Disque Saúde do RJ não tem serviço em inglês, e falta informação sobre DSTs

Ana Paula da Silva

Da Agência Aids, no Rio de Janeiro

  • Matthew Childs/Reuters

    Apesar da Olimpíada, programa de saúde não tem atendimento em inglês para turistas

    Apesar da Olimpíada, programa de saúde não tem atendimento em inglês para turistas

A campanha #EuAbraço, de prevenção  das DSTs/aids, pelo respeito à diversidade e contra a discriminação durante a Rio 2016, tem números olímpicos: 9 milhões de preservativos, cem voluntários, 36 máquinas dispensadoras de camisinhas, mais de 200 serviços de saúde emergenciais abertos ao público, principalmente para o uso da PEP (profilaxia pós-exposição), para quem se expôs ao risco de infecção por HIV. Resta saber se, na prática, o acesso dos turistas aos serviços e insumos estará realmente garantido.

Quem precisar de ajuda e recorrer ao Disque Saúde (136), divulgado nos folhetos da campanha, já começa mal. O serviço não tem atendimento em inglês e, mesmo em português, as atendentes não têm a mínima noção do que seja um Programa de DST/Aids, quem dirá PEP.

A Agência Aids testou o 136 neste domingo (8). Ao ouvir a palavra PEP, que consiste no uso de antirretrovirais em até 72 horas após a exposição ao risco, durante 28 dias, a atendente pede para repetir, depois para soletrar e não entende do que se trata, nunca ouviu falar. Ao ser informada que faz parte da prevenção ao HIV/aids, diz que esse "tipo de campanha" costuma ser da esfera municipal e pede para ligar na Secretaria da Saúde do meu município, no caso o Rio de Janeiro, onde disse que estava. Detalhe: dá o número errado da secretaria.

Coordenadora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, responsável pela campanha ao lado do Unaids (Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids), Adele Benzaken reconhece que o 136 deveria ter atendimento em inglês durante as Olimpíadas. "Essa foi uma grande falha que se deixou passar.  É um problema estrutural", disse ela.

Agência Aids
9 milhões de preservativos serão distribuídos durante campanha contra DSTs na Rio 2016

No site

Outra fonte de busca do serviço da PEP, o site do Departamento de Aids do Ministério da Saúde também não se mostrou tão eficaz.  Ele tem uma lista "Onde encontrar a PEP", com mais de 150 serviços no Rio de Janeiro. Neste domingo (8) ligamos para os dez serviços 24 horas que ali constam. Na maioria, o telefone chamou até cair a ligação.

Dos quatro que atenderam, o da UPA da Rocinha soube de imediato o que é PEP. Informou que ali, no domingo, não tem atendimento para a profilaxia mas deu a lista dos hospitais de referência onde encontrar o serviço.

No Hospital Municipal Rocha Maia, o atendente chamou uma enfermeira, que, gentilmente, quis antecipar a ajuda, perguntando qual o tempo de exposição ao risco. Sim, o interessado podia ir para lá e seria atendido, na emergência se tivesse dentro das 72 horas de exposição; na referência, se tivesse passado disso.

Na UPA Engenho de Dentro, também disseram que o atendimento estava ocorrendo para a PEP. E na de Jacarepaguá, o atendente não sabia o que era mas foi atrás da informação e a transmitiu de maneira gentil, inclusive com o nome da pessoa que estaria aguardando o meu contato.

Violência contra menores e mulheres

Outro serviço de atendimento telefônico divulgado no material informativo da campanha #EuAbraço, o Disque 100, que recebe denúncias de situações de exploração sexual contra crianças e adolescentes, tem atendimento em inglês. E Disque 180, que trata sobre os crimes de violência contra mulher, embora não tenha atendimento eletrônico em inglês, conta com atendente que fala a língua e pode ajudar as estrangeiras.

Folhetos

Nos materiais informativos impressos do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, os textos estão em inglês e português. "Não vimos a necessidade de fazer também em espanhol por causa da proximidade entre nossos idiomas", disse Adele, no sábado, no Rio, durante o lançamento oficial da campanha, na Casa Brasil, um espaço do Ministério da Saúde.

O porta-camisinha é o modo mais usual de informação. É um material do Ministério da Saúde e aborda sobre uso da preservativo masculino, testagem de HIV e hepatites B e C, tratamento, Disque Saúde e, dentro, traz uma camisinha masculina. Porém, não fala sobre PEP, uma profilaxia bem menos conhecida.

Além de não divulgar a PEP, o porta-camisinha também não aborda discriminação e outras violências.

Já a fita métrica tem todas essas informações, trata sobre prevenção combinada, PEP, preservativo, testagem, tratamento, onde acessar serviços, violências e como denunciá-las. Segundo Adele, esses materiais, pelo menos nesse início de campanha, estão sendo distribuídos em ações simultâneas, para que um complemente o outro.

A fita faz parte da campanha #EuAbraço e tem toda uma interação na sua distribuição (voluntário e público) por meio do abraço, símbolo da campanha.

A ideia é encher a cidade de abraços coletivos, numa ação que já vem sendo feita desde a semana passada. E o tamanho desses abraços é medido com a fita. A campanha tem um portal chamado abraçômetro, onde será possível compartilhar fotos de abraços e informar o seu tamanho, equivalente à soma das alturas das pessoas na imagem registrada.

Foi anunciado durante o lançamento da #EuAbraço que medicamentos antirretrovirais serão disponibilizados para brasileiros e não-brasileiros em caso de perda, roubo e furto. Basta procurar uma unidade de saúde.

Foram citados ainda a existência de materiais informativos de parceiros como da Secretaria Municipal de Saúde do Rio. Porém, não havia nenhum no evento de lançamento.

Ações programadas

Voluntários do Departamento farão ações programadas de prevenção ao HIV/aids e as hepatites virais, com foco no uso da camisinha, em pontos como Porto Maravilha, Praça XV (Centro), Copacabana (Zona Sul) e Parque Madureira (Zona Norte). A campanha segue durante todos os jogos olímpicos e paraolímpicos.

Em momentos específicos haverá testagem rápida e gratuita para o HIV no Porto Maravilha e no Parque Madureira, disponível para toda a população, principalmente as mais vulneráveis como os jovens. A primeira testagem, com aconselhamento, está marcada para este domingo (7) e os casos positivos serão encaminhados às unidades de saúde.

A campanha do Unaids e do Ministério da Saúde tem apoio da Unesco, da UNFPA e da União Europeia, além de contar com a mobilização social da ONG AHF Brasil e do grupo Pela Vidda Rio e da parceria da Secretaria Municipal de Saúde do Rio.

Segundo Georgiana Braga diretora do Unaids Brasil, a campanha trata da união dos povos, do respeito à diversidade por meio de uma mensagem positiva. "É muito parecido com o que foi visto na cerimônia de abertura dos jogos", afirmou Georgiana. "O objetivo é utilizar a força simbólica e física do abraço para encorajar as pessoas a adotarem, durante a Rio 2016, atitudes de empatia, afeto, união, amizade, respeito, celebração, apoio e hospitalidade."

Adele Benzaken também contou que somam 200 os serviços de saúde emergenciais foram disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio, para quem precisar da PEP. E que há, ainda, voluntários do município distribuindo caixas de preservativos em bares, além de material informativo próprio da Secretaria.

Além desse serviço de parceria, Adele chama a atenção ao esforço da campanha #EuAbraço que está também distribuindo camisinhas em vários outros locais. "Aqui na Casa Brasil tem algumas máquinas de preservativo assim como em outros pontos de grande circulação de pessoas e na Vila Olímpica."

"A mobilização social conta com uma equipe de voluntários que chamam as pessoas para um abraço e na oportunidade falam de prevenção, o uso de preservativos e outras maneiras de prevenção da epidemia, como por exemplo, a testagem, explica Cristina Raposo", coordenadora da AHF Brasil.

Nas ações volantes, como também são chamadas as mobilizações, há a presença de "homens-camisinha", personagens que circulam pelos espaços e distribuem camisinhas masculinas e femininas e tiram selfie para a mobilização nas redes sociais por meio da #camisinha.

Campanha #EuAbraço

A campanha #EuAbraço foi inspirada no Princípio 6 da Carta Olímpica: "o usufruto dos direitos e liberdades deverão ser assegurados sem nenhum tipo de discriminação, seja ela de raça, cor, sexo, orientação sexual, linguagem, religião, opinião política ou qualquer outra opinião, nacionalidade, propriedade, nascimento ou qualquer outro status".

A campanha #EuAbraço segue até o final dos jogos Paralímpicos

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