Estudo encontra zika no cérebro de ratos; teste agiliza criação de vacina

Paula Moura

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Kyoto University/Takehito Kaneko/AFP

Compreender como o vírus da zika funciona no organismo humano e como poderia ser criada uma vacina contra ele são os desafios enfrentados por cientistas do mundo inteiro que pesquisam o assunto. Uma das primeiras pesquisas com zika em camundongos mostra o vírus no cérebro, além de danos no órgão e nos olhos, em estudo publicado na revista Plos Neglected Tropical Diseases nesta quinta-feira (5).

Segundo os cientistas liderados por Roger Hewson, da Saúde Pública da Inglaterra em Porton Down, no Reino Unido, a gravidade das doenças associadas à infecção pela zika tornou urgente encontrar um modelo animal para testes. Isso pode melhorar o conhecimento de como o vírus causa os sintomas da doença em humanos e acelerar o desenvolvimento de vacinas e tratamento.

Normalmente, os camundongos saudáveis são resistentes à infecção por zika pela pele. Portanto, com base na experiência com vírus relacionados à zika, os pesquisadores provocaram mutações em certos genes do sistema imunológico para testar se os animais poderiam servir como modelos suscetíveis ao vírus. O grupo focou nos animais chamados A129, que têm mutações em um dos receptores interferon --liberados quando uma célula é atacada por um vírus, eles "avisam" outras células para aumentar sua imunidade.

""Embora camundongos A129 apresentem deficiência inata da resposta do interferon, eles mantém sua imunidade adaptativa e foram usados com sucesso como modelos para o teste de vacinas e antivirais", comenta Hewson. A conclusão é que o estudo fornece detalhes sobre como um modelo animal pode acelerar intervenções futuras contra a zika.

Ada Alves, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz, "esse tipo de estudo é muito válido para estudar a doença, mas tem que ter reserva para estudar vacina. Os camundongos têm uma deficiência imune e isso pode influenciar o que pode acontecer com uma vacina". Em termos gerais, a vacina pode ser mais fraca ou mais forte do que o necessário para pessoas com sistema imune completo. "Mas é válido porque muita coisa da doença pode ser estudada", diz.

Os camundongos imunodeficientes podem ajudar a responder perguntas ainda sem resposta para uma doença que se sabe tão pouco. Entre elas, cita Ada, qual mecanismo dispara o processo de microcefalia e de síndrome de Guillain-Barré? Por que nem todas mães infectadas com zika têm filho com microcefalia? "A biologia do vírus, o que ele causa, respostas imunes, o que seria protetor, o que não seria, de zika? Falta descobrir tudo praticamente", completa.

Como o estudo foi feito

Foi injetada nas pernas traseiras uma dose de zika similar à transmitida pelo mosquito ao transmitir o vírus da Febre do Nilo Ocidental. Os cientistas observaram que os camundongos começaram a perder peso depois de três dias. Além disso, a temperatura corporal aumentou um pouco no quarto dia e depois caiu para abaixo do normal.

Todos os animais A129 morreram após seis dias de infecção, enquanto os que não apresentavam a mutação não mostraram nenhum sintoma clínico após receber a mesma dose. O RNA viral --que indica a invasão do vírus no tecido e suaa multiplicação-- foi detectado em todos tecidos testados no terceiro dia. O teste abrangeu sangue, baço, fígado, ovário e cérebro. Segundo a pesquisadora brasileira, outro ponto positivo do estudo é mostrar para onde vai o vírus e o que ele causa nos órgãos.

Mais vírus no cérebro que no sangue

Os níveis de RNA viral eram maiores no cérebro do que no sangue e continuaram a aumentar até a morte dos animais. Os níveis são parecidos dos encontrados em humanos, tanto no soro sanguíneo, quanto no leite materno, sêmen e urina. Também foram observadas anomalias no cérebro e nos olhos dos camundongos A129 infectados.

"É um passo importante para a pesquisa do vírus da zika e permite testes in vivo e a avaliação de possíveis vacinas e terapias", comentaram Fatah Kashanchi, da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, e M. Javad Aman, da empresa americana Integrated BioTherapeutics. O próximo passo seria, segundo eles, que as pesquisas examinem até que ponto as anomalias no cérebro dos camundongos refletem as anomalias causadas no sistema nervoso central dos humanos.

Outro estudo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, criou um modelo de camundongo que poderá ser usado para pesquisar futuras vacinas. Em Pernambuco, pesquisadores brasileiros da Fundação Osvaldo Cruz estão estudando fêmeas prenhas de camundongo infectadas com o vírus da zika e na ausência dele.

Pesquisa brasileira mostra que zika mata células cerebrais

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