Síndrome da zika: bebês completam 1 ano com problemas de saúde inesperados

Do UOL, em São Paulo

Duas semanas antes do primeiro aniversário, os médicos começaram a alimentar José Wesley Campos através de um tubo pelo nariz. Os problemas de deglutição têm deixado o menino muito abaixo do peso ideal.

O menino é uma das centenas de crianças nascidas com microcefalia após o surto do vírus da zika que atingiu o Brasil, em especial a região Nordeste. "Me dói vê-lo assim. Eu não queria isso para ele", disse a mãe, Solange Ferreira, à agência de notícias Associated Press.

Um ano após o aumento do número de crianças nascidas com microcefalia, médicos e pesquisadores têm encontrado bebês com dificuldades de deglutição, crises epilépticas e problemas de visão e audição.

Embora ainda sejam necessários mais estudos, a microcefalia causada pela zika parece causar problemas de saúde, que não aparecem em crianças microcéfalas atingidas por outras infecções, como herpes e sífilis.

Felipe Dana/AP
Os problemas são tão específicos que os médicos passaram a definir como síndrome congênita da zika, que inclui calcificações no tecido cerebral, hidrocefalia, problemas nos olhos, nos ouvidos e nas articulações e até membros com má-formação.

A neurologista pediátrica Vanessa Van der Linden disse à AP que as crianças apresentam convulsões e dificuldades para comer. Algumas já estão usando tubos para alimentação.

Sete por cento dos bebês com microcefalia que Van der Linden e sua equipe trataram também nasceram com má-formação em braços e pernas, sintomas que não tinham sido ligadas a outras causas de microcefalia.

Além disso, há crianças que nasceram com cabeças de perímetro considerado normal, mas que pararam de crescer proporcionalmente meses depois. Outros bebês, infectados com o vírus durante a gestação, não tem microcefalia, mas sofrem com dificuldades motoras.

Felipe Dana/AP
José, 1, é como um recém-nascido e faz terapia semanalmente. O bebê é lento para seguir objetos com os olhos, não consegue firmar os movimentos da cabeça e pesa menos de 5 quilos, muito abaixo dos 10 quilos, que é a média para uma criança da idade dele. O menino tem problemas respiratórios e usa óculos para ajudar a visão.

Felipe Dana/AP
Rozilene Ferreira e o marido, Elias Rodrigo, comemoram o aniversário de um ano de seu filho Arthur
Arthur Conceição, 1, tem convulsões todos os dias apesar de tomar medicamentos para a epilepsia. Ele também começou a tomar a fórmula de alto teor calórico através de um tubo depois de sufocar durante as refeições.

A mãe, Rozilene Ferreira, diz que sonha em ver o filho se alimentar normalmente e afirma que cada dia parece acrescentar novos problemas.

Segundo Ricardo Ximenes, pesquisador do Instituto Fiocruz, no Recife, estudos estão em andamento para determinar como a infecção pelo vírus da zika durante a gestação afeta a gravidade dos problemas de saúde das crianças.

Além disso, três grupos de bebês cujas mães foram infectadas pelo vírus da zika estão sendo acompanhados por um estudo financiado pelo National Institutes of Health, dos EUA. Os grupos incluem crianças nascidas com microcefalia, alguns com cabeças de tamanho normal e dano cerebral, e bebês que não tiveram quaisquer sintomas ou atrasos no desenvolvimento.

Ao nascer, a cabeça de Bernardo Oliveira media mais de 33 centímetros, considerado dentro da média normal. A mãe, Barbara Ferreira, que contraiu zika durante a gravidez, achou que o filho havia sido poupado dos problemas associados ao vírus.

Mas Bernardo chorava sem parar. Segundo a mãe, o pediatra disse que poderiam ser cólicas, que passariam ao terceiro mês. Conforme o choro piorava, a mãe decidiu levar o bebê para um evento financiado pelo governo, onde neurologistas estavam avaliando pacientes com suspeita de lesão cerebral.

Ao final do segundo mês, a cabeça de Bernardo parou de crescer. A mãe entrou em desespero.

Felipe Dana/AP
De acordo com o último boletim epidemiológico da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), até agosto foram confirmados 1.845 casos de bebês nascidos com más-formações no Brasil.

Apesar de todos os problemas, algumas crianças com a síndrome estão mostrando sinais de progresso.

Em uma noite recente, João Miguel Silva Nunes, de 11 meses, se levantou em seu cercadinho e brincou de esconder o rosto com a mãe, Rosileide da Silva. "Ele é minha fonte de orgulho. Me faz sentir que as coisas estão funcionando ", disse a mãe.

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