12 mulheres morreram por câncer ligado a implante de silicone nos seios

André Carvalho

Do UOL, em São Paulo

  • Getty Images

    Foram registrados 405 casos de câncer ligado ao implante de prótese mamária nos EUA e na Austrália

    Foram registrados 405 casos de câncer ligado ao implante de prótese mamária nos EUA e na Austrália

Um anúncio da FDA (Food and Drug Administration), órgão norte-americano responsável pelo controle de alimentos e medicamentos nos EUA, realizado nesta terça-feira (21), revelou que um raro tipo de câncer, ligado ao implante de próteses mamárias, foi associado a 12 mortes, sendo nove nos Estados Unidos e outras três na Austrália.

De acordo com o informe, foram notificados pela FDA 359 casos nos EUA de 2016 até o final de janeiro deste ano, enquanto o TGA (Australian Therapeutic Goods Administration), órgão responsável pelo controle de medicamentos no país da Oceania, relatou a confirmação de 46 casos. Segundo o cirurgião-plástico Wendell Uguetto, foram notificados 4 casos deste tipo de câncer no Brasil, sem mortes registradas.

As aparições destes linfomas se deram nas cápsulas --camadas de tecido cicatrizante que se formam ao redor de toda superfície do implante mamário--, não podendo ser classificados como câncer de mama. Chamado de linfoma anaplásico de células grandes, foi identificada pela primeira vez em 2011, mas na época havia poucos casos documentados.

Em muitos casos, segundo o FDA, a remoção do implante e do tecido em seu redor elimina a doença, que vem à tona com o desenvolvimento dos sintomas (surgimento de nódulos, dor, acumulação de fluidos e inchaço). Há relatos, porém, de mulheres que precisaram passar por tratamentos de radioterapia e quimioterapia para o tratamento da doença.

Para Stephanie Caccomo, porta-voz da FDA, o anúncio de terça-feira foi feito porque "em 2016, houve vários avanços na descrição da doença e recomendações de tratamento, incluindo o reconhecimento da doença pela Organização Mundial de Saúde".

Em 231 casos relatados pelo órgão norte-americano foram registrados o tipo de implante mamário utilizado, a maioria (203) deu-se com prótese texturizada. Os pesquisadores norte-americanos, no entanto, afirmam faltar evidências de que a utilização deste tipo de prótese possa levar a uma propensão maior do surgimento do linfoma do que a implantação da prótese lisa. A possibilidade do surgimento câncer estar ligado à presença de uma bactéria também não foi descartada. 

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"Não podemos criar alarde"

Para Uguetto, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a informação divulgada pelo órgão norte-americano "foi uma surpresa", porém "não devemos criar alarde" já que "o número [de casos diagnosticados e de mortes] é pequeno e talvez não esteja relacionado apenas ao implante, e, sim, ao tipo de paciente que recebe o implante". Só nos EUA, foram 290 mil cirurgias de implante de silicone em 2016.

Uguetto ressalta, porém, que os casos são antigos e que "faltam novos estudos no Brasil para determinar novos dados" e saber a real extensão da doença no país.

O médico também relativiza a maior incidência de próteses texturizadas na ocorrência do câncer. Para ele, é natural que haja mais casos envolvendo as próteses texturizadas já que estas são mais utilizadas pelas mulheres do que as próteses lisas. "Cerca de 20 anos atrás, todas as próteses eram lisas. Mas nos últimos 10 anos, nós passamos a usar mais próteses texturizadas", afirma.

O cirurgião explica, ainda, que há uma contradição nesses dados divulgados pela FDA, já que "a prótese lisa faz mais contratura e esse tumor é encontrado nessa contratura, nessa cápsula que o implante faz. Mas os dados demonstram que tem mais a ver com a prótese texturizada".

A explicação, para ele, pode ser encontrada na marca utilizada com prevalência pelas mulheres norte-americanas diagnosticadas com o câncer. "A maior incidência foi notada em um tipo de implante mamário da marca Allergan, que faz uma dupla cápsula [ao redor da prótese]. Então, isso pode ter relação", explica.

"A Allergan, como líder no mercado de implantes mamários em todo o mundo, está comprometida em apoiar pesquisas internas e externas para entender melhor as potenciais causas e melhorar o diagnóstico e tratamento desta doença. Embora a causa exata da doença seja atualmente desconhecida,  pesquisadores estão investigando causas imunológicas, genéticas e bacterianas", disse a empresa em nota. Os implantes da Allergan são usados há mais de 40 anos em mais de 60 países

O cirurgião-plástico André Colaneri também acredita que a postura a ser adotada pelos médicos junto aos pacientes seja de "cautela". No entanto, ele afirma que os cirurgiões devem, a partir de agora, ficar mais atentos a sintomas relacionados a doença. "Poderemos ter um cuidado maior, retirando a cápsula e mandando para exames. Sabemos, afinal, que pode ter algo além de uma simples dor ali".

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