Floresta em Uganda pode ser chave para vacina contra o vírus da zika

Simone Schlindwein, de Uganda

  • James Akena/ Reuters

    Pesquisador recolhe armadilhas de mosquitos na floresta de Zika, em Uganda

    Pesquisador recolhe armadilhas de mosquitos na floresta de Zika, em Uganda

Pessoas que moram nas proximidades da floresta de Zika parecem ser extremamente resistentes ou até mesmo imunes à doença. Nelas pode estar a chave para o desenvolvimento de uma vacina.

Mais de 600 especialistas se reúnem no Instituto Pasteur, em Paris, nesta segunda e terça-feira, para uma conferência internacional sobre o vírus da zika. Apesar das numerosas pesquisas, os mecanismos do vírus ainda são pouco conhecidos.

No colóquio também estão presentes pesquisadores em Uganda, onde o agente patogênico foi registrado pela primeira vez. No país africano, a presença do vírus nunca gerou epidemias, e esse fato é visto como de grande importância para se chegar a uma vacina contra a doença.

Com somente 25 hectares de superfície, a floresta de Zika, em Uganda, deu nome a um dos vírus mais perigosos do mundo. A área se estende ao lado do Lago Vitória, a poucos quilômetros da pequena cidade de Entebbe, perto do aeroporto internacional. Na língua local, o luganda, zika significa "crescer excessivamente".

Desde 1937, a floresta é uma reserva natural sob a direção do Instituto de Pesquisa sobre Vírus de Uganda (Uvri, na sigla em inglês). Nela, os pesquisadores encontram regularmente vírus perigosos, incluindo o zika.

Zika no jardim

Filha de um guarda florestal, a jovem Ester Kilabo, de 15 anos, considera a floresta de Zika o seu jardim. Lá ela anda de alpargatas e coleta cogumelos, frutas silvestres, figos - e larvas de mosquito. No meio da floresta há uma torre que se assemelha a um mastro de telefone.

No alto dela, os cientistas do Uvri colocaram recipientes com água, nos quais os mosquitos depositam seus ovos, relata a jovem. Ela está familiarizada com os mosquitos perigosos que se reproduzem na floresta e conhece o nome científico deles: aedes e anopheles. "Eu não tenho medo desses mosquitos. As pessoas vivem perto da floresta há uma eternidade e nunca houve doenças", explica.

Todas as quartas-feiras, Kilabo escala a torre de mais de 30 metros de altura para recolher os recipientes, que ela depois leva para os cientistas. O instituto mundialmente conhecido está localizado a apenas dez quilômetros dali, em Entebbe. Lá, virologistas ugandeses de ponta, como Julius Lutwama, pesquisam há décadas os vírus mais perigosos do mundo, entre eles o ebola, o vírus de Marburg e o da febre amarela - e também o zika.

O zika foi identificado pela primeira vez em 1947. Isso aconteceu por acaso, explica Lutwama: naquela época, os virologistas ugandenses estudavam a febre amarela após uma epidemia ter eclodido na África Ocidental. Na ocasião, eles encontraram um novo tipo de vírus no sangue de um macaco da floresta de zika e o chamaram de zika. Infecções em seres humanos não eram conhecidas.

Somente em 1952 foram retiradas amostras de sangue humano que continham o vírus, na Tanzânia. As amostras foram analisadas no Instituto de Pesquisas sobre Vírus de Uganda, que é responsável por toda a África Ocidental. Em seguida, os cientistas encontraram o agente também em habitantes de Uganda - em Entebbe e Kisubi, perto da floresta de Zika. As análises de 1952 mostram que, das 84 pessoas analisadas, 50 apresentaram anticorpos para o zika no sangue e todos os examinados acima dos 40 anos eram imunes ao vírus.

Brasil tornou o zika vírus uma preocupação mundial

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Anticorpos ugandenses

Depois quase nada se ouviu sobre o zika durante quase meio século. Da descoberta em 1947 até 2007 houve somente 14 casos confirmados de pessoas infectadas em vários países africanos e asiáticos.

Nas pequenas ilhas tropicais da Micronésia, em 2007, registrou-se o primeiro grande surto de zika, com cem pessoas infectadas. Em 2013, a doença eclodiu na Polinésia, onde foram notificados quase 9 mil casos. No inicio de 2015, a enfermidade foi identificada no Brasil, onde nove meses depois surgiu uma onda de nascimentos de bebês com microcefalia.

O zika deu a volta ao mundo, constata Lutwama. Em 2015, o principal virologista de Uganda foi convidado para ir aos Estados Unidos, onde ajudou seus colegas norte-americanos do centro de emergência para o combate ao zika. Segundo o especialista, a questão decisiva é por que, em Uganda, o vírus nunca gerou grandes epidemias, como é o caso agora na América do Sul.

Em Entebbe, ele tenta encontrar a resposta para essa questão. "Para a pesquisa em Uganda surgem questões inteiramente novas", explica Lutwama: por que existem tão poucos casos no país? Por que as infecções são muito fracas? "Aqui ninguém morre da doença, e uma epidemia passa quase despercebida", comenta o pesquisador. A tese dele é que, no país, há muitos tipos de vírus semelhantes ao zika, o que provavelmente cria uma espécie de imunidade.

Por esse motivo, Lutwama viaja entre Uganda, Estados Unidos e Brasil para descobrir como surgiu essa imunidade entre os ugandenses. Ele espera que esses anticorpos possam ajudar a combater a epidemia na América do Sul.

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