandonou assim que soube da gravidez.

Maio de 2015: coceira insuportável

Aos quatro meses de gravidez, Adélia teve a única pequena complicação de saúde de toda a gestação. Do nada, sua perna começou a coçar de maneira quase insuportável. A estranha condição durou três dias. A jovem procurou um médico, pelo SUS, com medo de ter dengue. Sua mãe, sua avó e seu filho tiveram dengue em 2015, sem contar os vizinhos.

No pronto-socorro, o médico descartou a doença e receitou uma injeção de dipirona e Buscopan. Quando a coceira passou, a jovem ainda sentiu um pouco de dor nas pernas, mas por poucos dias.

Dali, até o dia do parto, tudo correu normalmente na gravidez. O ultrassom não detectou nenhum problema no bebê.

Outubro de 2015: cabeça pequena

No dia 30 de outubro, com 40 semanas e três dias de gravidez, Adélia deu à luz uma menina em uma cesárea realizada na única maternidade da cidade que atende pelo SUS. No dia, a mãe não percebeu muito bem, mas a equipe médica fez uma série de exames com a recém-nascida.

Somente no dia seguinte, o pediatra que se tornaria o médico da bebezinha deu a notícia:

"Mãe, sua filha nasceu com a cabeça pequena. Menor do que o comum" , disse.

Adélia desabou. Dali em diante, não conseguiu ouvir mais nada de tanto que chorava.

O médico, então, precisou chamar a irmã da jovem, tia da recém-nascida, para dar o diagnóstico: microcefalia.

Dezembro de 2015: viagens da "criança especial"

Finalmente, após dois meses, Adélia consegue marcar uma consulta para a filha no AME (Ambulatório Médico de Especialidades). Isso porque contou com a ajuda de funcionários do pequeno posto de saúde de seu bairro que, sensibilizados com a história, que já havia então ganhado as redes sociais, conseguiram agendar a consulta.

A mãe recebeu do médico a notícia de que a filha era uma "criança especial" e que iria demorar mais para conseguir fazer tudo o que um bebê saudável faz. Ouviu ainda que vários motivos podem ter levado a menina a ter microcefalia. E que não necessariamente foi o tal zika vírus.

Depois da consulta, começou o périplo de exames. No dia 17 de dezembro, a bebê precisou ir até Divinolândia, cidade que fica a 107 km de distância, fazer o exame de Potenciais Evocados Auditivos de Tronco Cerebral, o chamado BERA. Nove dias depois, outra viagem. A família foi até Rio Claro, a 84 km de Mogi Guaçu, para a pequena ser submetida a um exame do coração.

Janeiro de 2016: apoio

A menina, mesmo bem pequena, vai frequentar a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Mogi Guaçu para receber os estímulos necessários. Além disso, continua fazendo os exames necessários pelo SUS. O acompanhamento médico com o pediatra é feito na AME de Mogi Guaçu.

Hoje: "ela é perfeitinha"

Adélia parece não perceber bem o que o futuro aguarda para ela e a filha. Por enquanto, seu maior desafio é conseguir dinheiro. Como a filha precisa de atenção especial, a mãe não consegue procurar emprego. Ela aguarda receber do governo o BPC (benefício de atenção continuada) por ter uma filha deficiente.

Além disso, vai entrar na Justiça para receber do pai da bebê uma pensão. Ela contou que o rapaz sabe da condição da filha, mas até agora, não quis saber dela.

Sobre a menina, Adélia, talvez por desconhecimento ou por pura fé, não parece acreditar que vá ter problemas. Ela sente que a bebê não tem nada.

"Ela é perfeitinha. Se você olhar, vai ver uma criança normal. Ela apenas tinha a linguinha presa. Acho que ela vai ter um pouco de atraso para falar e andar. E só", afirmou.

Por isso, Adélia, que é evangélica fervorosa, pede para sua filha a mesma coisa que quer para seu filho, que, hoje, tem seis anos.

"Espero que os dois cresçam, estudem e trabalhem. Eu abandonei os estudos para trabalhar. Abandonei tudo. Não quero que eles sofram como eu", disse.

No fundo, Adélia M. só quer ter uma vida normal. Talvez por isso pediu para não ter o nome divulgado, não entenda o motivo do assédio da imprensa, não procurou outras mães com filhos com microcefalia e se recusa a acreditar na real deficiência da filha.

 

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