Romário pagou por cirurgia, mas não deveria. "É antiético", diz Comissão

Bia Souza

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Instagram

A cirurgia de interposição ileal entrou em discussão após o senador e ex-jogador de futebol Romário (PSB-RJ) se submeter ao procedimento para controlar o diabetes. Além do debate sobre a eficácia, a intervenção não é reconhecida pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) e pelo CNS (Conselho Nacional de Saúde) e por isso só poderia ser realizada em caráter experimental, seguindo uma série de regras incluindo ser gratuita.

A cirurgia que tenha caráter experimental só pode ser realizada no âmbito da pesquisa clínica e não na rotina assistencial. O procedimento deve respeitar os preceitos éticos, que determinam que os participantes da pesquisa tenham ressarcidos todos os gastos que tiverem decorrentes do estudo. Portanto, não é aceitável do ponto de vista ético que os pacientes paguem para realizar um procedimento considerado experimental

José Humberto Fregnani, membro titular da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa

O procedimento também precisaria estar vinculado ao comitê de ética de uma instituição de pesquisa.

Em entrevista ao Fantástico, Romário afirmou ter arcado com os custos do procedimento. "Paguei pela cirurgia como as outras pessoas pagaram e bastante consciente que ela iria dar esse resultado", ressaltou.

A diferença dessa técnica, desenvolvida pelo médico goiano Áureo Ludovico de Paula, para a cirurgia bariátrica convencional está na recolocação do íleo (fim do intestino delgado) entre o duodeno e o jejuno, o que aumenta a produção de hormônios da saciedade e melhoram o diabetes. O custo da cirurgia só é informado ao paciente após a realização de exames prévios.

Em nota a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e a Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) reforçaram que não há evidências que comprovem a eficácia do procedimento no tratamento da diabetes tipo 2 para pacientes com IMC abaixo de 35.

Na Justiça, sete famílias de pacientes de Ludovico alegam que os parentes morreram em decorrência de complicações da cirurgia, e outras sete declaram ter ficado com sequelas graves.

Quando é indicada?

O diabetes tipo 2 surge quando o organismo não consegue usar a insulina que produz de forma adequada, ou produz insulina insuficiente para controlar a glicemia. A doença se manifesta na idade adulta por uma junção de predisposição genética, sedentarismo, obesidade e má alimentação.

No caso de Romário, ele estava abaixo do IMC de 30, que caracteriza obesidade. Com 1,69 de altura e 80 kg, o senador, com IMC de 28, estaria na categoria de sobrepeso.

Em 2011, o médico chegou a ser proibido de realizar o procedimento, mas foi liberado desde que os pacientes fossem informados de que o procedimento é experimental e não tem eficácia comprovada.

Romário também afirmou estar ciente dos riscos do procedimento. Pelo menos sete pacientes que passaram pela cirurgia morreram. "Eu sabia de tudo. Tudo o que eu fiz foi bastante consciente. Li muito sobre isso, conversei muito sobre isso", disse. "Cada pessoa reage de uma forma. Meus sentimentos às famílias que perderam os seus entes queridos, mas eu penso diferente e só posso falar por mim", disse o senador.

Ludovico de Paula enfrenta uma ação civil do Ministério Público Federal na Justiça, que pede a proibição da cirurgia, e três processos na Justiça comum por danos morais, materiais e estéticos.
 
O médico disse ao Fantástico que o procedimento é extremamente seguro. "Pondera-se no entanto que existem riscos inerentes a qualquer procedimento e os riscos inerentes ao próximo estado do diabetes", afirmou Ludovico de Paula
 

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