Vacina da dengue eleva hospitalizações em áreas críticas, diz estudo

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

  • Eduardo Knapp/Folhapress

A vacina contra a dengue Dengvaxia pode aumentar o número de hospitalizações mesmo nas situações para as quais a imunização é indicada pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Essa é a conclusão de um estudo feito com previsões matemáticas e publicado no periódico científico PLOS.

A OMS recomenda o uso da Dengvaxia, única vacina para combate à dengue existente e licenciada em diversos países do mundo, apenas onde 50% ou mais da população já tenha sido infectada pela doença --sendo 70% ou mais a faixa ideal. A vacina, indicada apenas para quem tem entre 9 e 45 anos, possui eficácia global de 66%.

A restrição feita pela OMS deve-se ao fato de a vacina funcionar, de acordo com alguns estudos, como uma primeira infecção da doença. A segunda infecção pelo vírus tende a ser mais grave. Haveria por isso o risco de a vacinação de pessoas que nunca tiveram a doença levar a um aumento de hospitalizações entre quem contraísse a doença pela primeira vez, após a vacina. A Sanofi, proprietária da vacina, nega que a vacina aumente as hospitalizações e que aja como uma primeira infecção.

De acordo com a nova pesquisa, os resultados adversos, como aumento de hospitalizações, poderiam ocorrer mesmo onde 80% da população já tenha contraído a doença – ou seja, mais do que índice recomendado como seguro pela OMS. A conclusão é fruto de uma projeção matemática que traça cenários com as consequências da introdução da vacina em campanhas de vacinação. São utilizados dados de testes clínicos que foram realizados pelos fabricantes da Dengvaxia ao longo de cinco anos em países da Ásia. 

"Estimamos para a população entre 9 e 45 anos, a aplicação da vacina aleatoriamente, entre soropositivos [quem já teve a doença alguma vez] e soronegativos [quem nunca foi infectado], e acompanhamos as consequências pelo período de 5 anos. Observamos um aumento de casos graves entre 25% e 70%", explica Maíra Aguiar, biomatemática da Universidade de Lisboa e uma das autoras do estudo.

O aumento no número de hospitalizações seria uma consequência da vacinação de pessoas que nunca tinham tido a doença e depois pegaram dengue. Assim, para os pesquisadores, esse risco existiria em qualquer contexto, e não apenas naquele não recomendado pela OMS. "A Dengvaxia não é segura para pessoas que nunca tiveram dengue", diz a biomatemática.

Contudo, ao limitar as projeções apenas a pessoas que já tiveram dengue, os resultados do estudo são positivos. "Avaliamos o mesmo modelo, mas restringindo a vacina apenas a soropositivos. Nesse caso, observamos uma diminuição de casos graves entre 40% e 60% em 5 anos", diz Maíra. Por isso, os pesquisadores defendem que a aplicação da vacina seja restrita a pessoas que já tiveram dengue uma vez.

"Os nossos resultados confirmam que a melhor maneira de utilizar a vacina seria testando as pessoas e vacinando apenas aquelas que já foram infectadas", diz Aguiar. As conclusões corroboram indicações anteriores feitas no mesmo sentidoEstudos publicados no periódico científico Lancet e na revista Science apontam que a vacina leva a um aumento de casos graves e hospitalizações em quem nunca teve a doença, consequência que poderia ser evitada com testes para detectar se a pessoa já foi infectada antes de ser imunizada. 

De acordo com os pesquisadores do recente estudo, 11 países já licenciaram a Dengvaxia. Grandes programas de imunização foram iniciados nas Filipinas e Brasil, no Estado do Paraná. No caso brasileiro, a vacina é dada tanto para pessoas que já tiveram dengue como para as que nunca foram infectadas. 

Em setembro, reportagem do UOL mostrou que o Paraná não possui pesquisas que indiquem a porcentagem da população que já contraiu a doença

Modelo matemático

Na fase de testes da Dengvaxia feitos em países como a Tailândia, Indonésia e Filipinas, em que foram vacinados indivíduos entre 2 e 14 anos, foram verificadas consequências negativas entre crianças de menos de 8 anos, com aumento de hospitalizações. Por isso, a vacina foi indicada pela OMS para quem tem mais de 9 anos. Porém, duas leituras diferentes foram feitas desse resultado. Em uma, a eficácia negativa estava relacionada à idade. Em outra, as crianças tiveram complicações porque, em sua maioria, nunca tinham tido contato com a doença.

Para chegar às atuais conclusões, o grupo de Aguiar considera que a eficácia da vacina não dependente da idade, mas sim do estado imunológico do indivíduo - se teve ou não a doença. "Quanto mais velha a pessoa, maior a chance de ter tido contato com a dengue", diz a pesquisadora.

Assim, no estudo, os resultados encontrados nos testes clínicos para indivíduos entre 2 e 8 anos na Ásia são generalizados para indivíduos entre 9 e 45 anos. Ou seja, se o número de hospitalizações aumentou entre crianças pequenas, também aumentará para indivíduos soronegativos de qualquer idade, argumentam os autores. Para validar as hipóteses, a simulação dos modelos prospectivos são similares com dados reais de hospitalização da província de Chiang Mai, na Tailândia.

'Estudo não usa dados reais', questiona Sanofi

A empresa farmacêutica Sanofi, fabricante da vacina, contesta a validade do estudo pelo fato dele se tratar de uma modelagem matemática. "Colocam várias hipóteses para gerar possibilidades durante introdução de vacina. Mas hipóteses não são certezas. Não usam os dados reais", diz Sheila Homsani, diretora médica da companhia.

"Importante ressaltar que um estudo com base exclusivamente matemática (com premissas teóricas apenas), sem teste em humanos, embora relevante, não pode ser comparado à vida real", diz a Sanofi em nota. De acordo com Homsani, os dados do modelo utilizado pelo grupo de Aguiar não são válidos pois se referem à faixa etária que não é a indicada para receber a vacina.

Para Aguiar, o uso de modelos matemáticos para prever o comportamento de vacinas é comum. "Qualquer campanha de vacinação precisa de modelagem para verificar o que acontece. Nós nos baseamos em dados reais para prever o que vai acontecer", diz.

A representante da Sanofi também contesta a ideia de que a vacina funcionaria como uma primeira infecção pelo vírus da dengue. "O vírus existente na vacina é todo modificado, diferente do vírus que vive no ambiente", diz Homsani. Ela diz ainda que os testes feitos com a vacina contradizem a teoria de que o segundo caso de dengue tende a ser mais grave.

Segundo a farmacêutica, os testes clínicos mostraram que a vacina reduz os casos de hospitalizações em 81%. Pesquisa da Sanofi que aponta aumento de hospitalizações entre crianças com menos de 9 anos afirma que as causas desse fenômeno são desconhecidas. 

Um estudo que norteou as recomendações da OMS diz que a leitura de que a vacina agiria como uma primeira infecção por dengue possui consistência com a análise dos dados clínicos, mas ainda é inconclusiva devido à ausência de novos números. 

De acordo com a Sanofi, a empresa não deve fazer novos estudos em países em que as agências regulatórias já aprovaram seu uso, como o Brasil. 

Procurada pela reportagem, a OMS diz que suas recomendações continuam as mesmas para a aplicação da vacina da dengue. No entanto, a organização diz que pode reavaliar suas orientações caso se verifiquem novas evidências científicas que mostrem a necessidade dessa atualização.

A OMS não respondeu se há prazo para que sejam analisados os novos estudos sobre a Dengvaxia.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos